JOSÉ VELOSO DE CASTRO, A REVELAÇÃO DE UM ARTISTA

Exposição no Museu Militar de Lisboa, de 29 de setembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026.

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Há vários anos para visitar o Museu Militar de Lisboa, a Santa Apolónia, esta exposição levou-me até ele e a percorrer as suas 26 salas, ao longo das quais se apresenta a exposição. O olhar centra-se nas fotografias de José Veloso de Castro, que mostram múltiplos aspetos da vivência e da cultura, da paisagem humana e geográfica de Angola: não só dos povos locais, mas também das tropas portuguesas, em que ele próprio se integra, e da sua interação.

As fotografias de José Veloso de Castro demonstram um conhecimento técnico e estético, a preocupação de mostrar a realidade em que se encontra, os momentos e as pessoas importantes e também momentos e pessoas comuns, noutros casos a presença humana é fator de escala face à imensidão da paisagem.

Vemos as fotografias enquanto vemos também as salas com o magnífico espólio de armas e as pinturas de tetos e paredes de artistas consagrados, neste edifício que foi construído especificamente para Museu Militar.

O espólio de José Veloso de Castro é mais uma pérola da fotografia portuguesa, agora encontrada e é testemunho das muitas que ainda se encontram por descobrir, nas mais diversas áreas.

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Lemos na folha de sala:

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O (…) Museu Militar de Lisboa, com curadoria de Carlos Pedro Reigadas, apresenta José Veloso de Castro: A Revelação de um Artista, a primeira grande exposição dedicada à vida e obra do militar e fotógrafo Major Veloso de Castro (1869-1945).

Com um espólio de enorme relevância histórica, composto por 2.355 positivos fotográficos e sete caixas de negativos em vidro, esta mostra reúne 120 provas inéditas, realizadas a partir de negativos originais (1904-1912), preservados desde 1917 no Arquivo Histórico Militar.

As imagens foram captadas em Angola, durante as comissões militares de Veloso de Castro, e revelam muito mais do que documentação colonial: mostram um olhar artístico singular, sensível ao movimento, à paisagem e ao quotidiano humano no início do século XX.

Nascido em Braga, em 1869, Veloso de Castro serviu o exército português durante 38 anos, primeiro sob a Coroa e, após 1910, ao serviço da República. Entre 1902 e 1919, passou 16 anos em Angola, onde conciliou operações militares com levantamentos topográficos, fazendo da fotografia uma ferramenta científica e criativa.

A sua obra distingue-se pela modernidade e experimentação: registo de velocidade e movimento, exploração de ângulos inusitados, uso de primeiros planos para criar profundidade. Retratou o seu grupo militar em ambiente natural, mas também dirigiu a lente ao “outro lado” da estrutura colonial, documentando habitantes locais, costumes, rituais, práticas de trabalho, saúde e habitação.

O auto-retrato, presença constante, evidência a afirmação da sua personalidade e o desejo de marcar a sua posição enquanto artista.

Ao longo de 26 salas, a curadoria estabelece diálogos entre o espólio fotográfico e as coleções do Museu Militar, revelando coincidências temáticas, simbólicas, materiais e temporais entre as imagens de Veloso de Castro e o património artístico e militar português.

Na Sala de Exposições Temporárias, o público poderá ainda consultar documentos do Arquivo Militar de Lisboa e livros da Biblioteca do Exército que contextualizam o autor e o seu legado fotográfico.

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José Veloso de Castro, 33. Um comerciante de Lombe com a família, 1905 – 116. Familia de um colono, 1905 – 96. Casal de Gingas, 1905 – 292. Sondagem das quedas do Condo, 1905 – 326. Soba de Bolacassagi. Recepção na ilha, 1905 – 757. Um soba e comitiva, 1908 – 786. Povoações nos morros rochosos, 1908 – 805. Passagem do rio Catofe, 1908 – 1064. Cuamato – Peça Erard e guarnição, 1907.

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Alexandre Pomar, a propósito da exposição, realça:

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Entre os álbuns “fotográficos e descritivos” de Cunha Moraes (1885-88) e a produção de Elmano da Cunha e Costa, que fotografou em Angola em 1935-38, pouco depois da 2ª Missão Científica Suíça de 1932-33 (“Pays & Peuples d’Angola. Études, Souvenirs et Photos”, de Th. Delachaux e Ch.-Thiebaud, 1934, e “Retour d’Angola”, Musée d’Ethnographie Neuchâtel, 2010) está Veloso de Castro, activo no terreno em 1904-14, militar e fotógrafo, publicista e editor, cuja obra escapou até agora à consideração que lhe é devida graças a um trabalho com características únicas, agora revelada em excelentes provas editadas a partir dos negativos em vidro por Roberto Santadreu. Para lá das edições que produziu, e da informação militar, geográfica e etnográfica que divulgou, ele surge aqui, em novas condições de visibilidade, como um fotógrafo artista à altura de um Joshua Benoliel, seu contemporâneo. 

Particularmente relevante, e diferente da produção colonial corrente, para além da afirmada intencionalidade estética, é a atenção às situações de interacção da população nativa com a presença portuguesa. Por exemplo em situações de trabalho e famílias de colonos (também quanto a prisioneiros e tropas negras), bem como a observação das estruturas sociais e práticas colectivas dos “indígenas”, exercendo uma observação que não se reduz à fotografia de “tipos humanos” e é em geral excluída na fotografia colonial.

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José Veloso de Castro, 1278. Passagem para a ilha, 19101384. Batuque, 1910 – 1395. Passagem de gado no rio Cunene – Capelongo, 1910 – 1829. Cuango, Industria de borracha de trepadeiras, 1912 – 1919. Visita dos Belgas, 1912 – 2005. Oficinas de carros, 1910 – 2305. Ruinas da Sé do Congo, 1914 – 2306. Actual rei do Congo, 1914

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2025

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A exposição “José Veloso de Castro: A Revelação de um Artista”, é comissariada por Carlos Pedro Reigadas, no âmbito do mestrado em Curadoria, Crítica e Teoria da Arte da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Direção de História e Cultura Militar, que tutela o Museu Militar de Lisboa, o Arquivo Histórico Militar e a Biblioteca do Exército. As imagens foram impressas por Roberto Santadreu. A exposição está patente no Museu Militar de Lisboa, a Santa Apolónia, de 29 de setembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026, terça a sexta-feira: 10h00 – 17h00, sábado e domingo: 10h00 – 13h00 e 14h00 – 17h00 (inicialmente até 31.12.2025).

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José Veloso de Castro, 1404, 1403, 2061 – Tenente Veloso e Castro, 1910

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José Veloso de Castro (Braga, 1869 – 1945) prestou serviço como militar durante cerca de quatro décadas em África, sobretudo em Angola, terminando a sua carreira como Major de Infantaria em 1924. Durante a sua passagem por Angola dedicou-se não só às operações militares – participou e fotografou a Campanha militar contra os Cuamatas, no sul de Angola em 1907 –, como também à fotografia, deixando-nos um valioso legado fotográfico onde são retratadas não só a fauna e a flora angolanas, como também a sociedade, cultura e elementos geográficos desse mesmo país. É ainda autor de livros técnicos militares e de história militar do Ultramar.

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Pode ver as fotografias em exposição aqui.

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