RETRATOS E OUTRAS ESTÓRIAS, 1985-2001, 2017 – OS PRINCÍPIOS DE UMA OBRA. CONVERSA COM VALTER VINAGRE
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A propósito da exposição Retratos e outras histórias que se encontra patente no Museu do Ciclismo, nas Caldas da Rainha, de 14 de janeiro a 19 de fevereiro de 2017, conversámos com Valter Vinagre, que falou da sua vida, da sua história e como esta exposição é importante: mostra os princípios de obra.
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Valter Vinagre, António Duarte – Hermínio de Oliveira – Mário Gonçalves – José de Sousa – Ferreira da Silva – Cemitério de Nossa Senhora do Pópulo – Destruição do Teatro Pinheiro Chagas, 1992 – Sem título, 1989 – Mata Rainha D. Leonor, 1986 – Paul da Tornada, 1991
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O Início
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Natural de Avelãs de Caminho (1954), no concelho de Anadia, Valter Vinagre cedo percebeu que para medrar, tinha de viajar. É assim que, partindo à boleia, vai conhecendo outros locais.
Em 1972 ingressa na Marinha de Guerra, como voluntário. Em 1974 e 75 tem um papel ativo no plano de transformação política do país. No 25 de Novembro, é um dos perdedores, saindo da vida militar em 1976, ao fim de quatro anos e meio de serviço de um contrato de seis. “Assumi o lado que escolhi e sofri as consequências, sem amargura. Fui expulso. Tecnicamente, passámos à reserva.”
Nas Caldas da Rainha
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“Em 1976 vim para as Caldas por amor. A mãe dos meus filhos mais velhos é de cá e eu mudei-me nessa altura.” Viverá nas Caldas 30 anos. Começa a trabalhar na autarquia, na limpeza de ruas, passa para o Turismo e para a Cultura, onde irá desenvolver, ao longo de vários anos, um importante trabalho na organização de exposições temporárias: na Galeria Municipal Osíris, no Museu António Duarte e no Centro de Artes, onde inúmeros jovens artistas têm a sua primeira individual.
Foi também um dos fundadores do Cine Clube “que durou uma década e que funcionou, nos anos 80, nos Pavilhões do Parque. O nosso programa de apresentação e divulgação do cinema não se circunscrevia, unicamente, a sala na sede. Tínhamos vários ciclos com programação dentro e fora do concelho de Caldas da Rainha.”
Experimentou também atividade na serigrafia, nas marionetas, no canto coral, e no teatro. Aventurou-se na escrita de reportagens, crítica de cinema e de fotografia. Mas escrever não era fácil, antes “algo doloroso”: importava dizer o que sentia e não outra coisa.
Começa na fotografia nas Caldas da Rainha, com máquinas emprestadas. “Comecei a namorar [a minha atual companheira] em 1981, a fotografar em 1985. A minha 2.ª máquina era dela, eu não tinha dinheiro.” É também em 1985 que começa a fotografar para a Gazeta das Caldas, o que fará ao longo de 16 anos, até 2001.
A fotografia foi algo pensado, maturado”. Diria que “foi um esforço grande, não havia apoios e ao fim de um ano de começar a tatear tive a certeza que tinha que frequentar uma escola. Até por uma questão de disciplina.”
Vinagre faz o Curso de Fotografia do Ar.Co, em Lisboa, entre 1986 e 1989, contando com o apoio do município (em dispensa de horário) para estudar. “Lembro-me que ia muitas vezes com a então minha colega na autarquia Luísa Pimenta que, na época, estudava Direito e dava-me boleia.” Relativamente à aprendizagem, diz que “até final dos anos 80 absorvi tudo e ia descartando o que não me interessava”.
A sua primeira exposição individual teve lugar no café/restaurante da Estação da CP das Caldas da Rainha, com o apoio da CP: Comboio, pretexto para um olhar, em 1988, ainda estudante no Ar.Co. As imagens a preto e branco eram acompanhadas por um texto do arquiteto e amigo Nuno Teotónio Pereira, que também desenhou o cartaz – catálogo da exposição.
Este trabalho, cruzou a fotografia com a arquitetura. Nas minhas viagens Caldas- Lisboa-Caldas, por vezes, saía do comboio e ficava à espera do outro, para fotografar as estações, os pavilhões para armazenamento das mercadorias e as vedações em betão: têm uma história na arquitetura, o Nuno Teotónio Pereira escreve sobre isso.”
A segunda exposição foi também nas Caldas da Rainha: Notas pessoais, foi realizada em 1991 com imagens do seu arquivo, em grande parte das Caldas, e também editada. O texto, “A Secura do Olhar”, é de José Carlos Almeida, professor de filosofia, que está também a escrever para o livro que sairá no âmbito desta exposição. Para Nus Corpos (1991) a sua terceira individual e “que se saiba foi a primeira exposição de fotografia de nu nas Caldas nesse século”, foi buscar um texto do Óscar Wilde.
Sobre a necessidade de expor, diz Vinagre:
A necessidade de expor vem da necessidade em me confrontar com o olhar externo, poder arriscar. Era-me de uma grande importância o feed-back dos outros. Depois, nunca mais parei de expor e de publicar.”
Em 1999 vence a 6ª Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, o prémio inclui a realização na bienal seguinte (2001) de uma exposição e a edição de um livro. Será Carta do Sentir, mas o livro será editado por Vinagre, pois não concorda com as exigências da organização, nomeadamente a edição englobar também o outro autor premiado (Prémio Vila Franca de Xira), cuja norma não fazia parte do Regulamento da Bienal.
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António Bracons, Valter Vinagre, 2016
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Sobre a sua fotografia
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Para Vinagre o ver, o conhecer, a cultura, sempre foi importante, “Eu quando não tinha oportunidade de visitar uma exposição, procurava e adquiria o livro ou catálogo se estivasse dentro das minhas parcas possibilidades financeiras.”
É um profundo conhecedor das Caldas, para quem esta cidade assume uma grande importância no panorama cultural português. “É onde se constrói, em Portugal, o primeiro edifício de raiz para ser um museu, o Museu de José Malhoa.” Tem “pequenas pérolas de pintura e escultura no acervo”. Acrescenta: “Há três ou quatro coisas que quero ver sempre. A luz, marca-me. A gente do Grupo Leão, alguma pintura flamenga, gosto, marca-me. Aquela luz moldou a minha fotografia. Sempre que vou às Caldas, se tenho tempo vou lá.”, diz Vinagre, que sublinha:
Há duas coisas que moldam a minha fotografia: o cinema e a pintura, a mais antiga, do séc. XV para a frente, até ao séc. XIX, sobretudo.”
Contudo, refere:
Não faço cinema nem pintura. Não me tem feito sentido, até agora, a imagem em movimento como peça expositiva. Realizei um filme (“Espera”) em 2015 e que foi apresentado na minha exposição “Posto de trabalho” no Museu da Electricidade / MAAT em Lisboa, filmado por mim e pelo Bruno Cabral. Não sei se e quando voltarei a fazer.” (Pode ver no Fascínio da Fotografia aqui).
Por outro lado,
enquanto fotógrafo, busco respostas para as minhas inquietações. São essas inquietações a base dos meus projetos individuais”
Vinagre gosta de trabalhar os projetos, concluir, apresentar.
O projeto é o projeto, vamos em frente no caminho. Se volto atrás é porque tem de fazer sentido. O meu trabalho está minimamente cartografado na cabeça. Não sei onde está, sei que o tenho. Às vezes levo um longo período de tempo e outras vezes é mais rápido [a encontrar].
Há coisas que fotografei e que na não fizeram sentido altura, mas tinha que os fazer. Depois vou buscar, faz sentido. Como é o caso de “Da natureza das coisas”, fotografado entre 1999 e 2005 e apresentado em 2016 na Travessa da Ermida”. (Pode ver no Fascínio da Fotografia aqui).
Sobre a essência e a natureza do seu trabalho, comprometido, refere:
Documental… Este não é nada documental [referindo-se a “Variações para um fruto”]. Ou por outra, eu tenho um trabalho documental que não assumo nada como documental. É de reflexão e de denuncia. A fotografia tem muito de documental. Mas é muito mais que isso. O grosso dos meus projetos são um trabalho politicamente comprometido.”
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Cartaz da exposição
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Retratos e outras estórias
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A exposição “Retratos e outras estórias” está integrada nas comemorações dos 90 anos da Gazeta das Caldas, fundada em 1925, no âmbito das quais tiveram lugar vários eventos e exposições: de cerâmica, cartoon, fotografia.
Foi feito o convite a Valter Vinagre para expor. Houve um adiamento e uma insistência. Para Valter
os meus ‘anos da Gazeta’ [1985-2001] correspondem aos anos que eu considero da minha aprendizagem, de risco, de experimentar, de fazer as coisas numa procura constante; a Gazeta foi ela também, para mim uma escola.”
O projeto foi-se formando. Implicava ir ao arquivo, pesquisar:
Comecei a pensar que o melhor era separar águas. O que era mais pessoal, incluindo o retrato e o que era notícia. Havia que selecionar a partir de mil e tal fotogramas. Como havia coisas no meu arquivo que eu não tinha usado nunca, pareceu-me que fazia sentido juntar aos retratos umas histórias. E depois as imagens tinham de ter a ver com o concelho das Caldas da Rainha. No caso de retratos, as pessoas não precisavam de ser de lá, mas os retratos tinham de ser feitos lá e estarem ligados à história passada ou recente das Caldas.
Depois destes anos todos, o olhar para aquele arquivo, solitariamente e ver como tateei, quase como um bebé quando começa a andar, foi deveras inquietante.
Há retratos de pessoas feitos para entrevistas publicadas. Procurei escolher imagens que não tinham sido publicadas. Há um reenquadrar. Para mim foi um pouco doloroso, por um lado, porque eu tinha perdido um lote de películas numa inundação na casa onde eu morava, mas não sabia ainda o que tinha perdido. Ao ir à procura e descobrir o que se perdeu, é sempre uma dor. O perder é sempre uma dor.
Parti de 1000 e tal imagens, fui descascando, limpando, quando cheguei às 320 imagens, creio eu, tornou-se claro que tudo o que era notícia saía. Retratos e outras estórias… Assumi que essencialmente eram retratos, porque era uma forma de dar a ver as pessoas que, quanto a mim, foram de uma importância maior, para a história da cidade. Depois, eu percebi que havia outras que tinham de lá estar, faziam parte da minha aprendizagem. A partir daí senti-me tranquilo, pacífico. No último dia, com cento e poucas, só então a minha companheira ajudou na seleção final.
Deixei de fora tudo o que era notícia, se já era claro, agora é muito mais claro. Isso é outro corpo de trabalho. Será outra exposição.”
A exposição, um propósito:
Nessa redução, o que fazia sentido, quase como uma devolução às pessoas e às Caldas, a história das pessoas que é a minha, fazer essa homenagem às pessoas que, do meu ponto de vista foram – foram, umas, porque entretanto morreram, outras ainda são – importantes na construção da cidade das Caldas da Rainha. Retratos e outras estórias, porque só retratos pareceu-me muito curto.
São 77 retratos.
São retratos de gente, das pessoas simples a médicos, engenheiros, professores, artistas. Pessoas que construíram a cidade. Todo o seu desenvolvimento. A sociedade civil. Que raramente coincidia com quem gere o espaço cidade. As pessoas que, quanto a mim, tiveram uma importância maior na comunidade, nas artes, na cultura em geral, no ensino… Estão lá todos, salvo alguns porque infelizmente perdi os negativos na inundação, uns seis ou sete mais, não há nada a fazer. É uma homenagem às Caldas.”
Para Valter Vinagre,
“Estes 15 anos [da Gazeta] são seminais. Muito do que estou a fazer hoje está nesta exposição, os princípios estão lá. Os meus retratos, as outras que se podem considerar paisagens. Os meus espelhos de água, as minhas coisas que vieram da pintura do séc. XIX e anterior, etc.
É um pouco a génese desta exposição.”
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Valter Vinagre, Aspetos da exposição, 2017
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Esta exposição representa um marco na obra de Valter Vinagre. Apresentada hoje, faz o percurso da aprendizagem, que Vinagre situa até finais de 1999, praticamente o período da Gazeta, iniciados em 1985, este prolongou-se até 2001.
As já várias dezenas de projetos que produziu são em grande parte conhecidos, pois estão publicados. Referem-se, no geral, a um tempo concreto, ainda que desenvolvidas ao longo de alguns anos.
A exposição – e o livro que se seguirá – são o percurso de formação do olhar, da maturidade do ver. E uma homenagem à cidade que o acolheu e que o fez crescer e ser.
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Pode ver mais sobre a obra de Valter Vinagre aqui.
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