FERNANDO CURADO MATOS, BARROCOS, 2023
Homenagem a Fernando Curado Matos (18.01.1953 – 03.04.2026)
.
.
.
Fernando Curado Matos
Barrocos
Fotografia: Fernando Curado Matos / Texto: Ana Isabel Martins, Fernando Curado Matos
Amadora: GOD Publishing / Maio . 2023
Português / 30,4 x 20,6 cm / 172 págs.
Cartonado / 60 ex.
ISBN: 9789895394999
.
.

.
.
Conhecia já algumas imagens dos barrocos, que Fernando Curado Matos foi expondo e publicando, quando, viajando juntos para expormos, cada um o seu projeto, no iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, em 2023, disse-me estar a concretizar a publicação deste livro, com o apoio do José Godinho / God Publishing, com quem publicou alguns portfólios em vários livros.
Este “Barrocos” é especialmente significativo para si: sabia que era um dos seus últimos livros, estas paisagens cativavam-no, há cerca de 30 anos que as fotografava, mais ou menos intensamente, do médio formato, ao 35 mm e ao digital.
Por outro lado, Fernando tinha a paixão pelos livros: a sua biblioteca é disso testemunho, bem como os seus projetos, que sempre procurou publicar: um livro é uma concretização, é um testemunho, é algo que fica para a posteridade. Sempre com uma exigência de grande rigor e qualidade, são mais de 15 os livros de que é o único autor e bem mais de 20 aqueles que partilha a autoria ou que integram imagens suas.
A notícia da sua morte, na Sexta-Feira Santa de 2026 (há uma semana, data desta publicação) abalou familiares e amigos. Deixou-nos um amigo, pessoa de enorme ternura e generosidade , de exigência e rigor, de serenidade e entusiasmo.
.
.
.
Ana Isabel Martins escreve o prefácio da obra:
.
Veni, Vidi, vici — bradam os barrocos destemidos desde que ali surgiram há centenas de milhões de anos. Rocha sobre rocha, granito sobre granito dominam a paisagem eternizada pelo olhar atento de Fernando Curado Matos.
Da Guarda a Celorico da Beira, passando pelo Sabugal até Cáceres, a natureza fala a mesma língua: as fronteiras nunca se conseguiram impor por estes lugares. A sua pátria é a terra-mãe que na dança constante das placas tectónicas trouxe à superfície o granito do Barrocal
Ali não há gente, não há vozes. A brisa do ar sopra, agitando apenas a escassa vegetação. As nuvens passam, mas não ficam. Nada nem ninguém demove a alma destes lugares telúricos feitos de matéria bruta, disforme, esculpida apenas pela erosão do vento, da água, do tempo. Barrocos extravagantes a perder de vista dominam a paisagem como fortalezas. Estes penedos outrora abrigos, lugares de culto, esconderijos de amores e desamores, pertencem-nos, são voz da nossa história, transparência e opacidade do que sempre esperamos da humanidade.
Cada imagem afigura-se como uma ilusão de ótica pela forma como os barrocos se mantêm assentes sem pestanejar, unidos, às vezes, apenas por um cordão umbilical em equilíbrio mágico. Sortilégio! Das diferentes formas destacam-se as bolas hercúleas, os blocos pedunculados, os conjuntos escachados, o lajeado, as pias, que evidenciam o fluxo magmático, de quando a rocha ainda era um rio de magma em movimento a dezenas de quilómetros de profundidade.
Ao longo da obra encontramos o olhar criador do fotógrafo, o repórter capaz de ler imagens impactantes e despertar conotações que ajudam a atribuir um certo significado à imagem, sob diferentes perspetivas: ora um plano geral em que o barroco ocupa todo o enquadramento da imagem, não descurando a interação com o ambiente, formando um todo que se completa, como o redondo da terra; ora um close-up, realçando o eco da confiança e a dor da intimidade pela descoberta de pormenores e de mensagens subliminares transmitidas graças a um patamar sensorial quase impercetível, conferindo discretas sensações visuais e auditivas.
Para definir os limites do enquadramento, encontramos o jogo de luz, onde o preto e o branco são opções do fotógrafo que acentuam a densidade e a volumetria das rochas. Do contraste descobrem-se vários tons de cinza. Na cor branca moram todas as cores e na preta, a ausência delas. Em cada imagem observada, as cores não existem. Somos condicionados a um xadrez de sombras polarizadas que destacam a desordem natural dos penedos.
O silêncio que reveste as imagens, o peso imposto pelas imponentes rochas, a frigidez da ausência de cor, as formas brutas e abruptas destacam o caos da paisagem. Imagem após imagem, um mundo desconexo, ininteligível, sufocante que nos resigna à nossa insignificância. E se pensarmos que o homem tende a contrariar este absurdo, vivendo em busca da sua essência, Fernando Curado Matos encontra nesta aliança íntima e permanente entre o Homem e a Terra a sua felicidade. Somos felizes quando procuramos alcançar os sonhos e as aspirações que dão significado à nossa vida, mesmo quando são paradoxais ou sem sentido e, muitas vezes, nos levam a empurrar uma pedra colina acima, dia após dia, tal como Sísifo numa alegoria que poderá ser entendida como símbolo de resiliência e de recomeço.
Porque a vida dura um sopro e avança cheia de labirintos, é fundamental indagar paulatinamente: Quem somos?, Por onde vamos?, perscrutar caminhos inexoráveis num jogo de contrastes entre a felicidade e o absurdo. Barrocos pode ser considerado uma metáfora da condição humana assente na consciência da fragilidade e na certeza do fim, mas capaz de apelar ao heroísmo e ao extraordinário da vida.
.
.
.
Fernando Curado Matos escreve sobre estas rochas que o entusiasmam:
.
Barrocos — “As Transformações do Território”
.
As rochas com as suas texturas, volumes e cores sempre me fascinaram. Alguns dos trabalhos realizados por mim anteriormente: Cores da terra, (1991 ), livro e exposição na Fundação Calouste Gulbenkian; As pedras e o tempo (1993), livro e exposição no Museu de História Natural integrados no Grupo Íris; Rostos de pedra (1995), livro e portefólio editado pela Câmara Municipal de Loures e Silêncio, Tempo, Espaço (1994), trabalho exposto no Museu Botânico em Lisboa e integrado nas atividades de “Lisboa Capital Europeia da Cultura” são alguns dos exemplos mais marcantes da minha pesquisa estética fotográfica com forte ligação à natureza. Não sendo um grande conhecedor de geologia, o que mais me fascina neste tema são as transformações da terra. Enquanto fotógrafo e operador estético, tenho como premissa o respeito pela mutação da natureza que traduz a minha consciência ecológica.
Esta nova obra, Barrocos, é composta por imagens recolhidas no Distrito da Guarda e na Serra da Gata, realçando a atração e o fascínio pelos grandes volumes e decorre do retomar de um trabalho anteriormente realizado em 1994 em Malpartida de Cáceres: Silêncio, Tempo, Espaço. Neste trabalho em Cáceres, Los Barruecos, o que já então me atraiu foram as dimensões extraordinárias das rochas, que me impressionam na sua escala na medida em que o homem é esmagado na sua relação com este fenómeno da natureza.
Estes barrocos em Portugal, não sendo da dimensão dos anteriormente referidos, são também de uma beleza e de uma plasticidade raras e invulgares, fazendo parte da nossa paisagem serrana em que os volumes e a textura dos mesmos se modelam através do efeito da incidência da luz.
O trabalho foi registado a cores com máquina fotográfica digital e, posteriormente, foram transferidos os ficheiros para preto e branco, utilizando o programa Adobe Photoshop. A transformação dos ficheiros a cores para preto e branco resultou da necessidade de acentuar a dureza do granito e de salientar a textura destes barrocos. A incidência da luz, modelando os volumes e realçando a textura, aliada à monocromia acentuam o resultado final, conferindo-lhe grande impacto e maior plasticidade e efeito.
.
.
.
Fernando Curado Matos, Barrocos, 2023
.
.
.
Fernando Curado Matos apresentou o livro no Godinho Photofest, no Centro Cívico António Pedro da Junta de Freguesia de Alvalade, em 29 de outubro de 2023.
.

.
.
António Bracons, Fernando Curado Matos com José Godinho e a família – Autografando o seu livro – Aspeto da audiência – Grupo de alunas da Magestil com o seu livro. – Com António Bracons (fot. Hélia Bracons), 29.10.2023
.
.
.

António Bracons, Fernando Curado Matos, 29.10.2023
.
.
Fernando Curado Matos (Moscavide, 1953) foi fotógrafo freelancer, em fotojornalismo de desporto, e como professor de fotografia.
Foi aluno na Escola António Arroio onde concluiu o curso de Pintura e o curso Complementar de Imagem.
Concluiu o Curso Profissional de Fotografia da Escola, Oficina da Imagem onde foi diretor do curso Profissional de fotografia. Tem a carteira Profissional de Jornalista CCPJ (Comissão da Carteira Profissional de Jornalista).
Na Escola Magestil foi um dos fundadores do curso de Fotografia, onde lecionou ao longo de mais de vinte anos.
Na fotografia de desporto destaca-se o futebol, o futebol americano, fotografando durante vários anos o clube Cascais Crusaders (e o livro “The hell is empty… All devils are here”, 2022, no FF, aqui) e as atrelagens (de que publicou dois livros).
Em 1986, recebeu um subsídio de trabalho da Fundação Calouste Gulbenkian, para uma pesquisa estética em fotografia, onde expôs esse trabalho, “Corpo da Terra”.
Foi membro fundador do Grupo Íris participando nas exposições e nos livros editados pelo grupo.
Das edições e publicações, destacam-se:Portfólios para as Câmaras Municipais de Loures e da Guarda, Centro de Estudos Ibéricos e LTE /EDP (Eletricidade de Portugal). Tem diversas imagens publicadas em revistas e jornais nacionais e estrangeiros. Monografias do concelho de Loures e Vendas Novas. Colaboração fotográfica (entre outros): Livro História e Cultura Judaica, Guarda, 1999. Corpo da Terra, 1991; Prata Negra, 1992; Espaço Cénico e As Pedras e o Tempo, 1993; Sabor a Sal (no FF, aqui) e Lisboa Qualquer lugar 1994 (no FF, aqui); Rostos de Pedra, 1995; Made in U.S.A., Lisboa, 1996; Outros Lugares – Vale do Tejo, 1997; Tajo Tejo – Doze Objectivos Fotográficos, Madrid, 1998; Margem da Ausência, 1998 (no FF, aqui); Um País de Longínquas Fronteiras, 2000. Guarda Um (E)Terno Olhar, 2008, Leite Cardo e Mãos Frias, o queijo da Serra da Estrela no Concelho da Guarda, 2010. Papagaios Pelos Ares, Alcochete, 2010. Atrelagem de tradição-2011/2019. Wòna ni maitho. Ver com os próprios olhos, 2020 (no FF, aqui). The hell is empty… all devils are here, 2022 (no FF, aqui). Vários volumes das séries: Desporto e Movimento, A Arte Fotografar a Preto e Branco e O Nosso Olhar no Mundo (no FF, sobre o n.º 10, aqui).
Expõe regularmente desde 1972, tendo realizado exposições individuais e coletivas em Portugal, Espanha, França, Itália e Tunísia.
Expôs coletivamente no projeto CONCEPTOS, uma peça com 12 fotografias no Museu Vostell de Malpartida de Cáceres (Museu de Arte Contemporânea).
Coleções (seleção): CAM/FCG, Ministério da Cultura/Instituto Camões, Fundação PLMJ, Lisboa; Musée de la Photographie de Charleroi, Bélgica; Musée de la Photographie de Charleroi, Bélgica; Galerie du Château d’Eau, França; Museu de Fotografia Contemporânea Ken Damy, Itália; Musée d’Elysée pour la Photographie, Suíça.
.
.
.




















