AZEVEDO – LEMOS – VESPEIRA. 3 EXPOSIÇÕES. CASA JALCO, 1952
65 anos da exposição de Fernando de Azevedo, Fernando Lemos e Vespeira na Casa Jalco, em Lisboa.
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Fernando Lemos
Azevedo – Lemos – Vespeira. 3 Exposições. Casa Jalco
Fotografia: Fernando Lemos / Pintura: Fernando de Azevedo, Fernando Lemos, Vespeira / Texto: Fernando de Azevedo, António Pedro, Fernando Lemos, José-Augusto França
Lisboa: Autor / Janeiro 1952
Português / 20,3 x 27,1 cm / 16 págs tipografadas a cinza e dourado + capa + 3 impressões offset “hors-texte”, soltas, de reprodução de uma peça de cada autor, a preto e branco, assinada pelo respetivo autor, 19,2 x 25,0 cm cada. A capa apresenta uma impressão offset da fotografia “Intimidade dos Armazéns do Chiado” (fragmento) de Fernando Lemos, 1949-1952, 12,3 x 19,3 cm, colada superiormente.
Agrafado / 600 exemplares
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A exposição
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Às 16:00 horas de 5 de janeiro de 1952 abria ao público na Casa Jalco, importante estabelecimento comercial de decoração e mobiliário, situado na Rua Ivens, ao Chiado, em Lisboa, 3 exposições, as “Primeiras exposições individuais” dos jovens artistas Fernando de Azevedo, Fernando de Lemos e Vespeira, e que se manteria patente até ao dia 15 do mesmo mês, expondo “óleo, fotografia, gouache, desenho, ocultação, colagem, linóleo”.
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Convite para a inauguração da exposição. Col. Fundação Calouste Gulbenkian.
Patente na exposição “Portugal em Flagrante. Operação 1”, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (de 2016.07.06 a 2018?).
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Os três artistas dedicam a exposição a António Pedro, precursor do movimento surrealista, “lunático deste mundo / não relíquia / teimoso como as crianças / e Amigo”.
Fernando de Azevedo (Vila Nova de Gaia, 1923 – Lisboa, 2002) escreve o seu texto do catálogo e apresenta 52 obras: 8 óleos, 11 gouaches, 2 colagens, 20 ocultações e 11 desenhos.
Fernando Lemos (Lisboa, 03.05.1926) expôs 126 obras: 20 óleos, 22 gouaches, 29 desenhos e 55 fotografias, sendo 25 composições e trinta retratos, estes de pintores, artistas, intelectuais, poetas, escritores e outros vultos portugueses, do seu círculo de amigos, fotografados no seu atelier na Avenida da Liberdade, em Lisboa. O texto sobre a sua obra é de António Pedro, que o escreve em Moledo, em novembro de 1951, para onde vai após o fim do Movimento Surrealista de Lisboa. Lemos escreve ainda um poema (“Qual seria a explicação”, o primeiro verso), datado de L[isboa]/30/9/51 e refere que “Para esclarecimento, se diz que, esta minha primeira exposição, é também a primeira atuação pública e responsável quanto a qualquer relacionação a fazer com o movimento surrealista.”
Marcelino Vespeira (Samouco, Alcochete, 09.12.1925 – Lisboa, 22.02.2002) mostra 76 obras, sendo 44 óleos, 2 gouaches, 12 desenhos, 3 colagens, 11 ocultações e 4 linóleos. O texto sobre a sua obra é de José-Augusto França.
Azevedo e Vespeira discriminam a sua “Actuação anterior”: exposições e publicações, bem como identificam as peças que integraram a Exposição Surrealista.
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O catálogo, luxuoso para a época, só foi possível pelo apoio dos Estúdios Cor, sendo impresso na Tipografia Americana, em Lisboa.
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Para Emília Tavares, a fotografia da capa do catálogo da exposição, Intimidade dos Armazéns do Chiado,
tornou-se assim a tradução simbólica da estética e do espírito inconformado do Movimento Surrealista e dos seus protagonistas. O próprio artista definia a relação da imagem com a cultura crítica e moral que a despoletava: «O meu manequim, meio corpo decapitado (na recusa da carapuça) resgatado das oficinas dos Grandes Armazéns do Chiado, foi esfarrapado por mãos tintadas com ampliação digital (…) Retrato falado e gestual, ele quis dar o alerta da sensualidade maliciosa e juvenil do apalpão tipicamente urbano e lisboeta.» Esta composição fotográfica, montagem de alusões, símbolos e metáforas é, no seu propósito e destino, o exemplo de maior acutilância do programa surrealista de agitação da cultura urbana burguesa do seu tempo.”
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Fernando Lemos, Intimidade dos Armazéns do Chiado, 1949-52, Col. Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
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A exposição foi um sucesso, fazendo as pessoas fila para a visitar e “foi emblemática enquanto evento que agitou a opinião pública e o simbolismo cultural do próprio lugar” (Emília Tavares).
De referir que nos anos 1950 a exposição na Casa Jalco e algumas Exposições Gerais de Artes Plásticas, na SNBA, foram das poucas que fizeram mexer Lisboa. Das Exposições Gerais, muito poucas apresentaram fotografia (a VIII, em 1954 e a IX, em 1955, pelo menos; a X, em 1956 já não mostra). Excluindo estas e “Lisboa Cidade Triste e Alegre”, de Victor Palla e Costa Martins, apresentada quase no final da década, em 1958, na Galeria Diário de Notícias (e também na Divulgação, no Porto), restam apenas os salões de fotografia…
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O movimento surrealista em Portugal
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Estes autores emergiram do movimento surrealista em Portugal.
Fernando de Azevedo expõe pela primeira vez em 1943, com Vespeira, Júlio Pomar, Gomes Pereira e Pedro Oom, na Rua das Flores, em Lisboa. Vespeira destacou-se em meados da década de 1940 no quadro do neo-realismo, participou na I Exposição Geral de Artes Plásticas, na SNBA, em 1946 e em outubro de 1947, ele e Azevedo são dois dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com António Pedro, Cândido Costa Pinto, António Domingues e João Moniz Pereira, os poetas Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill e José Augusto França, entre outros.
A primeira e única exposição do grupo, a Exposição Surrealista, teve lugar em janeiro de 1949, no atelier de António Pedro e António Dacosta, na Travessa da Trindade, 25, em Lisboa, na qual participaram António Pedro, António Dacosta, António Domingues, Fernando Azevedo, João Moniz Pereira, Vespeira, Alexandre O’Neill e José-Augusto França. Destacava-se na exposição um cadavre-exquis de grandes dimensões, jogo coletivo de resultado surpreendente pelo inesperado do contexto. Esta exposição agitou o meio artístico da capital que, nesse ano e no seguinte viu ainda duas exposições realizadas por um grupo dissidente, os Surrealistas, composto por Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Mário-Henrique Leiria, António Maria Lisboa, H. Risques Pereira, Fernando José Francisco, Pedro Oom, João Artur da Silva, Carlos Eurico da Costa, Fernando Alves dos Santos e António Paulo Tomaz, marcando o fim do movimento.
António Pedro retira-se para Moledo, onde Lemos o fotografará, precisamente a afastar-se.
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Fernando Lemos, António Pedro da Costa, Moledo, Azinhaga Teatral, 1949; Col. Museu Coleção Berardo.
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Vespeira
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Vespeira atingiu um ponto alto nas obras surrealistas e intensamente pessoais realizadas entre 1948 e 1952, passando depois por obras abstratas para voltar às formas e temas que caraterizaram o seu período surrealista. Participou em múltiplas exposições em Portugal e no estrangeiro. Em 2000 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Artes Plásticas da Associação Internacional de Críticos de Arte – AICA.
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Fernando Lemos, Fernando Azevedo, Vespeira, A dança dos animais, 1949-52, Col. Museu Coleção Berardo
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Fernando de Azevedo
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Fernando de Azevedo, pintor, ilustrador, designer gráfico, criador de cenários, crítico de arte, prefaciador de catálogos e curador, participou em inúmeras exposições coletivas, recebeu um 1º Prémio de Pintura na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, 1961, foi Assessor da Direção, Diretor-Adjunto (1989-92) e Diretor (1992-94) do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e presente da Direção da Gravura – Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses entre 1972 e 1974, vice-presidente e presidente da Secção Portuguesa da AICA (1981-1984 e 1987-1994) e presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes de 1979 a 2002. Recebeu o Prémio Consagração Amadeo Souza-Cardoso e foi condecorado com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante. Em 2013 a Fundação Gulbenkian dedicou uma grande exposição retrospetiva à sua obra: “Razões Imprevistas”.
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Fernando Lemos
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Fernando Lemos, como Azevedo e Vespeira, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e passou pela Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.
Em 1949 adquire uma máquina fotográfica Flexaret e começa a fotografar. Fotografa até 1942, durante um período de quatro anos, no entanto as suas fotografias assumem grande importância, quer pela sua visão, quer por serem as únicas fotografias portuguesas a integrarem um olhar surrealista. As suas imagens, na maior parte retratos, são realizados recorrendo a diferentes ângulos, sobreposições, duplas exposições e outros efeitos.
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Fernando Lemos, Autoretrato, 1949-52, Col. Museu Coleção Berardo
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Em 1952 participa nesta exposição na Casa Jalco e dirige com José Augusto França a Galeria de Março, aberta naquele mês, em Lisboa, onde no mesmo ano volta a expor “Fotografia de várias coisas”, em 1954 exporá desenho.
Em 1953, em oposição a Salazar, vai para o Brasil, onde fixa residência, vindo a adquirir nacionalidade brasileira alguns anos mais tarde.
Desenvolveu atividade multifacetada, quer na área do design gráfico e industrial, da pintura e desenho, mas também a escrita e o ensino, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S. Paulo.
Em 1957 vence o Prémio Nacional Brasileiro na Bienal de S. Paulo, em 1959 participa na exposição 50 Artistas Independentes, na SNBA, em Lisboa e, em 1961, na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa; faz a decoração dos pavilhões da representação do Brasil nas Exposições Internacionais de Nova Iorque, 1957 e de Tóquio, 1963. Em 1994 expõe individualmente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa e em 2001 vence o Prémio Anual de Fotografia do Centro Português de Fotografia.
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A Casa Jalco
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Uma palavra ainda sobre a Casa Jalco.
Casa de prestígio dedicada ao mobiliário e à decoração, tendo diverso mobiliário com desenho exclusivo, já existia em 1947 (inaugurada neste ano?, a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian possui um conjunto de fotografias do Estúdio Mário Novais de 1947, pode ver aqui), era sócio-gerente João Jorge de Mascarenhas e Menezes Alcobia, que já havia sido sócio-gerente da “Quintão” e era sócio dos “Grandes Armazéns Alcobia”, ambos na Rua Ivens, 32-34 e 14, respetivamente, as quais eram também importantes casas de mobiliário e decoração.
O arquiteto Francisco da Conceição Silva (1922-1982) que já havia trabalhado para a Casa Jalco, foi o impulsionador da exposição, como refere numa entrevista à revista Arquitectura, n.º 120, Março/Abril de 1971:
(…) Eu tinha desenhado peças de mobiliário e conhecia o proprietário de uma casa de móveis. Propus-lhe fazer uma montra de móveis. Assim surgiu ao público um dos primeiros conjuntos de mobiliário moderno, na altura, desenhado em Portugal, e que foi, pelo menos, um escândalo… Já não digo um sucesso comercial, mas foi um escândalo, no momento. Como estava relacionado e tinha tempo disponível – e imaginação naturalmente para realizações – proporcionei que nessa mesma galeria Jalco se fizesse a primeira exposição de arte surrealista. Com intervenção do Vespeira, do Azevedo e do Lemos, que hoje está no Brasil. Foi realmente uma exposição que deu escândalo, chegou-se a formar uma grande bicha na rua para a visitar. Ora bem, embora eu não fosse organizador da exposição, fiquei-lhe inteiramente ligado. E também relacionado com a dita casa de móveis. (…)”
(citado aqui).
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O fantástico catálogo:
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Fernando Azevedo, Ocultação, 1950, tinta-da-china sobre imagem impressa (hors-texte).



Fernando Lemos, Coisas da Água, fotografia, 1949-1952 (hors-texte, identificada na obra Fernando Lemos e o Surrealismo, Sintra Museu de Arte Moderna / Colecção Berardo, 2005; identificada como “Coisas do Vidro” em Fernando Lemos, À sombra da luz, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994)



Vespeira (hors-texte)


Catálogo da exposição: Azevedo – Lemos – Vespeira. 3 Exposições. Casa Jalco, 1952
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O cartaz da exposição é da autoria de Fernando Azevedo, sendo uma colagem sobre vidro:
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Cartaz da exposição: Fernando Azevedo, Cartaz Casa Jalco, 1952, 49 × 39,3 cm, Col. Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, doação José-Augusto França (1999)
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Excelente Trabalho. Obrigado.
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