O FASCÍNIO DE UMA DESCOBERTA – IV – FINALMENTE, A FOTOGRAFIA!
Hoje comemoram-se 175 anos da apresentação pública da fotografia.
[O daguerreótipo é como um] espelho que guarda todos os detalhes.
Joules Janin (1839; citado em AAVV, 1994: 166)
A OPÇÃO DE ARAGO
Talbot apresenta os seus ‘desenhos fotogénicos’ a 25 de Janeiro na Royal Institution e a 31 na Royal Society, conforme já referimos. Arago saberá rapidamente do invento que concorre com o daguerreótipo.
Um incêndio destrói o diorama em 8 de Março de 1839, o que vem precipitar os acontecimentos: Daguerre desiste de uma verba de 2 milhões de francos, para acordar como direitos pela sua descoberta, uma verba anual de 4.000 francos, outro tanto para Isidore Niépce, por força do contrato, e mais 2.000 francos para si, pelos “segredos do diorama”, num total de 6.000 francos.
Em Maio, Arago convida Herschel e outros cientistas britânicos para observarem os resultados de Daguerre em Paris. Herschel observa: “Devo-lhe dizer que comparado com as obras-primas de Daguerre, o senhor Talbot produz imagens vagas e nubladas. Há uma diferença tão grande entre estes dois produtos como entre a lua e o sol.” (Newhall, 1988: 23).
Em 20 de Maio, Bayard dá conhecimento da sua descoberta a Arago, apresentando-lhe diversas imagens. Este, em vez de o encorajar, dissuade-o de revelar a sua descoberta. Mas a obstinação de Bayard não esmorece, ele prossegue a investigação e os trabalhos.
Arago encontra-se numa situação que se complica: proteger o seu amigo Daguerre, com quem havia algum comprometimento para promover a aquisição da patente pelo estado francês, a aparição de um processo distinto, inglês, com o mesmo objectivo e agora, um novo processo, algo idêntico àquele, com algumas vantagens e outras desvantagens – nomeadamente a menor definição – mas também francês. Urge agir.
Assim, Arago recomenda ao estado francês a aquisição da patente da invenção, a fim de a tornar pública, sendo a proposta feita pelo Ministro do Interior em 2 de Maio (Newhall, 1988: 23): o acordo é firmado entre Daguerre, Isidore Niépce e o Ministro em 14 de Junho de 1839 (AAVV, 1989: 35), relativamente à pensão vitalícia: 6.000 francos anuais para o primeiro e 4.000 francos para o segundo, revertíveis apenas para as viúvas e em metade do valor. Em 15 de Junho de 1839, o Ministro do Interior em comunicação na segunda sessão da Câmara dos Deputados, de 1839, elogia os “15 anos de dispendioso e perseverante trabalho” de Daguerre, referindo que “não vamos aqui fazer referência à imensa utilidade deste invento. É fácil perceber os meios, as novas facilidades que são proporcionadas ao estudo da ciência e, observando as belas artes, os serviços que é capaz de proporcionar, estão para além do imaginável.” Apresenta a proposta de pagamento da pensão vitalícia já acordada e informa que Daguerre depositou já o texto explicativo do processo, “e que essas descrições são completas e correctas”, tendo sido já analisado e experimentado por “um membro desta Câmara, cujo nome também é considerado de autoridade incontestável” – referia-se a Arago, sem o citar –, terminando com a glória de o seu país conceder ao mundo “uma das mais maravilhosas descobertas que a França se pode orgulhar” (Goldberg, 2000: 31-35: François Arago, “Bill Presented to the Chamber of Deputies, France. June 15, 1839”).
O acordo foi referendado no mesmo dia pelo rei Louis-Philippe (AAVV, 1989: 35).
Bayard decidiu entretanto apresentar publicamente as suas imagens, submetendo-as à apreciação pública: aproveita uma festa de caridade, “um leilão em benefício das vítimas do sismo de Martinica, para expor entre pintores e escultores um grande quadro contendo cerca de trinta provas de arquitectura e naturezas mortas. A atenção dos visitantes é presa por aquelas imagens magníficamente desenhadas pela luz, com uma precisão de detalhes dificilmente igualada pelo melhor dos desenhadores. Este 24 de Junho de 1839 marca verdadeiramente o nascimento da fotografia tal como nós a conhecemos hoje”, de acordo com Jean-Claude Gautrand (AAVV, 1989: 55).
Este episódio vai ter reflexo na imprensa, na sequência de diversas decisões políticas que iriam ser tomadas: no Le Moniteur de 22 de Julho e no Le Constitutionnel de 3 de Agosto, por comparação com a fragilidade do processo de Daguerre, da menor qualidade das imagens de Talbot e dos critérios duvidosos de Arago (AAVV, 1989: 55).
Bayard não pretende retirar o prémio a Daguerre e Niépce, mas apenas ser reconhecido pela descoberta de um processo diferente, a nível social e económico.
AS VIRTUDES DA FOTOGRAFIA
Em 3 de Julho, menos de três semanas depois, Arago em comunicação à Câmara dos Deputados faz a apresentação da fotografia, sem no entanto revelar os seus segredos. Divide a sua comunicação em quatro pontos: começa por justificar como o processo do Sr. Daguerre é inquestionavelmente original, depois como vai render um valioso serviço à arqueologia e às belas-artes, como fica esta invenção utilizável e, finalmente, se é expectável que as ciências tirem algum proveito dela. Arago narrou a história do invento, desde Niépce aos contratos firmados entre os dois homens, e os desenvolvimentos tidos.
Os presentes têm a oportunidade de visualizar alguns daguerreótipos e Arago prossegue “Enquanto estas imagens vos são mostradas, cada um pode imaginar as extraordinárias vantagens que podem advir de tão exacto e rápido meio de reprodução durante uma expedição ao Egipto; todos podem imaginar o que seria se tivéssemos a fotografia em 1798 podíamos ter hoje registos em imagens daquilo que o mundo do conhecimento está privado para sempre, pela voracidade dos árabes e pelo vandalismo de alguns viajantes.
Apara copiar milhões e milhões de hieróglifos que cobrem todo o exterior dos grandes monumentos de Tebas, Manfis, Karnak, e outros, é necessário dezenas de anos e legiões de desenhadores. Com o daguerreótipo, um só homem pode levar a bom fim este imenso trabalho. Equipe-se o Instituto do Egipto com dois ou três destes aparelhos do Sr. Daguerre” e será possível ter todos os levantamentos sem quaisquer erros, prosseguindo que “as imagens fotográficas estão submetidas na sua formação a regras de geometria, permitindo, com um pequeno número de dados, remontar nas dimensões exactas as partes mais elevadas, as mais inacessíveis dos edifícios.” Acrescenta ainda referindo um estudo do pintor Paul Delaroche que “a correção das linhas … a precisão das formas é também completa e possível nos desenhos do Sr. Daguerre, que reconhecemos ao mesmo tempo um modelo vasto, enérgico e um meio tão rico de tons que de efeitos… O pintor encontrará neste processo um meio expedito de coleccionar estudos que não poderá obter doutro modo senão com o gasto de muito tempo, de trabalho e de uma maneira bem menos perfeito, seja qual for o seu talento”, concluindo que este invento “é um grande serviço prestado às artes”. Por outro lado, verdadeiramente notável é a “rapidez do modo … Apenas dez ou doze minutos são requeridos para fotografar um monumento, parte de uma cidade ou uma cena, mesmo no Inverno” (Trachtemberg, 1980: 15-25; Frizot, 1987: 11-14).
Seis daguerreótipos de Daguerre são apresentados na Câmara dos Deputados em 7 de Julho, três de ruas de Paris, desde o interior do atelier do autor e três de grupos de bustos do Museu de Antiguidades, escrevendo a inglesa The Litterary Gazette em 13 de Julho um artigo em que acentua a minúcia da imagem e a multiplicidade dos detalhes.
A votação da Câmara dos Deputados tem lugar a 9 de Julho, sendo aprovada por 237 votos contra 3 (Newhall, 1988: 23).
A 2 de Agosto, a Câmara dos Pares confirma a votação com 92 votos contra 4 (Newhall, 1988: 23), depois de ouvir em 30 de Julho um discurso do físico e químico, Barão Louis-Joseph de Gay-Lussac, que não nomeou sequer o nome de Niépce (Sougez, 1991: 56).
A Lei que reconhece os autores da fotografia Niépce e Daguerre e lhes concede os proveitos,
assinada pelo Rei Louis Philippe e pelo Ministro do Interior, em 7 de Agosto de 1839.
Em 7 de Agosto, no Palácio de Saint Cloud, a proposta de lei é assinada pelo Rei Louis Philippe e pelo Ministro do Interior (AAVV, 1989: 22), transformando-a em lei.
A expectativa por este processo estendia-se por Paris e pela França, ultrapassava as fronteiras. O fascínio de Arago estendia-se a uma multidão que, através da imprensa tomava conhecimento da grande descoberta.
A APRESENTAÇÃO PÚBLICA DO DAGUERREÓTIPO
Não é pois de admirar que o anúncio da fotografia, agendado para 19 de Agosto de 1839, levasse ao Instituto de França, onde se reunia a Academia de Ciências e a Academia de Belas-Artes (AAVV, 1994: 166-167), uma multidão que queria assistir à sua apresentação, aprender os procedimentos, começar a produzir imagens.
Daguerre registou, no entanto, a patente em Inglaterra, em 14 de Agosto, cinco dias antes, excluindo aquela nação industrial rival da doação generosa…
Várias personalidades vieram do estrangeiro: Watt, o astrónomo e já inventor da fotografia sobre papel, mas ainda não divulgada, Herschel e o francês Claudet, vieram de Londres. Samuel Morse, inventor do telégrafo e que já estivera com Daguerre em 7 de Março desse ano, ficando fascinado com o daguerreótipo, veio dos Estados Unidos. Sachse, editor e antiquário de Berlim, também esteve presente.
Marc-Antoine Gaudin, um dos historiadores da fotografia, conta que a sala estava cheia e “muitos, que não haviam chegado com horas de antecedência, ansiava(m) com a multidão quanto transcendia acerca da comunicação académica. Num momento, um espectador sai, entusiasmado; gente agrupa-se em redor, perguntam, e ele, que crê saber tudo, diz que se trata de betume de Judeia e óleo de alfazema… Logo um grupo rodeia outro iniciado, ainda mais entusiasmado que o primeiro. Este agora diz-nos que é o iodo e o mercúrio, sem mais comentários” (Sougez, 1991: 57-59).
O processo de Daguerre não é simples, se compararmos com os actuais: uma placa de cobre é coberta com uma película de prata, sendo perfeitamente polida. Torna-se sensível à luz por acção dos vapores de iodo: estes formam iodeto de prata na superfície polida. A placa deve ser utilizada na hora seguinte à sua preparação, sendo a exposição, para um dia claro, de cerca de quinze minutos. A placa tem de ser revelada então, protegida da luz, para o que é sujeita aos vapores de mercúrio, sendo de seguida fixada em hipossulfito de sódio (em vez do cloreto de sódio dos primeiros exemplares, de acordo com os resultados de Herschel) e lavada em água destilada.
O daguerreótipo estava apresentado. Esta data, 19 de Agosto de 1839, é considerada como a data do nascimento da fotografia.
O daguerreótipo tornou-se assim a primeira forma de fotografia, como tal conhecida e divulgada. Politicamente, tal deve-se á decisão de Arago, que esqueceu os restantes processos, particularmente o de Bayard (viria a efetuar em 1840 um auto-retrato “O afogado”, onde se apresenta como morto, marcando uma posição face à atitude de Arago ), em tudo idêntico ao de Talbot. Poderia ter optado por este: mais simples e mais económico, embora de menor definição. É certo que Bayard era então um desconhecido de 38 anos e Daguerre um ilustre parisiense de 52 anos, oficial da Legião de Honra e membro de várias academias, a quem a cidade devia já o diorama; ele conhecia uma vasta camada intelectual da capital francesa.
O facto da patente da fotografia ter sido adquirida pelo estado francês e a expectativa criada pelo interesse político – e, portanto, do poder –, contribuiu, também motivada pelos discursos de Arago, e o reflexo na imprensa, já influente, para criar uma expectativa, um fascínio, um interesse especial pela fotografia, movendo multidões que, de outra forma, poderia levar alguns anos a conquistar.
O daguerreótipo iria ser o principal método fotográfico nos dez anos seguintes.
A DIVULGAÇÃO DO DAGUERREÓTIPO
A PROMOÇÃO DE DAGUERRE
O daguerreótipo é uma imagem positiva e final. As chapas tinham, por isso, no geral, dimensões significativas – as chapas standart eram de 6 ½ x 8 ½ polegadas ou 165 x 216 mm – e, pela natureza do processo, eram únicas, não permitindo duplicação. De alguma forma, esta característica aproximava-as da pintura – também peças únicas. Por outro lado, a sua definição é magnífica e brilhante, como um “espelho que guarda todos os detalhes” (Jules Janin, 1839, AAVV, 1994: 166). São no entanto frágeis, podendo riscar-se com grande facilidade, pelo que no geral são apresentadas encaixilhadas, protegidas por vidro.
Câmara escura de Daguerre, com o selo da casa Giroux e a assinatura de Daguerre,
que atesta a sua autenticidade, 1839.
O sucesso foi enorme e a procura de equipamentos vasta. Daguerre havia entretanto começado a produzir em série material fotográfico, que produz e comercializa intensivamente, com a ajuda do seu cunhado Giroux, através da firma Alphonse Giroux et Cie, situada na Rue du Cocq-Saint-Honoré, 7, em Paris, onde se fabricam os aparelhos, como se lê na capa da sua brochura de 79 páginas “Historique et Description des Procédés du Daguerréotype et du Diorama, par Daguerre…”, editada pela Delloye Librairie, a qual custava 2 francos (AAVV, 1989: 25). Conheceu pelo menos 26 edições em seis línguas, divulgando o equipamento por todo o mundo. O livro continha a apresentação de Arago à Câmara dos Deputados, um registo da acção política do governo, a descrição da héliografia de Niépce, e uma descrição técnica detalhada do processo do daguerreótipo (Newhall, 1988: 25). O conjunto completo do equipamento, incluindo a câmara fotográfica, com objectiva de 30 cm e f 14, tripé, as caixas de revelação e demais equipamento necessário, custava cerca de 400 francos, uma soma considerável, para além de pesar cerca de 50 Kg (Frizot, 1998: 38).
“Historique et Description des Procédés du Daguerréotype et du Diorama, par Daguerre…”, edição francesa de 1839.
Rapidamente são também produzidas máquinas mais leves e baratas, para formatos de chapas mais pequenos: meia chapa (4 ½ x 5 ½ polegadas ou 114 x 140 mm), um quarto de chapa (3 ½ x 4 ½ polegadas ou 83 x 108 mm), um sexto de chapa (2 ¾ x 3 ¼ polegadas ou 70 x 83 mm), um nono de chapa (2 x 2 ½ polegadas ou 51 x 64 mm) (Newhall, 1988: 27).
A EXPANSÃO DE UM PROCESSO
O fascínio exercido levou a uma expansão vasta: em Setembro Samuel Morse já fotografava nos Estados Unidos e o jornal New York Star enviava a Paris um correspondente para fazer a reportagem da apresentação do processo que Daguerre fazia todas as terças-feiras no Grand Hôtel, sito no Quai d’Orsay: assistiu à sessão de 17 de Setembro, tendo o artigo sido publicado na edição de 14 de Outubro, com a descrição de todo o processo (Sougez, 1991: 59-61).
Sendo certo que o acesso à fotografia implicava um conjunto de recursos significativo, era já um grupo relativamente grande que tinha acesso. Particularmente, foram muitos em toda a Europa e nos Estados Unidos a adquirir o equipamento e a produzir imagens, desde as paisagens, aos retratos pessoais ou de família. Múltiplas casas de daguerreótipos surgiram, alimentando um fascínio colectivo e criando e correspondendo à ânsia do registo da própria imagem de cada um: o retrato emergia: até aqui, para ter a sua imagem, era necessário o contrato de um pintor, e o seu custo muito elevado. O daguerreótipo permitia que algumas camadas com menos posses tivessem acesso à sua própria imagem, deixando o registo dos antepassados ainda vivos (ou na hora da morte), para as gerações vindouras.
Ente 1840 e 1844, 114 vistas de viagens são publicadas em Paris nas Excursions Daguerriénnes, por N. M. P. Lerebours, sendo um dos primeiros a fotografar o canadiano Pierre Gustave Joly de Lotbinière: em Outubro de 1839 estava na Grécia fotografando a Acrópole de Atenas, tendo ido também ao Egipto e à Síria.
Também presente na bagagem de alguns viajantes, a máquina fotográfica chegou a outros pontos do mundo: o diplomata, barão Jean Baptiste Louis Gros fotografou Bolgotá, na Colômbia, em 1842, prosseguindo na Grécia onde também foi embaixador. Joseph Philibert Girault de Prangey, arqueologista, tirou milhares de chapas à arquitectura árabe no Middle East entre 1842 e 1844. John Lloyd Stephens fotografou as ruínas pré-colombianas na América Central em 1841 (Newhall, 1988: 27). Alphonse Eugene Jules Itier (1802-1877) foi destacado em 1842 para uma missão no Senegal, na Guiana e nas Antilhas, tendo sido depois nomeado chefe da comissão comercial francesa na China, na India e na Oceânia, viajando depois por diversos países. A ele se devem algumas das primeiras fotografias feitas na China e em Macau, em 1844. Como ele próprio diz: “Consagrei estes dois dias a fixar no daguerreótipo os aspectos mais notáveis de Macau; os transeuntes acederam, com a maior simpatia, a todas as minhas exigências e muitos chineses deixaram-se fotografar, mas era preciso mostrar-lhes o interior do instrumento, bem como o objecto reflectido sobre o vidro despolido; ouviam-se então exclamações de surpresa e risos que nunca mais acabavam” (S.A., 1990: 82-85).
Rapidamente surgiram estúdios na Europa e nos Estados Unidos. Alexander S. Wolcott e Jihn Johnson inauguram a New York Sun, a “primeira galeria para retratos de daguerreótipo”, em 4 de Março de 1840, usando uma máquina criada pelos próprios. Richard Beard, em Londres, importa uma máquina de Wolcott e abre o primeiro estúdio da Europa, em Março de 1841 (Newhall, 1988: 28-29).
Os aperfeiçoamentos técnicos sucederam-se, sobretudo a partir de finais dos anos 1840: o primeiro grande incremento foi uma objectiva, extremamente luminosa, correspondendo hoje a f:3.6 (f:3.4, segundo Frizot), vinte e duas vezes mais brilhante que a de Daguerre, do óptico Chevalier, criada por Josef Max Petzval por sugestão de Andreas von Ettingshausen, professor de matemática e física na Universidade de Viena e que introduziu o daguerreótipo naquela capital após assistir à sua apresentação. A objectiva foi comercializada por Peter Friedrich Voigtlander, também de Viena: só nos primeiros dez anos venderam-se oito mil, para além de incontáveis imitações.
O segundo grande melhoramento foi o aumento da sensibilidade da chapa, descoberto por John Frederick Goddard, recobrindo a superfície iodizada com outros halogéneos que não o iodeto, mas o brometo, sozinho ou combinado com o cloreto. Combinando com a nova objectiva, o tempo de vários minutos podia-se reduzir para poucos segundos.
O terceiro grande incremento foi dado por Hippolyte Louis Fizeau, pelo enriquecimento tonal obtido após a fixação, colocando a chapa horizontalmente sobre uma chama suave, com uma solução de cloreto de ouro, o que “dá às partes luminosas maior intensidade” (Newhall, 1988: 29-30).
O sucesso do daguerreótipo prosseguia. Por exemplo, só no estado do Massachussets, foram feitos 403.626 daguerreótipos no ano começado em 1 de Junho de 1855. Uma galeria de Nova Iorque podia produzir 300 a 1000 daguerreótipos diariamente. Em 1853 havia oitenta e seis galerias na cidade de Nova Iorque que faziam estes retratos, sendo a maior a de Mathew B. Brady, Martin M. Lawrence e Jeremiah Gurney, que começaram a coleccionar em 1844 a Gallery of Illustrous Americans, que publicaram em 1850 (Newhall, 1988: 30, 34).
Os Estados Unidos foram o país a produzir mais imagens sob este processo e onde ele se desenvolveu mais, o que não é alheio ao desenvolvimento técnico, nomeadamente no polimento mecânico das chapas. Na Grande Exposição Industrial de Londres, em 1851, no Palácio de Cristal, os americanos ganharam três das cinco medalhas atribuídas.
Começam também nesta altura as primeiras fotografias que hoje dizemos jornalísticas, sendo os primeiros daguerreótipos os do “incêndio dos moínhos de Oswego, Nova Iorque”, obtidos por George N. Barnard em 1853 (Newhall, 1988: 39).
O FIM DO DAGUERREÓTIPO
O daguerreótipo irá ser o principal método fotográfico na Europa e nos Estados Unidos nos quinze a vinte anos seguintes à sua descoberta.
Com a maior divulgação dos processos de negativo/positivo, nomeadamente o calotipo e os negativos em albumina e os processos de colódio – que entretanto se vão aperfeiçoando, atingindo uma muito maior qualidade de definição, aliada a tempos de exposição muito mais reduzidos –, o daguerreótipo perde importância e vai sendo abandonado ao longo dos anos 1850: em 1856 na exposição anual da Photographic Society of London, das 606 imagens expostas só três são daguerreótipos; nos Estados Unidos sobrevive durante mais algum tempo, no entanto em 1864 a profissão de “daguerreótipista” já não aparece nos directórios de negócios de S. Francisco (Newhall, 1988: 39).
Daguerre, o seu criador, morrerá em 10 de Julho de 1851, encontrando-se o seu processo ainda activo em pleno. Deixará no entanto um pequeno número de daguerreótipos, cerca de três duzias, de acordo com Helmut and Alison Gernsheim, essencialmente de família e paisagens. Desde a apresentação pública da fotografia, dedicou-se à sua promoção e comercialização, não saindo mais nenhuma invenção do seu atelier, nem se notando evolução no plano artístico, nem percepção das múltiplas capacidades estéticas e temáticas do seu invento (Rosenblum, 1989: 36-37).
Daguerre não tinha a perseverança de Niépce, nem os conhecimentos científicos e a dimensão artística de Talbot, nem a inteligência de Bayard. Foi um homem movido pelo dinheiro e pelo sucesso económico, por arrastamento, o sucesso social. Foi também essa faceta que o levou a procurar a aquisição da patente por parte do estado francês e a divulgar o processo. O fato deste ser divulgado, levou outros a apresentar os seus trabalhos e os seus estudos, a desenvolver novos trabalhos e estudos. E foi o início de um fascínio que desde logo atingiu muitos, que a praticaram e desenvolveram em múltiplas frentes, a ponto de hoje modelar, de alguma forma, e ser essencial, pode-se dizer, na vida quotidiana.
BIBLIOGRAFIA
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