O 25 DE ABRIL DE 1974 DE JOSÉ CARLOS NASCIMENTO

Exposição na Galeria Arte Periférica, no CCB, em Lisboa, de 17 de abril a 16 de maio 2024

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Na Galeria Arte Periférica José Carlos Nascimento apresenta 50 fotografias registadas no dia 25 de Abril de 1974, as quais permaneciam ainda inéditas.

O seu olhar centra-se nas pessoas, militares e povo: nas suas atitudes, olhares, gestos, alegrias, confiança, esperanças…

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José Carlos Nascimento, 25 de Abril de 1974

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Na folha de sala lemos o texto de Daniel Adrião, que narra sobre aquele dia:

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Pessoas de Abril

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Quando às 9.00h da manhã do dia 25 de Abril de 1974, José Carlos Nascimento atravessou o imponente portão da Villa Sousa, na colina da Graça, a escassos metros da casa onde vivia Sophia de Mello Breyner Andersen, para registar através da sua objetiva “o dia inicial inteiro e limpo”, imortalizado pela poetisa no seu poema seminal “25 de Abril”, estaria ainda longe de saber que nesse dia se começaria a escrever um novo capítulo da História de Portugal.

Foi, contudo, com um secreto e ardente desejo de mudança, forjado no ambiente subversivo da cooperativa Praxis, onde o quotidiano de trabalho das artes gráficas escondia um submundo de oposição ao vetusto regime do Estado Novo, que o jovem fotógrafo, politicamente desperto, partiu literalmente para uma caminhada de perscrutação, não sem antes ter arrebanhado todas as películas guardadas no frigorífico da Praxis, material que se revelaria precioso para o registo de “memória futura”, que desemboca nesta exposição.

50 fotografias inéditas, submergidas no arquivo e resgatadas 50 anos depois, para serem desvendadas ao olhar dos diferentes “públicos”, mais ou menos engajados com os acontecimentos históricos que inauguraram a 3.ª vaga mundial da democratização, espoletada pelo golpe militar dos “capitães de Abril”, logo apropriado pelo povo e transformado na “revolução dos cravos”, que serviria de inspiração a outras primaveras políticas nas décadas seguintes, a Oeste e a Leste.

O itinerário expositivo espelha a trajetória diacrónica percorrida por José Carlos Nascimento, que saindo do bairro da Graça segue o trilho popular que acompanha a par e passo a coluna militar revoltosa rumo ao bairro vizinho da Penha de França, com a missão de cercar o aquartelamento da temível Legião Portuguesa. Indiferente aos perigos, num estado de inconsciente felicidade, prenúncio de um tempo novo o povo invade os tanques e toma-lhes o comando, como que declarando que a partir de agora a revolução é sua. Gestos de (an)coragem, que conservam a integralidade da sua força e pureza originais, captados pela câmara de José Carlos Nascimento no seu percurso entre a Penha de França e o Largo do Carmo, ora em zoom, ora em grande-angular, revelando sempre um grande domínio do enquadramento, como documentam as 50 fotografias agora expostas.

O que faz desta exposição uma narrativa viva, que encapsula a espontaneidade popular do dia 25 de Abril de 1974 e a transporta inteira até aos dias de hoje, é o olhar não formatado pela urgência do facto noticioso, que marca as célebres reportagens do período revolucionário realizadas pelos fotojornalistas, muitas vezes centradas nos protagonistas militares e políticos. A atenção e o olhar de José Carlos Nascimento prende-se nas pessoas, nos homens e mulheres anónimos, é para eles que aponta a mira, elevando-os à condição estética e ética, de protagonistas maiores da Revolução de Abril.

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Daniel Adrião. Lisboa, Abril de 2024

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2024

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A exposição de José Carlos Nascimento, “25 de abril de 1974, 50 fotografias”, está patente na Galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém, Lojas 5-6, em Lisboa, de 17 de abril a 16 de maio 2024, terça a domingo das 10h às 19h.

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António Bracons, José Carlos Nascimento, 05.2024

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José Carlos Nascimento

Nasce na cidade do Porto em 1943.

Vive em Lisboa.

Curso de desenhador, gravador e litógrafo, em 1962, na Escola de Artes Decorativas António Arroio.

Paralelamente à sua atividade como estudante, exerce a profissão de operário gráfico, especializando-se em fotogravura e retoque de fotolito, tecnologia utilizada na época pelos jornais e revistas.

Ingressa numa agência de publicidade com a função de desenhador arte finalista.

Faz o serviço militar, durante a guerra colonial, não tendo sido mobilizado para a  guerra em África por ter sido requisitado pelo Departamento de Publicações do Exército.

Regressa à agência de publicidade, após ter terminado o serviço militar. Aí exerce funções de fotógrafo oficial da agência.

Em 1972, integra os quadros da Praxis (Cooperativa de Estúdios Técnicos) como responsável pela área de fotografia.

No dia 25 de Abril de 1974, sai das instalações da Praxis, no bairro da Graça, em Lisboa, com o material fotográfico de que dispõe para registar os acontecimentos históricos levados a cabo pelo Movimento das Forças Armadas e pelo povo português. Vivência no Largo do Carmo, finalmente, a queda do regime ditatorial e opressivo, com a presença de muito povo de mãos dadas com os militares de Abril.

Em 1976, já em clima de liberdade e em democracia, funda a Cooperativa Foco com outros cooperadores. Aí, é corresponsável pela direção e produção, continuando a exercer a profissão como fotógrafo.

No início dos anos 1980 cria o seu próprio estúdio, prestando serviços a empresas na área da publicidade, indústria, gabinetes de arquitectura, design, decoração, edição discográfica e editorial.

Em 1995, inicia actividade como editor da empresa Pandora Edições. Destaca-se o trabalho fotográfico em parceria com Roberto Santandreu para as seguintes obras: “Onde a Terra Acaba”, sobre os faróis portugueses e “Portugal Património Mundial” relativo aos monumentos e locais qualificados pela UNESCO.

Trabalha como fotógrafo responsável durante cinco anos, para a Câmara Municipal de Almada no projecto de recuperação urbana, financiado pela EFTA, denominado “Nova Almada Velha”.

É coordenador responsável pela execução do levantamento fotográfico das obras respeitantes à expansão da rede do Metropolitano de Lisboa, bem como da edição dos livros que daí resultaram.

Trabalha há vários anos no Estúdio da Villa na Graça, onde como autor tem colaborado em diversas iniciativas relacionadas com a edição e exposições de fotografia. Na atualidade, tem-se espacializado em actividades de cariz cultural e patrimonial e na formação profissional na área da fotografia.

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