EDGAR MARTINS, SILÓQUIOS E SOLILÓQUIOS SOBRE A MORTE, A VIDA E OUTROS INTERLÚDIOS (II)

Lisboa: Galeria Cristina Guerra / Rua Santo António à Estrela, 33 / 22.09 – 29.10.2016

 

 

 

Silóquios e solilóquios sobre a morte, a vida e outros interlúdios, de Edgar Martins, é apresentado como um ciclo de exposições originais e complementares, iniciado na Open Eye Gallery (Liverpool, Jan-Mar 2016), no museu MAAT (Lisboa, 30.06 a 16.10.2016), agora na Galeria Cristina Guerra e a última parte será apresentada no Centro Internacional de Arte José de Guimarães, em Guimarães, de janeiro a abril de 2017. Em 11 de novembro, no âmbito do ParisPhoto, será lançado o livro, editado pela The Moth House.

.

A propósito da exposição no MAAT fizemos uma apresentação do projeto, ver aqui.

.

A maior parte das imagens que vemos nesta exposição são diferentes das mostradas no MAAT, quer como imagens impressas, quer como diaporama. Pontualmente a mesma imagem é apresentada, mas com diferente enquadramento, por exemplo, o “avião de papel” tem um texto no MAAT, mas não na Galeria. As duas exposições complementam-se, também nas narrativas apresentadas, definidas por sequências de imagens e, por vezes, textos com narrativas de mortes recolhidas de jornais, da internet ou dos arquivos do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses.

.

Na folha de sala, diz João Silvério:

 (…) a exposição envolve-nos num universo de interrogações sobre a morte e os outros momentos que aludem a uma intermitência da vida, aos interlúdios e intervalos que entre cada imagem vão desvelando indícios e objectos que no espectro da morte se ramificam num vasto arquivo de relações conceptuais, visuais e documentais. Esta investigação, à qual se juntam imagens extraídas do seu arquivo pessoal, foi desenvolvida pelo artista no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, em Lisboa e Coimbra, ao longo de três anos.

As diversas instâncias em que a morte é tratada neste projecto de Edgar Martins passam por um processo de aproximação entre imagens, em que a realidade do corpo morto (do cadáver?), se corresponde por exemplo com os efeitos químicos provocados por componentes de frutos tóxicos utilizados por suicidas na Índia, com a intensidade cromática de uma árvore escarlate a confrontar-nos com a ambiguidade do esplendor estético e esse excesso mortífero. Por outro lado, a palavra está presente enquanto momento derradeiro nas cartas de despedida, segundo a designação médico-legal, entre a presença e a ausência, aludindo a essa intermitência da vida. (…) Uma outra imagem refere ainda esse momento anterior, uma memória ou um testemunho volitivo do desespero suicidário em que podemos ler uma mensagem dirigida a alguém num ecrã de um antigo modelo de um telemóvel Nokia: “Charles, please take my friends out for lunch. Prey for me. Goodbye”. Assim como os fotogramas aparentemente abstractos, em que as fotografias reproduzem os limites do papel e em que a mensagem escrita, como espectro ou corpo sem ânimo, consiste apenas na informação meteorológica do dia em que determinado indivíduo se suicidou.

Estes são apenas alguns exemplos que o arquivo construído no decorrer do projecto pode enunciar em cada nova exposição. A apropriação de fotografias e documentos pertencentes a arquivos de jornais e outras publicações propõe-nos ainda uma aproximação à história das imagens e à sua possível inadequação, por vezes próxima da renúncia, ou negação, que a morte provoca no espectador enquanto vocabulário simbólico que revela essa condição de perda a que o corpo é sujeito. Estamos perante uma temporalidade anacrónica entre o que a imagem reproduz dessa corporalidade desvitalizada e a humanidade que psicologicamente tentamos resgatar nos interstícios desse documento, publicado ou exposto, que nos confronta com a regulação social do poder, a lei, e as suas consequências éticas e morais.

As narrativas possíveis, intersectadas e fragmentárias são expostas em diferentes formatos fotográficos e projecções, individualizados em pequenos conjuntos seriais que incluem textos documentais, notícias que o artista resgatou, e que se relacionam com assassínios, ou objectos que somente após o reconhecimento post mortem se transformam em objectos “necrófagos”, como por exemplo a pedra ensanguentada ou as cordas que são simultaneamente um documento histórico, pelo facto de terem sido conservadas pelo Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses após as autópsias, um aspecto singular da constituição de um acervo único numa instituição com esta função legal e específica.

Silóquios e solilóquios sobre a morte, a vida e outros interlúdios constitui-se como um campo de possibilidades muito amplo que nos confronta com a corporalidade, com o nosso próprio corpo enquanto correlato de um universo material e visual que emerge a partir da representação ambígua da morte que nunca podemos conhecer (…)”

.

.

.

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-1

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-2

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-3

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-4

.

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-5

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-6

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-7

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-8

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-9

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-10

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-11

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-12

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-13

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-14

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-15

.

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-16

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-17

.

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-18

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-19

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-20

.

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-21

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-22

exp-edgar_martins-siloquios-gal_crist_guerra-2016-fot-ant-bracons-23

António Bracons, aspetos da exposição

 .

.

.