YURI DOJC, KATYA KRAUSOVA, LAST FOLIO
Dia Mundial da Fotografia.
Exposição no MMIPO – Museu e Igreja da Misericórdia do Porto, de 15 de julho a 20 de novembro de 2022.
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«Nenhum céu estrangeiro me protegia,
nenhuma asa estrangeira me cobria o rosto.
Ergo-me como testemunha de um fado comum,
sobrevivente daquele tempo, daquele lugar.»
Anna Akhmatova, Requiem (1935–1940)
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Vi Last Folio, no Museu Coleção Berardo em Lisboa, já nos últimos dias. A exposição impressiona, choca. Choca pela degradação dos livros, mas sobretudo pela razão dessa degradação: os livros ficaram na aldeia (estavão lá há mais de 64 anos, à data das fotografias), quando os habitantes foram levados pelas tropas nazis, em plena Segunda Guerra Mundial, para os campos de extermínio. Não regressaram.
Cheguei há escassos dias de uma visita a Praga, na Chéquia, antiga República Checa e antes, Checoslováquia. A violência nazi, primeiro, e a opressão soviética, depois, está patente em múltiplos memoriais, museus, monumentos, estátuas, placas, marcas, memórias…
Quem viveu essas realidades brutais, inumanas, não as quer – nem pode – esquecer. A História – a Memória – é essencial para um povo.
Tive presente, em memória, entre outras, as fotografias desta exposição, realizadas por fotógrafos de origem checoslovaca. Os livros. Os sobreviventes dos campos de extermínio. A sinagoga abandonada. O testemunho
Neste Dia Mundial da Fotografia, estas fotografias são mais que imagens, são mais que memória (sugiro que veja em silêncio).
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«Lá onde se queimam livros, no fim queimam-se também seres humanos.»
Heinrich Heine
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«A forma mais eficaz de destruir as pessoas é negar e suprimir o seu próprio entendimento da sua história.»
George Orwell
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Na folha de sala da exposição (no Museu Coleção Berardo, em Lisboa) escreve Rita Lougares:
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Yuri Dojc e Katya Krausova nasceram ambos na antiga Checoslováquia, tendo emigrado ainda jovens para o Canadá e Inglaterra, respetivamente, por razões políticas, quando em 1968 o seu país de nascença foi invadido pelas tropas soviéticas, que puseram fim ao sonho da chamada Primavera de Praga e consequentemente à democratização daquele território.
Quando iniciaram este projeto, Yuri Dojc era um fotógrafo consagrado pelos seus retratos de judeus sobreviventes do Holocausto, e Katya Krausova era uma cineasta de sucesso. Viviam há quase 40 anos fora do seu país. Os seus destinos cruzaram-se pelo seu interesse comum em aprofundar a história da Checoslováquia. Juntos desde 2005, viajaram durante dez anos por uma Eslováquia arrasada pela guerra à procura das memórias dos judeus sobreviventes do Holocausto, das suas raízes e das suas identidades, numa tentativa de resgatar a cultura histórica judaica.
As imagens que se apresentam em Last Folio são o resultado do seu trabalho, o último testemunho de uma cultura, da história de um povo — uma história que foi brutalmente interrompida quando das deportações para os campos de concentração, em 1942. São imagens únicas pela sua autenticidade e intensidade, tão belas quanto trágicas, de ruínas de escolas, de sinagogas, de livros e de objetos. A exposição inclui ainda um conjunto de retratos contemporâneos de sobreviventes do Holocausto e um filme que, de uma forma poética, nos tocam e testemunham as cicatrizes da tragédia nazista e da destruição da cultura judaica.
Last Folio é sem dúvida uma experiência dolorosa e profunda, um espaço que expõe a destruição cultural de uma civilização, um espaço de meditação que nos obriga a reagir, a refletir, a questionar o mundo em que vivemos, onde muitos ainda não têm voz, e a exigir que a liberdade e a tolerância sejam os valores fundamentais do século XXI. Cabe a cada um de nós ter a vontade e a capacidade para concretizar esta mudança.
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Yuri Dojc concretiza:
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Março de 2006 Eslováquia Oriental
O acaso levou o fotógrafo Yuri Dojc, a sua produtora Katya Krausova e a sua equipa do documentário a uma escola judaica abandonada no Leste da Eslováquia, onde o tempo parou desde o dia de 1942, quando todos os presentes foram deportados para os campos de concentração. Os livros escolares ainda lá estão, cadernos de exercícios com correções, relatórios escolares, até açúcar, ainda no armário da cozinha… tudo em decomposição em prateleiras empoeiradas, as testemunhas finais de uma cultura outrora próspera.
Estes livros abandonados e em decomposição, deitados nas prateleiras empoeiradas, as últimas testemunhas de uma cultura outrora próspera, são tratados por Yuri Dojc como os sobreviventes individuais que são – cada livro é capturado como um retrato, preservado na sua beleza final, imagens que dizem mais do que mil palavras.
Agora, anos depois, na sua própria busca, que começou com retratos de sobreviventes após a morte do seu pai, transforma-se numa notável narrativa fotográfica.
Entre essas muitas centenas de livros e fragmentos fotografados por Yuri, há um que se destaca especialmente – um livro que milagrosamente voltou de uma pilha empoeirada para o seu legítimo herdeiro – um livro que já foi do avô de Yuri, Jakub.
E assim a jornada, que começou com um retrato do seu pai, fechou o círculo.
Last Folio traça uma viagem pessoal na memória cultural – uma reflexão sobre a perda universal, como parte da memória europeia.
Last Folio viaja agora como uma instalação de arte combinando uma exposição de fotografias selecionadas, um documentário e um livro, em vários países de ambos os lados do Atlântico.
Doze das imagens fazem parte da coleção permanente da Biblioteca do Congresso, em Washington.
Em 2015, Last Folio fez parte das comemorações mundiais dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e a exposição foi já vista nas Nações Unidas, em Nova York, na Biblioteca Nacional da Alemanha, em Berlim, no Museu Mark Rothko, na Letónia, no Novo Museu da Tolerância, em Moscovo e na Galeria de Arte da Universidade Tufts nos EUA.
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António Bracons, Aspetos da exposição (no Museu Coleção Berardo, Lisboa), 2022
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A exposição de Yuri Dojc e Katya Krausova, “Last Folio”, com curadoria de Katya Krausova, esteve patente em Lisboa, no Museu Coleção Berardo, de 27 de janeiro a 29 de maio de 2022 e apresenta-se no MMIPO – Museu e Igreja da Misericórdia do Porto, inaugurada no 7.º aniversário do museu, a 15 de julho, está patente até 20 de novembro de 2022.
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Sobre a exposição no Museu Coleção Berardo, aqui. Sobre o projeto Last Folio, aqui.
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