HIPPOLYTE BAYARD, O “AFOGADO”
No dia 14 completaram-se 130 anos da morte de Hippolyte Bayard (Breteuil-sur-Noye, França, 20 de janeiro de 1801 — Nemours, França, 14 de maio de 1887)
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Em 1839, ano em que foi apresentado o Daguerreótipo, o francês Hipollyte Bayard desenvolveu um processo fotográfico positivo sobre papel: uma folha de papel era mergulhada numa solução de cloreto de sódio; depois de seca era mergulhada numa solução de nitrato de prata; quando estava quase seca era exposta a vapores de iodo e depois vapores de mercúrio; a luz descolorava a branco as zonas expostas fotograficamente, pelo que a imagem era um positivo direto e única.
Bayard fez a apresentação pública das suas imagens em 24 de junho de 1839, ainda o daguerreótipo não havia sido apresentado.
Bayard estava ligado à Academia das Ciências de Paris, à Academia de Belas-Artes de Paris e à Sociedade Francesa de Fotografia, mas o deputado François Arago, que havia levado o estado francês a adquirir a patente de Daguerre, convence Bayard a não tornar pública a sua invenção, assistindo este ao sucesso daquele outro processo.
No ano seguinte, como forma de protesto e com data de 18 de outubro, efetuou um retrato: “Autoportrait en noyé”, isto é, “Autorretrato afogado”.
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Hippolyte Bayard, Autoportrait en noyé, 1840 (frente e verso)
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Este retrato constitui um dos primeiros ‘paradoxos‘ da fotografia: como se pode ele fotografar estando afogado? Na verdade, é (só pode ser) uma encenação. Um alerta para a sua situação: as fotografias sobrevivem. No verso da fotografia escreveu:
Le cadavre du Monsieur que vous voyez ci-derrière est celui de M. Bayard, inventeur du procédé dont vous venez de voir ou dont vous allez voir les merveilleux résultats. À ma connaissance, il y a à peu près trois ans que cet ingénieux et infatigable chercheur s’occupait de perfectionner son invention. L’Académie, le Roi et tous ceux qui ont vu ces dessins que lui trouvait imparfaits les ont admirés comme vous les admirez en ce moment. Cela lui fait beaucoup d’honneur et ne lui a pas valu un liard. Le gouvernement qui avait beaucoup trop donné à M. Daguerre a dit ne rien pouvoir faire pour M. Bayard et le malheureux s’est noyé. Oh ! instabilité des choses humaines ! Les artistes, les savants, les journaux se sont occupés de lui depuis longtemps et aujourd’hui qu’il y a plusieurs jours qu’il est exposé à la morgue personne ne l’a encore reconnu ni réclamé. Messieurs et Dames, passons à d’autres, de crainte que votre odorat ne soit affecté, car la figure du Monsieur et ses mains commencent à pourrir comme vous pouvez le remarquer.
[signature] 18 Octobre 1840.”
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Traduzindo para português (tradução livre):
O cadáver do senhor que se vê no anverso é do Sr. Bayard, inventor do processo que acaba de ver e do qual vai ver os maravilhosos resultados. No meu conhecimento, há cerca de três anos esse engenhoso e infatigável pesquisador se ocupava a aperfeiçoar a sua invenção. A Academia, o Rei e todos aqueles que viram esses desenhos que a ele pareciam imperfeitos os admiraram como vós os admirais neste momento. Isso deu-lhe grande honra e não lhe valeu um cêntimo. O governo que tinha dado demasiado ao Sr. Daguerre disse nada poder fazer pelo Sr. Bayard e o infeliz afogou-se. Oh!, instabilidade das coisas humanas! Os artistas, os eruditos, os jornais ocuparam-se dele durante muito tempo e hoje, quando há vários dias ele está exposto na morgue, ninguém ainda o reconheceu ou reclamou. Senhores e Senhoras, passemos a outros, por temor de que o vosso olfato seja afetado, pois a figura do senhor e suas mãos começam a apodrecer, como podem observar.
[assinatura] 18 Outubro 1840.”
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Sobre a descoberta da fotografia e a sua apresentação, no Fascínio da Fotografia, pode ler “Os Proto-Fotógrafos” aqui, “Niépce e Daguerre” aqui, “O Calotipo de Talbot e de Bayard” aqui e “A Apresentação Pública” aqui.
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