NAZARÉ, ARTUR PASTOR, 1958

95 anos do nascimento de Artur Pastor (Alter do Chão, 1 de Maio de 1922 – Lisboa, 17 de Setembro de 1999)

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Artur Pastor

Nazaré

Fotografia, texto e realização artística: Artur Pastor

Lisboa: Livraria Portugal / 1958

Português, francês e inglês / 21,5 x 28,6 cm / 54 págs (texto) + 92 págs não numeradas (fotografias)

Cartonado com sobrecapa e acetato

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Artur_PAstor-Nazare-1958 (1)

 

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Artur Pastor começa a fotografar em 1942 a fim de documentar a tese de final do curso de Regente Agrícola, na Mitra, em Évora, o fascínio pela fotografia instala-se de imediato.

Nesta cidade onde a fotografia tem muitos praticantes, profissionais e amadores, envolve-se em vários projetos fotográficos. Quando no início da década de 50 vai trabalhar para os serviços do Ministério da Agricultura em Montalegre, tenta formar uma associação fotográfica em Braga, mas logo em 1953 vem trabalhar para Lisboa, como Engenheiro Técnico Agrário, para a Direção Geral dos Serviços Agrícolas, onde virá a fundar a Fototeca da instituição, sendo o autor de cerca de dez mil fotografias deste arquivo. Em Lisboa integra o Foto Clube 6×6.

Graças ao seu trabalho viaja por todo o país, registando-o de norte a sul. Viaja em trabalho e, aos fins-de-semana e em férias, com a família, seguindo muitas vezes objetivos fotográficos.

Pelo serviço prestado enquanto fotógrafo do Ministério da Agricultura, foi-lhe atribuído o grau de Oficial da Ordem de Mérito Agrícola e Industrial (Classe do Mérito Agrícola).

Artur Pastor participou em várias exposições, tem fotografias publicadas em diversas  edições, e publicou dois álbuns de grande formato: “Nazaré” e “Algarve”.

Este livro reúne um conjunto de fotografias da vida piscatória, da vila, da sua monumentalidade e património, a par de um excelente texto. As fotografias foram impressas em rotogravura, com uma profunda riqueza de cinzas e tons quentes, o restante, offset e tipografia.

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Sobre o livro Nazaré, escreve Luís Pavão no texto “Pastor, guardador de sonhos”, no livro Artur Pastor, edição do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, apenas em versão digital, por ocasião da exposição dedicada a Pastor, em 2014 (pode ler aqui, págs 19-21):

Pastor revela-se um fotógrafo infatigável. Ao longo da década de 50, a sua atividade continua, agora virada para a produção do livro Nazaré. As fotografias, reunidas em 1956 num exemplar único, são oferecidas à Rainha Isabel II, quando da sua visita a Portugal em 1957. A publicação vem depois, num volume com texto e um bom conjunto de fotografias, de bela impressão em gravura, valorizando assim a riqueza dos tons de cinza, destacando os negros profundos, ditos aveludados, deste processo de impressão. Das vestes negras das varinas à brancura dos muros caiados e à espuma do mar, Pastor consegue reproduzir e valorizar uma extensa paleta de tons de cinza, muito bem reproduzida, num livro que dá prazer folhear.

Nestas páginas encontramos imagens diversificadas, das atividades e das pessoas, a par de fotografar motivos pousados e preparados. Aqui encontramos algo de novo na sua representação fotográfica, é mais realista, menos preocupada com o estilo pessoal, mais frontal na sua observação e representação da realidade. Pastor aparece mais próximo dos seus motivos, mais à vontade no meio das gentes que fotografa em plena atividade, no amanhar do peixe, na luta com o mar, no puxar das redes, nos momentos angustiantes de espera do regresso dos barcos e no esforço de lançar e recolher as embarcações a partir da praia, com homens, bois e cordas em comunhão de esforços. Pastor mostra-se interessado agora em transmitir uma imagem favorável, positiva do povo laborioso.

Dominando com plena mestria a sua Rolleiflex 6×6 cm, abundam as imagens instantâneas, dinâmicas, que não são ensaiadas, antes repetidas numa rotina diária de homens e animais, que o fotógrafo observa e acompanha durante meses. Em contraste com estas, Pastor insere outras imagens, preparadas com antecedência, de pescadores e varinas a posar, envergando as roupas típicas, imaculadamente limpas, que no seu aspeto impecável e na perfeição da composição, contradizem as restantes imagens. A única fotografia a cor do livro é a da capa, uma opção que podemos questionar: Pastor usava o preto e branco por preferência ou por falta de meios técnicos? A mensagem global do livro é muito clara: povo trabalhador, ordeiro, digno, orgulhoso das suas origens e tradições. Não são miseráveis, não são mandriões, não são vagabundos. Pastor é sempre positivo e construtivo na sua apresentação do mundo, fotografa por amor é uma das linhas que o acompanha toda a vida. É por isso bem aceite pelo Estado Novo, sem estar diretamente envolvido ou comprometido. Nas suas fotografias estão ausentes os pedintes, os miseráveis, as construções decadentes ou abandonadas, embora existissem na Nazaré da década de 1950.”

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Sobre a vila da Nazaré, escreve Artur Pastor com o título “A Nazaré e a Fotografia”, publicado em Nazaré, nº 4, janeiro de 1957:

Nazaré, essa palavra mágica do turismo lusíada, para a qual, percorridas as longínquas estradas do mundo, convergem, ávidos de beleza e ineditismo, incontáveis artistas, deslumbrados pela sua fama, apresta-se, através da sua recente «Liga dos Amigos da Nazaré», para realizar, no verão de 57, o seu I Salão Nacional de Fotografias.

Manifestação oportuna e feliz, quase escreveria dever de uma geração de fotógrafos-artistas, que tanto têm sabido elevar o nome português no estrangeiro, a exposição obterá o nível e reivindicará o entusiasmo que auguramos.

No limiar da iniciativa, lançada apenas a sua semente, mal desbravado o caminho de uma realização, contamos, no entanto, que na primavera, após a letargia invernal, o sol juvenil, ardente, acariciando a Nazaré, traga ao coração dos artistas o calor e o estímulo necessários para abalarem e em paragens nazarenas fixarem o mundo de cor e movimento que tão prodigamente lhe é oferecido.

A «elite» do amadorismo, que, na sua quase totalidade, já percorreu, deleitada, a praia e seus arredores, terá assim um óptimo, electrizante, pretexto para voltar. Na verdade, o termo de encantamento que é a Nazaré desentranhar-se-á num manancial inesgotável de motivos.

Na praia, as proas hirtas e alinhadas, apontadas aos céu, as figuras de granito, extáticas, quais monumentos prostrados no areal. Rostos tisnados pelos sois de impiedosos verões, enrugados pelos ventos rudes, como que esculpidos em dor e amargura, seus olhos cintilantes, nostálgicos, pousados no mar.

Langorosas, traineiras e bateis varados, nas ondas, bamboleantes, armações esguias, e sempre, dia e noite, essa rebentação incerta, traiçoeira, a desafiar audácias.

Os artistas terão espectaculares largadas, a babel de apetrechos da campanha, as redes caprichosas a desenharem esperanças, e, tudo sobrelevando, a gente e o seu pitoresco trajo. Ora policrómico, vivo, ora negro, monástico, de almas perenemente enlutadas, tristezas a debruçarem-se nas ondas, como se contemplassem entes queridos que saíssem desse imenso cemitério do mar.

A Nazaré, tão própria e individual, desdobrar-se-á. Os fotógrafos que, além de artistas, sejam amantes doutros misteres, possuirão assuntos igualmente apaixonantes. O fotógrafo-etnólogo recordará a origem setecentista dos pescadores da praia da Nazaré, os ataques de piratas argelinos, as imigrações nortenhas, até a entoação da voz especial dos naturais, o arqueólogo, a Pederneira medieval, essa «SENO PETRONERO» de vestígios não extintos, o poeta, o cântico implorativo das sereias, ou as noites cálidas, luarentas, em que a espuma é como a renda de noivado, o romântico, a lenda da aparição da Virgem a D. Fuas e a causa da Capela da Memória, o contemplativo, o mar eterno, esse mar gigantesco que os portugueses trazem bem no coração, o hagiógrafo, a odisseia da imagem primitiva, trazida por Círiaco de Judá, o historiador, a Igreja fernandina, onde reis, navegadores e apóstolos oraram, o literato, as páginas magistrais de Raul Brandão, o regionalista, a convicção do não divórcio das tradições, o turista, enfim, o estranho, o imensamente surpreendente das figuras, da safra, do casario inundado de cal, com seus becos, ruelas estreitas e cunhais, a lembrarem os brancos de Pousão.

Bem haja a «Liga dos Amigos da Nazaré» por não esmorecer do seu plano. Surgirá o momento em que os regulamentos se distribuam e as datas se fixam. Depois, será aguardar, confiadamente.

Que a exposição, mercê da mais moderna e comunicativa manifestação de Arte, se efective, e que a ela concorram, não apenas a legião dos que passam pela Nazaré, anonimamente, e souberam transformar os habitantes em modelos experimentados, mas sobretudo a plêiade de consagrados, são os nossos votos.

A Nazaré, como local privilegiado que é para a Fotografia, terá, sem dúvida, a sua reprodução condigna nesta modalidade. A Fotografia portuguesa estará presente.”

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Artur Pastor, Nazaré, 1958

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Pode ver fotografias de Artur Pastor no Tumblir, aqui.

Pode ver o vídeo de Vitor Balau, “NAZARÉ CLOSE-UP – #1 Artur Pastor”, com fotografias da Nazaré, de Artur Pastor, aqui.

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