FOTOGRAFIA ESTENOPEICA: UMA PARTIDA FÁCIL, PARA UM PERCURSO EXIGENTE, POR ANTÓNIO CAMPOS LEAL
Dia Mundial da Fotografia Estenopeica (último domingo de abril)
A exposição de António Campos Leal, “CPF – Percurso de Luz”, está patente no CPF – Centro Português de fotografia, de 30 de abril a 21 de maio de 2023.
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A convite do Fascínio da Fotografia, António Campos Leal partilhou um artigo sobre a sua paixão: a Fotografia Estenopeica. Texto e imagens de António Campos Leal.
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Define-se como câmara estenopeica, aquela que não possuindo nenhum elemento ótico, permite que se forme uma imagem num plano colocado no trajeto intercetado por um orifício (estenopo), orifício que substitui dessa forma o sistema ótico a que estamos habituados e que correntemente designamos de objetivas. Pensar-se que a objetiva é essencial para a formação da imagem é um erro.
Pela técnica da Fotografia Estenopeica é possível realizar imagens que correspondem a uma representação visual próxima do regresso aos inícios da fotografia e em que o espírito criativo será propiciador de resultados deveras interessantes.
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Muitos séculos passaram sobre as diversas descobertas ligadas ao conhecimento da luz e da formação da imagem. Do século V a.C. chegaram-nos os primeiros escritos que referem o estenopo e os seus princípios básicos. Dos chineses se pode referir a sua descoberta de que a luz se propaga em linha reta. O filósofo chinês Mo Ti é mesmo o primeiro a constatar que a luz refletida de um objeto forma uma imagem invertida sobre um plano ao atravessar um orifício.
Contudo, a civilização ocidental através de Aristóteles, séc. IV a.C., na obra “Problemas”, livro XV, 6, questiona do seguinte modo: ” Porquê quando a luz atravessa um orifício quadrado, como por exemplo através de um trabalho de cestaria, não forma imagens quadradas?”. Aristóteles levantou mais algumas questões sobre diversos fenómenos da Luz que permaneceriam mais algum tempo sem resposta. Será já no sec. X d.C. que o médico e matemático árabe Ibn Al-Haitam (Albazen), através de experimentações, verificou a formação de imagens, e a linearidade do trajeto da luz.
Remonta a 1545 o primeiro desenho de uma câmara escura estenopeica. Na obra de Gemma Frisius “De Radio Astronomica et Geometrica” este estudioso da Astronomia utilizou um estenopo numa habitação escurecida para estudar o eclipse solar de 1544. E, se os apontamentos de Leonardo Da Vinci incluem referências à câmara escura, é na obra “Magia Naturalis” de Giovanni dela Porta que surge a primeira análise detalhada. Foi Johannes Kepler(1571-1630) que utilizou o termo câmara escura o qual designava uma construção com um orifício e uma lente, permitindo pelo uso da lente obter uma imagem mais definida e com mais luminosidade, que era usada para facilitar o desenho de paisagens. No ano de 1620, Kepler inventou uma câmara escura portátil que viria a ser utilizada para ajuda na execução de desenhos.
O domínio exercido pelo mercado da fotografia digital acaba reduzindo o interesse de quantos dedicando o seu tempo e interesse à Fotografia. Os processos ditos alternativos nunca foram estimulados pelos mais ligados ao ensino das diversas especialidades e no que à Fotografia Estenopeica uns quantos apaixonados tendem a ser a voz que se quer fazer ouvir no ensurdecedor meio fotográfico.
De António Gonçalves a César Cordeiro várias foram as iniciativas ligadas à Fotografia Estenopeica antecedendo o seu Dia Mundial e que acontece sempre no último Domingo de Abril.
Um pouco por todo o lado várias referências podem ser encontradas, registadas em eventos que a rede nos propõe.
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Esta atividade foi desenvolvida durante alguns anos pelo clube “Buraco de Agulha” no seio da comunidade ligada ao Instituto Português de Fotografia, como atividades extracurricular e em iniciativa dinamizada por António Campos Leal.
Dessa forma torna-se possível um melhor entendimento do processo, pois se a construção da própria câmara é trajeto de aprendizagem, cabe pois aos praticantes percorrer diferentes caminhos na concretização de projetos diversos, e em que o próprio sistema digital pode ser incluído. Não deixa contudo de ser desafiador construir, a partir de caixas comuns de utilização variada, latas de bolachas, de chocolates, de tabacos, de… de… de qualquer coisa, e que um pequeno furo associado à coloração preta do interior, transformará em utilizável “camara obscura” e em que posteriormente e pela colocação de papel fotográfico, o tempo da alquimia, permitirá obter imagens de valor único.
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Alguns projetos de autor refletem o valor da representação estética que à Fotografia Estenopeica deve ser atribuído. E, o entendimento de alguns na busca de uma definição tão próxima quanto possível da imagem produzida com o melhor dos sistemas óticos, não me parece ser o mais importante da Fotografia Estenopeica. Caracteristicamente a imagem resultante da utilização de uma Câmara Estenopeica é o seu aspeto de menor definição bem como a existência de uma profundidade de campo que se pode entender como tendencial para o infinito. A tudo isto podemos, e talvez devamos, associar a capacidade de uma representação de um Tempo contendo sucessivos momentos.
A prática da Fotografia Estenopeica como área de ação pedagógica é só por si razão importante para uma divulgação intensa pois associada à técnica, outras áreas podem ser parceiras de estímulos vários, resultando numa aprendizagem enriquecida com componentes muitas vezes entediosas para os jovens.
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Durante alguns anos repeti o que me fora dado “aprender” com praticantes referenciados como conceituados e enquadrei a Fotografia Estenopeica no conjunto dos processos ditos alternativos. Mas a minha formação ao disponibilizar-me conhecimentos no âmbito da ótica e da química provoca-me interrogações várias. Uma vai levar-me a mudar o conceito. A de que a Fotografia Estenopeica era utilizadora de processos alternativos na obtenção da Imagem e em si a Fotografia Estenopeica mais não fazia que servir à obtenção da imagem fotográfica. Portanto era apenas tecnologia de registo. Não era um processo alternativo, mas sim apenas e só, A Fotografia.
Entretanto fruto de um percurso por diferentes teclas de um mesmo “piano” fui ao encontro de diferentes melodias que comigo se cruzavam. Desde a vulgar repetição de uma fotografia quase servindo à recolha de património, à reabilitação de uma temática de presença permanente, a Paisagem. Se urbana, se rural ou mesmo de ambientes mais inóspitos tal representação assentava quase sempre nas propostas que apareciam com frequência através da fotografia não estenopeica. A produção seguia os mesmos caminhos, muitas vezes da proposta digital com o emprego de ótica.
Não me entusiasmava. O Tempo e a Luz era a minha matriz. Assim comecei a equacionar discursos em que dominasse o Tempo e a Luz, ideias foram surgindo e dei-me bem. Para que juntasse de forma a satisfazer a minha procura fui relacionando o Espaço que continha a minha busca de base. Foi nas diferentes formas e dimensões das câmaras utilizadas que encontrei resposta para a minha busca.
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Cada vez mais optava pelo suporte “papel” pela sua baixa sensibilidade. Um ISO baixo favorecia a minha pretensão pelos longos tempos de exposição. Saltava assim de um instante decisivo de HCBresson para a recolha de vários Tempos numa única exposição. Assim, agarrava o Tempo. Ou melhor o Tempo no seu todo representava-se numa só imagem.
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Livro “Luz Nos Livros”, Colecção Ephemera, Editora: “Tinta da China”
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Nesta fotografia com seis horas de tempo de exposição, desaparecem os ponteiros do relógio. E o Tempo fica representado numa só imagem que contém vastas horas de exposição.
Mas se nesta fotografia um relógio transparente, de ponteiros pretos e que desaparecem pelo seu percurso/movimento circular favorece a perceção do acontecido. Mais difícil será olhar o exemplo seguinte, em que oito horas de tempo de exposição, com quatro horas ao fim de uma tarde de Agosto e quatro horas matinais, usando assim diferentes orientações de Luz, nos proporcionam a realização de uma fotografia cuja ambiência de Luz nos engana os sentidos.
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Livro “Luz Nos Livros”, Colecção Ephemera, Editora: “Tinta da China”
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O concretizar de diferentes representações passa muito pela leitura dos diferentes espaços, levando-me a optar por formas variadas de representação e assim a optar por câmaras muito diferentes entre si.
Tais opções proporcionam a concretização do meu olhar sobre o que os Espaços me propõem.
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Da série: “CPF Percurso de Luz” – “Natureza Morta”. Teste de uma câmara, 53 horas de exposição – Da série: “CPF Percurso de Luz” – Livro “Luz Nos Livros”, Colecção Ephemera, Editora: “Tinta da China” – Claustros da Sé, Porto – Claustros da Sé, Porto
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As opções tomadas quanto às câmaras a utilizar influenciaram o resultado obtido. E é o momento lumínico que determina a opção por uma ou outra câmara.
Já uma ideia fervilhando no cérebro desafia a busca do momento. A que a utilização de uma câmara específica, ajuda ao pretendido.
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Câmara utilizada: “HOLGA 120 WPC (WIDE PINHOLE CAMERA)”. Exposição com a utilização sequencial de dois negativos
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Texto a partir de um escrito elaborado a 4 de Maio de 2009.
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António Campos Leal, expõe “CPF – Percurso de Luz”, no CPF – Centro Português de fotografia, Largo Amor de Perdição, no Porto, de 30 de abril, Dia Mundial da Fotografia Estenopeica (último domingo de abril) até 21 de maio de 2023.
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António Campos Leal (Peso da Régua, 1952). Químico por formação, fotógrafo profissional e professor de fotografia. Realizou várias exposições individuais e participou em exposições colectivas. É autor dos blogues «Buracodeagulha» e «Escrita Fotográfica».
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Pode ver no FF sobre o livro “Luz Nos Livros”, Colecção Ephemera, Editora: “Tinta da China”, 2015, aqui e sobre a série “CPF – Percurso de Luz”, aqui.
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Cortesia: António Campos Leal.
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