CATARINA OSÓRIO DE CASTRO, DEVAGAR, MÓDULO, 2016

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O tempo não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não representam nada. Ser artista não significa contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa não vir.

O verão há-de vir. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.”

Rainer Maria Rilke

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Nas paredes brancas da galeria ampla que é a Módulo, as imagens salpicam as paredes, ocupam o espaço todo.

As fotografias sucedem-se, o equilíbrio do formato quadrado, com diferentes dimensões, a diferentes distâncias, marcando um ritmo distinto que faz parar o olhar em cada uma, saborear cada uma, serenamente.

Devagar.

Catarina também as viu devagar. Olhou, viu, sentiu, registou.

Devagar.

Há nestas fotografias – e na forma como são mostradas: a moldura é como um traço fino de madeira que limita a imagem – um sentir e saborear que quer tempo, que quer disponibilidade, que quer estar ali, simplesmente, ali. Sem pressas. O tempo que for preciso.

Devagar.

Passam assim as estações, o tempo. O inverno, a primavera, o verão, o outono …

Devagar.

Catarina faz-nos olhar assim para as suas imagens. Faz-nos assim sentir e saborear a vida.

Devagar.

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António Bracons, Catarina Osório de Castro, 2016

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Devagar, escreve Catarina:

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Olha calmamente para as coisas e descobre como se forma a espuma no mar, com que rapidez se transforma outra vez em água, como reflete a luz do sol, de que cor é?

Amanhã encontra outro mar, como se forma a espuma nesse mar?

Sopra um vento de dia de tempestade e lembra-me o mar que naveguei outrora com o meu pai. Uma luz de outono e os barcos balanceando nas ondas brilhantes.

Pára esse momento e torna-o eternidade.

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Na continuidade dos dias, observo atentamente o agora, os pequenos gestos das coisas, o sol como toca essas coisas, o desenho das formas, das sombras. A pele e a textura do corpo, da pedra, da madeira, da água, contam uma história, da passagem lenta do tempo num ciclo que amanhã se repete, mas nunca igual.

Pessoas íntimas e paisagens pessoais parecem tornar-se eternas, como se o tempo fosse outro.

O tempo é o que nós quisermos que as coisas sejam.

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Observa como as formas se repetem na natureza e como o Homem as revê no seu corpo, nas coisas que cria e como nos transformamos constantemente, no fundo somos todos o mesmo.

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Coleciono coisas próximas, momentos íntimos, aproprio-me do que não é meu e é para mim especial, com esses fragmentos construo uma realidade, a minha.”

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António Bracons, Catarina Osório de Castro, 2016

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Sobre o trabalho escreveu Bruno Pelletier Sequeira:

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Catarina Osório de Castro realiza no Módulo a sua primeira exposição individual com a apresentação do trabalho “Devagar”.

O conjunto de imagens fotográficas a cores, de formato quadrado e dimensões variáveis, revelam um processo de investigação visual no qual a autora desmonta o espaço físico, público e privado, nos seus elementos primordiais e nos seus detalhes significativos.

As formas geométricas elementares aparecem regularmente como que num esforço de organizar o espaço e de lhe conferir significado. Pressentimos em cada fotografia a suspensão do tempo e o movimento determinado de aproximação ao assunto, com o objectivo de capturar a sua essência.

A luz solar contrastante e as sombras profundas participam também nesse processo de simplificação de formas. Elementos tridimensionais restringem-se aos seus correspondentes bidimensionais: um maciço rochoso numa praia e um monumento funerário piramidal são convertidos em triângulos…

Os elementos vegetais também surgem recorrentemente. À possibilidade de observação de uma árvore inteira, a artista contrapõe imagens que resultam de um duplo processo de observação cirúrgico: troncos de árvore seccionados revelam as suas formas elementares e permitem uma observação do seu interior, como que a procurar a sua intimidade ao mesmo tempo que mostram, nos seus anéis, o tempo longo do seu crescimento.

A oscilação entre espaço público e privado é diminuída pela construção de uma intimidade nos lugares públicos. O gesto de aproximação aos assuntos e a observação demorada e meticulosa é o método preferido pela artista para a elaboração das suas fotografias.

Também ao nível das formas assistimos a uma oscilação entre pólos. A presença recorrente da água, em diversos contextos e com diferentes plasticidades, introduz uma dimensão de fluidez e acentua a dimensão melancólica e poética do trabalho: um édredon que escorre para o chão, o cabelo de uma amiga ou a superfície ondulante de uma mesa de pedra…

A montagem da exposição, com imagens de dimensões variáveis e colocadas a diferentes alturas, convidam o visitante a uma deambulação pelo espaço da galeria, com movimentos de maior ou menor aproximação às imagens. Estas deslocações, em certa medida, replicam o procedimento da fotógrafa no momento da criação das imagens.

Revelam também a sua surpresa perante o mundo que a rodeia e o encantamento que motiva a construção deste diário visual.”

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António Bracons,  Catarina Osório de Castro, Aspetos da exposição Catarina Osório de Castro, “Devagar”, Módulo – Centro Difusor de Arte, 2016

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Catarina Osório de Castro (Lisboa, 1982) licenciou-se em Arquitetura, pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, em 2011 concluiu o Curso Avançado de Fotografia do Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, e no ano seguinte realizou o Projecto Individual em Fotografia. Em 2014 frequentou o Curso de Projeto 3, no Atelier de Lisboa.

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A exposição de Catarina Osório de Castro, “Devagar”, esteve patente em Lisboa, no Módulo – Centro Difusor de Arte de 21 de outubro a 19 de novembro de 2016.

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