MARCOS DUVÁGO, «SHE COULD DRAG ME OVER THE RAINBOW»
Integrou a exposição do Prémio da BF24 – Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, patente no Celeiro da Patriarcal, de 30 de novembro de 2024 a 19 de janeiro de 2025.
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É de um sinuoso percurso do agir, que fulmina em instantes — tornando-se visível, nos lugares e não-lugares — essa liberdade da exsudação e delapidação do tempo, pelo autor documentada.
Marcos Duvágo apresenta um corpo de trabalho com contornos auto-etnográficos, que tem como base a vida crua, essa vivida na 1.ª pessoa, por quem a mesma se documenta de tanto a tanto em instância fotográfica. Indexo a cada momento captado na emulsão está um outro evento, intangível e impermutável, mais amplo quando comparado; um — cujo ângulo objetivo não é o de uma lente, mas sim aquele açambarcante de uma realidade plena, responsável por essa sujeição e perda de si.
Um trabalho autoral onde não há âmbito construído no e em torno de uma intenção discursiva pré-delineada ou disciplinar; onde se descobre a vontade própria de dar ali espaço para que se manifeste a crueza da própria vida, vazada de mentira e encenação. Não reside nesta produção outro intuito senão o de objetificar aquilo que a vida mostra e revela a quem a oportunidade e consequências foram dadas a sentir no assim viver, e que por isso as acarretou e encarretou. Isto numa imagética não higienizada e na não infantilização do espectador pelo encobrimento, arranjo ou cenografismo dos elementos no empírico encontrados.
Estes são sopros resgatados, instantes recortados, de uma “saga”, de néscias, mas não menos que extásicas epopeias, partes, como que soltas páginas de uma narrativa maior que tem ainda hoje o seu ainda-e-sempre.
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Marcos Duvágo, «She could drag me over the rainbow»
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A série «She could drag me over the rainbow», de Marcos Duvágo, integrou a exposição do Prémio da BF24 – Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, que esteve patente no Celeiro da Patriarcal, de 30 de novembro de 2024 a 19 de janeiro de 2025.
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Marcos Duvágo. Nascido cosmopolita em Portugal, na cidade de Lisboa, Marcos Duvágo inicia atividade artística em âmbito profissional como muralista, ofício que manterá até à sua formação no ensino superior ao abrigo da Faculdade de Belas-Artes, na respetiva capital. Formado nas áreas de Escultura e Pintura, dará seguimento ao percurso aí instaurado com maior afinidade no explorar e aprofundar a utilização de técnicas e mecanismos de captação fotográfica, em especial de carácter analógico, recuperando para o seu léxico autoral características de alguns dispositivos, películas e suportes descontinuados e considerados até então como obsoletos; nessa base experimental reinventará na contemporaneidade, como que numa analepse face à narrativa tecnológica, aplicações destes materiais direcionadas a novos e originais propósitos, aos níveis estético e conceptual.
Aproximar-se-á em novo momento da academia na sua cidade natal, ingressando no mestrado de Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, no ramo especializado na compreensão e investigação de Culturas Visuais.
Afastar-se-á progressivamente dos meios académicos e culturais vigentes, assim como do labor com outros artistas e participação em meios expositivos amplamente difundidos; não obstante, manterá longe das capitais uma ávida e prolífica produção própria, na maior parte dos casos apenas disponível no seu temporário espaço privado e dirigido aos que lhe são, por vias mais ou menos avessas, próximos. Numa postura de criação intensa e contínua, com atributos capilares do território antropológico, prolifera essa obra afeta a uma crueza associada não raras as vezes a uma cultura marginalizada e subversiva, onde a veracidade e as noções de realidade não infantilizadas ganham protagonismo, em contrariedade com a tentativa de higienização destas noções, mesmo na cultura dita alternativa das metrópoles da Europa mais a norte.
Nos últimos anos foi premiado por variadas instituições representativas e consagradas pelo meio do qual em circunstância se aparta, e que reconhecem como pertinente a sua obra fotográfica: composta de peças por vezes mais outras menos oportunas e/ou confortáveis, mas sem hesitação — florescências únicas de uma visão sempre crua e de uma clareza nítida, face a alguma da natureza néscia e velada que permeia ela também o autor assim como a todo o ser humano.
M.D encontra-se até hoje num ininterrupto deambular, sem lar definido ou habitação fixa; permanente é seu movimento em sua in-constante viagem. Um nomadismo que confere à produção características particulares desse modo transumante de ir encarando o viver errando desapegando-se da vida nos seus culturais e contextuais limites; essas peculiares nuances, em cada um dos instantes lumínicos por seu gesto e olhar apercebidos, são posteriormente queimados nestas películas (então e algures) resgatadas; distinto e facilmente a ele associado, encontrar-se-á tal carácter com primazia na sua obra fotográfica.
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Sobre a BF24 – Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, regista a organização:
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Trinta e cinco anos volvidos desde a sua criação, em 1989, a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira afirma-se hoje, em 2024, como o mais antigo evento de premiação exclusivamente dedicado à cultura fotográfica no nosso país, ostentando por isso um histórico assinalável ao nível da promoção da prática fotográfica portuguesa.
Apontada desde o início à revelação de novos talentos na área da fotografia artística, a Bienal apresenta uma matriz que partiu da estreita relação com as instituições de ensino artístico no âmbito fotográfico, para se projetar hoje, cada vez mais, na atenção à iniciativa individual dos artistas que fazem uso da fotografia numa perspetiva abrangente e transdisciplinar. Defensora do valor da descoberta e da avaliação da experiência visual que designamos como “fotografia”, a Bienal continua apostada em celebrar a liberdade e a ousadia do processo criativo, empenhando-se na consolidação de um programa cuja amplitude, dividida entre a premiação (Patriarcal) e a ação curatorial (Fábrica das Palavras, Galeria Paulo Nunes – Arte Contemporânea, Museu do Neo-Realismo, Museu Municipal de Vila Franca de Xira, Núcleo Museológico do Mártir Santo e numa segunda fase no Celeiro da Patriarcal), assegura à nossa cidade um estatuto de referência, no que à prática da fotografia contemporânea diz respeito.
Procurando chegar a todos os públicos, a exposição dos trabalhos dos finalistas candidatos aos Prémios (Bienal de Fotografia, Concelho de VFX e Tauromaquia) apresenta-se como resultado de uma criteriosa seleção elaborada por um Júri de Nomeação, constituído por Sofia Nunes, Pauliana Valente Pimentel e Cláudio Garrudo. Por sua vez, os premiados surgiram da decisão do Júri de Premiação, constituído por Bruno Sequeira, Ana Anacleto, Isabel Nogueira, José Maçãs de Carvalho e David Santos. A qualidade de cada uma das exposições individuais agora apresentadas no espaço expositivo do Celeiro da Patriarcal tem a assinatura dos artistas selecionados: Alexandre de Magalhães, Bruno Parente, Catarina Cesário Jesus, Daniel Malhão, Filipe Bianchi, Gonçalo C. Silva, Jorge Vale, Marcos Duvágo, Pedro Rocha, Ricardo Moita, Rodrigo Vargas e Rui Pereira.
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A agenda da BF24, no FF, aqui. Mais informação sobre a BF24 aqui (site).
Sobre esta e outras edições da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, no FF, aqui.
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