JOSÉ LUÍS NETO, ANÓNIMO, 2016
A primeira vez que vi a exposição “Anónimo”, de José Luís Neto (Sátão, Viseu, 1966), foi no Museu Nacional de Arte Antiga, no âmbito do LisboaPhoto 2005.
José Luís Neto procurou em negativos de chapa de vidro, no Fundo Antigo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, num conjunto de fotografias do período de 1898-1908, “perto de 3.800 negativos”, que se julgavam de um autor – sabemos agora que se trata das fotografias de José Candido d’Assumpção e Souza e de Arthur Júlio Machado, uma parte das quais integra a exposição “Lisboa uma grande surpresa” que se apresenta ao mesmo tempo no Arquivo (ver abaixo).
Neto selecionou destas fotografias algumas pessoas que, de passagem, por acaso, ficaram na fotografia: pequenas, desfocadas, em sombra, anónimas.
José Luís Neto reproduziu esses fragmentos mínimos no formato 7 x 4,6 cm, tornando-as novas imagens: retratos de pessoas, cidadãos.
José Luís Neto, Anónimo
O texto que Ricardo Nicolau então escreveu (pág 197 do catálogo LisboaPhoto 2005), adaptado e revisto segundo o acordo ortográfico é o texto da folha de sala (aqui complementado com o primeiro), vale a pena ler:
José Luís Neto tem vindo a construir uma obra absolutamente singular, e que de certa forma desmente o que sempre nos habituámos a pensar como fotografia e como atividade própria do fotógrafo. Ele não trabalha com uma máquina eleita (muda de aparelhos e chega a alterá-los consoante a especificidade dos projetos), nunca quis encontrar o seu formato de fotografia – as suas imagens vão do infinitamente pequeno à fotografia de grande dimensão –, sempre se afastou de imperativos temáticos. E, no entanto, é muito fácil identificar a sua obra – ainda que defini-la seja muito complicado. As suas fotografias nunca se resumem a um corte na realidade (José Luís expulsa frequentemente qualquer figura do “mundo real”), e ao isolamento do momento que um qualquer “olhar de fotógrafo” decida privilegiar – até porque elas colocam justamente em causa esta ideia, do “olhar do fotógrafo”: muitas resultam de experiências que prescindem dos seus olhos, como variações nas aberturas do diafragma, ou a exposição de um orifício a intensidades luminosas diversas.
Uma das singularidades da obra de José Luís Neto radica exatamente nestas experiências, que obedecem no fundo ao estabelecimento de um programa. Um exemplo: ao modificar a própria máquina fotográfica, fazendo-a disparar de determinada forma, ele obriga-nos a repensar a atividade do fotógrafo, que de repente se desvia do ato de olhar, selecionar e disparar através de uma objetiva. Como ao isolar e ampliar fragmentos de fotografias alheias […]
O fotógrafo partiu de um núcleo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, conhecido como Fundo Antigo, que inclui um vasto conjunto de fotografias […] São, na sua maioria, vistas de bairros históricos de Lisboa, registadas entre finais do século XIX e inícios do XX (entre 1898 e 1908), todas com enquadramentos muito parecidos. Constituem, no seu conjunto, um inventário exaustivo e rigoroso, quase científico, de certa forma. Ao fotógrafo, com toda a certeza o mesmo, não interessava o pitoresco, ou o registo das atividades desenroladas na rua, embora a presença de pessoas seja uma quase constante nas imagens e, embora inconscientemente, o fotógrafo deva ter fixado o único registo fotográfico daquela gente – a viver em freguesias populares, num tempo em que a fotografia não estava democratizada, e de que seguramente não existem retratos.
Não há, é claro, um único enquadramento que tenha sido decidido pelo posicionamento de personagens nas ruas, pelo que as pessoas surgem muitas vezes desfocadas, de contornos diluídos (só o parado ficaria nítido), muito afastadas e no limite do desaparecimento – umas manchas, apenas. São justamente estas manchas, constituídas por pessoas muitas vezes alheias ao trabalho do fotógrafo e captadas sem a intenção do fotógrafo, que José Luís Neto decidiu isolar. Esta seleção confere o protagonismo ao único elemento alheio às escolhas do fotógrafo original […] – aquelas manchas, isoladas e ampliadas, vêm atribuir farrapos de narrativa às limpas imagens originais e captadas sem a intenção do fotógrafo retirando-lhes, através de uma estética do detalhe, o aparentemente exclusivo carácter documental.”
António Bracons, Aspetos da exposição
A exposição de José Luís Neto, “Anónimo”, está presente no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na Rua da Palma, 246, de 23.09 a 31.12.2016.
No mesmo período expõe-se “Lisboa Uma Grande Surpresa”, fotografias de Arthur Júlio Machado e José Candido D’Assumpção e Souza, ver aqui.
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