VICTOR PALLA E FERNANDO NAMORA

 

 

 

Gosto muito da escrita de Namora, extremamente humana e real, ou não fossem escritos por um médico, que conhece e vive as dores dos seus pacientes. São essencialmente edições dos anos 1980, da Livraria Bertrand. Na badana, uma fotografia do autor, impressão tipográfica, de pontos, a preto sobre o branco da cartolina.

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Victor Palla, Fernando Namora

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Há dias, nas mãos, uma obra em edição anterior, dos anos 1970, das Publicações Europa-América, trazia igualmente uma fotografia do escritor, que já conhecia, impressa do mesmo modo, identificando o autor: “FOTO DE VICTOR PALLA”.

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Victor Palla, Fernando Namora

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Isto levou-me a procurar um pouco mais sobre a relação entre estes dois autores / criadores. Este texto é apenas uma breve reflexão.

Um pequeno mas muito interessante livro sobre Victor Palla (ver aqui), editado em Lisboa, pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2011, coleção D, dedicada a autores de design de comunicação, n.º 2, apresenta-nos alguma da sua obra gráfica com especial destaque para as capas de livros. (É desta obra que reproduzimos as capas apresentadas, bem como a fotografia de Victor Palla.)

 

Victor Manuel Palla e Carmo (1922-2006) entra na Escola de Belas Artes de Lisboa (1939), transfere-se para a do Porto (1942), aprende pintura, conclui o curso de Arquitetura (1945) e volta a Lisboa.

 

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Victor Palla

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Escreve Bárbara Coutinho no prefácio:

 Arquiteto, fotógrafo, pintor e designer, editor, galerista, tradutor e ceramista, Victor Palla é autor de uma obra multifacetada de grande modernidade. Das suas mãos saíram inúmeras capas de livros e revistas onde é evidente a sua sólida sensibilidade espacial, decorrente da formação em arquitetura, associada a um rigoroso sentido plástico resultante da sua prática pictórica e olhar fotográfico. (…) A influência da arquitetura encontra-se nos diferentes enquadramentos arquitetónicos, na simultaneidade de escalas e na sucessão/interceção de planos de cor que rompem com a bidimensionalidade da folha, sugerindo lugares de grande dinamismo espacial. Em paralelo, um apurado sentido de composição, herdado da pintura e da fotografia, e uma singular capacidade para trabalhar a cor, a luz e a sombra.”

 

Ainda estudante, pela mão de Rui Feijó entra para o círculo dos neorrealistas de Coimbra e desenha as capas dos livros editados pela Atlântida Livraria Editora e pela Coimbra Editora, onde terá conhecido Namora: a Coimbra Editora foi a responsável pelas edições deste autor ao longo de vários anos da década de 1940. Ir-se-ão encontrar novamente em Lisboa…

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Capa do livro Casa da Malta, de Fernando Namora, Coimbra Editora, 1945

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A  influência pela estética neorrealista deve-se a ser um homem do seu tempo, no dizer de Bárbara Coutinho;  um dos vários exemplos “onde encontramos o enfoque no trabalho e nas classes mais desfavorecidas é na capa de As Sete Partidas do Mundo, de Fernando Namora”.

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Capa do livro As Sete Partidas do Mundo, de Fernando Namora, Editora Arcádia, 1958.

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Como esclarece o neto, João Palla Martins, no texto biográfico final: nos anos 1950 “faz renascer com Cardoso Pires a Editorial Gleba (…). Depois criam a Fólio Edições (…) Em 1955 estabelece o Círculo do Livro com Orlando da Costa (…). De 1957 a 1960, com Fernando Namora, executa o plano editorial e gráfico para a Editora Arcádia, realizando uma centena de capas.”

É nesta editora de Lisboa que Namora, então médico no Instituto Português de Oncologia, na capital, publicará as suas obras entre 1957 e 1963.

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Capa do livro O Homem Disfarçado, de Fernando Namora, Editora Arcádia, c. 1957-1958.

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Capa do livro Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora, Editora Arcádia, 1961.

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Bárbara Coutinho sublinha ainda a “tendência para a depuração formal, a exploração de campos de cores lisas, rigorosamente definidas e contrastantes, o acentuado geometrismo e a simplificação formal, construindo-se composições de matriz abstrata onde a própria caligrafia ganha, por vezes, um valor particularmente gestual”, onde se integra a capa de O Trigo e o Joio, também de Namora.

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Capa do livro O Trigo e o Joio, de Fernando Namora, Editora Arcádia, 1960.

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A fotografia de Palla destaca-se na obra Lisboa Cidade Triste e Alegre, fotografado com Costa Martins (pode ver aqui, aqui e aqui),

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Livro Lisboa Cidade Triste e Alegre, de Victor Palla e Costa Martins, Edição dos Autores, distribuição Circulo do Livro, 1959.

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mas “surge também em muitas capas, como, por exemplo, em Caminhada, de Leão Penedo, Domingo à Tarde, de Fernando Namora, Encontro nos Infernos, de Maurice Druon, A Morte Veio de Madrugada, de Maria Archer, ou O Signo da Ira, de Orlando da Costa, neste último em associação com papeis «colados», ganhando textura e relevo.”

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Capas dos livros Domingo à Tarde, de Fernando Namora, e O Signo da Ira, de Orlando da Costa, Editora Arcádia, 1962 e 1961

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Em 1965, as edições de Namora passam a ser efetuadas pelas Publicações Europa-América, fundada em 1945, em Mem Martins, Sintra, pelos irmãos Francisco e Adelino Lyon de Castro, este último também fotógrafo.

A fotografia de Namora da autoria de Victor Palla integram as edições com a chancela das Publicações Europa-América na badana da capa, variando com os títulos e devidamente identificada.

A partir de 1974 e até 1988, ano em que regressa às Publicações Europa-América, Namora é editado pela Livraria Bertrand, da Amadora. A capa é também tipografada e o retrato do autor, diferindo a fotografia com os títulos, havendo vários com a mesma imagem, mantém-se na badana da capa, mas sem qualquer referência ao autor.

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Victor Palla, Fernando Namora

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Victor Palla, Fernando Namora

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