ADRIANO MIRANDA, DA UCRÂNIA COM AMOR . 2

Exposição na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.

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“As fotografias que nunca quis fazer.”

Adriano Miranda

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Adriano Miranda foi um dos fotojornalistas portugueses que esteve na Ucrânia desde os primeiros dias da guerra.

Fotografou para o jornal “Público”, cujo quadro integra. De 1 a 10 de março, escreveu 10 crónicas, que foram publicadas pelo jornal, sob o título “Da Ucrânia com Amor”, como refere, “um diário de um fotógrafo na Ucrânia”. Uma 11.ª crónica leu na inauguração da exposição.

Trago aqui essas crónicas, ao longo de três publicações, a par com algumas das suas fotografias.

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5 de março de 2022

Crónica V

As mulheres

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Não aprendeu a andar há muito tempo. Pelo passeio plano, a mão da mãe impõe o ritmo. De gorro, casaco, botas e mochila, as pequenas pernas apresentam uma frágil coordenação. Malas de pessoas apressadas quase atropelam o pequeno rapaz. Ele continua a sua marcha. Não quer vacilar. Não deve vacilar. Olho para ele com sinal de admiração. Ele não quer saber. Necessita de olhar em frente. O pequeno rapaz é o sinónimo do milhão. O milhão que já abandonou as suas casas, os seus empregos, os seus amigos, os seus familiares. Abandonaram o bom ar que sabiam respirar. O pequeno rapaz é já um soldado. Soldado da inocência e da partilha.

Pela cidade, as mulheres suportam malas e cuidam das crianças. São milhares, sem o companheiro. Só elas e os filhos. Os homens estão a combater. Outros, estão de prontidão. Acariciam a Kalashnikov para matar russos. Que ironia. Matar é o seu grande desejo. O ódio é imparável. As mulheres somente acariciam os rebentos de um país invadido.

Sou filho de um homem que era extremamente meigo. Refugiado da II Guerra Mundial. Talvez por isso, numa noite de grande amor – conheço bem os meus pais – o empenho no meu coração. Gravou no meu tenro músculo a palavra paz. Aqui, na terra desumana, já chamei pelo meu pai várias vezes. Não tenho Deus. Tenho no céu o meu pai. O bastante para ser resistente.

O visor da minha máquina fotográfica já me limpou os olhos várias vezes. É difícil não chorar. Caros leitores, aqui o sofrimento é atroz. Podemos ser comentadores, analistas, de esquerda ou de direita. É sempre fácil no conforto do sofá. Aqui deixou de haver sofás. E berços só nos braços fortes das mães e das avós. Gosto de olhar olhos nos olhos. As mulheres são lindas. Transportam uma beleza que nem o desespero consegue vencer. São serenas. São solidárias. Carregam com elas o futuro de dois países. Meninos e meninas. Em Kiev ou em Moscovo, todos gostam de brincar. Bonecas e carrinhos. Existem linguagens universais.

As mulheres são o melhor que a humanidade tem.

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6 de março de 2022

Crónica VI

Matar russos

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As sirenes têm tocado menos. O mais difícil é durante o sono. O acordar e o vestir rápido. Há pessoas que já dormem vestidas. Até calçadas. Nunca se sabe quando as bombas começam a cair do céu. E a onde caem.

É tudo muito calmo. Não existe confusão. Não existe histeria. Pela cidade há vários locais de abrigo. Hotéis, livrarias, teatros e prédio de habitação. Tudo está preparado para a maior protecção possível. As pessoas sentam-se em cadeiras ou no chão. Quase não conversam. Dialogam com o telemóvel quando a rede permite. Depois é esperar que a sirene deixe de uivar. Pode demorar meia hora, duas horas… demora o tempo necessário. É aguentar.

As ruas voltam a estar cheias de gente. Falso alarme. A vida continua. O transito é caótico. As pessoas são formigas em vários carreiros. Paro junto a uma igreja. Está em obras de restauro. Os andaimes com a lona verde deixam espreitar os santos. As obras estão paradas. Em tempo de guerra não se cuidam de santos. Empurro a porta pesada. É enorme. Centenas de pessoas escolhem o seu canto. Rezam. Colocam velas. Pedem ajuda. Cheira bem. Um cheiro doce. A bandeira da Ucrânia. Muitas fotografias de homens. Novos e velhos. Todos soldados. Todos mortos. Flores e choros. Timidamente vou fotografando. Não quero ser intruso na força da crença. Uma mulher magra e com um gorro vermelho, fala baixinho e chora compulsivamente. No meio de tanto homem estará certamente o seu. Marido ou filho. É grande a dor. A puta da guerra. O cabrão do ódio. Saio do templo das preces e do sofrimento. O frio invade a minha cara. Sabe bem.

Militares dão formação a voluntários que querem matar russos. Aprendem a manejar uma arma, uma granada, a ter pontaria, a saber atacar. Numa tarde fazem a recruta de meses. Os seus rostos estão cabisbaixos. Uns adoram a guerra. Sente-se uma alma belicista nos homens ucranianos. Outros sentem medo. Receio de não acertar no peito ou na cabeça de um russo. Cheira a carne. A carne que vai alimentar os canhões. Falo com um, falo com outro. Até me apontam a AK-47 como se eu fosse um russo. E riem de felizes. Uma felicidade falsa. Nervosa. Alguns acabaram a puberdade há muito pouco tempo.

Não sei quem será. Quantos serão. Mas as suas fotografias irão forrar mais uns metros de parede. E mulheres virão. Chorar com flores nos braços.

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7 de março de 2022

Crónica VII

Os baloiços

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Blocos de cimentos. Pneus. Sacos de areia. Ferros. Homens. Bandeiras da Ucrânia. Os checkpoints estão colocados estrategicamente para travar o avanço das tropas russas. Pedem passaportes, revistam automóveis. Procuram, como agulha no palheiro, infiltrados russos. O condutor é cauteloso. Nunca ultrapassa os limites de velocidade. As aldeias vão aparecendo. Na estrada estreita e enlameada as barreiras estão a postos. Algumas sem ninguém. Sente-se o sossego do campo. As árvores, quase sempre todas alinhadas, perdem-se de vista. A floresta é imensa. Fábricas, grandes fábricas, made in USSR são agora esqueletos. Sobram os tijolos dos edifícios e as vidraças partidas. Sempre imponentes, as chaminés. Já não vomitam fumo negro. Ao longe, um comboio gigante. É de mercadorias. Ferrugento. Tudo é triste.

Na berma da estrada existem cruzes e flores de plástico. Pessoas que morreram ali. Acidentes. Uma cruz de Cristo deixa-se adivinhar no meio da floresta. É quase do tamanho das chaminés. É toda branca. Transporto para aquele local, de árvores alinhadas e terra feita de neve, as imagens da televisão ucraniana. O café estava cheio. A televisão, pregada a uma parede creme. Sem som. Indiferença. Ninguém olha para os soldados patriotas. Só eu. Soldados ucranianos mataram soldados russos. Numa floresta também. Pontapeiam um jovem russo. Loiro. Coberto com uma mistura de sangue e terra. Terão que ter a certeza que está morto. É a guerra. É a morte, por mais cruzes de Cristo que plantemos.

Quem resgatará aquele corpo tenro? Será entregue à família? Terá funeral? Uma coisa é certa. O seu nome será anexado nas milhares de folhas Exel de um ministério qualquer. A lista dos que partem vai ser infindável. Russos e ucranianos. Florestas e cidades pintadas de sangue.

Já é noite. O bairro, tipicamente soviético, também tem árvores. Automóveis e baloiços. E gente. Subo ao terceiro andar. Uma menina não fala. O pai e a mãe estão a combater. Não percebe porquê. As saudades não a deixam pensar. Uma jovem acaricia a barriga. Está grávida. O marido é soldado. Está a combater. Na parede do seu quarto a televisão está desligada. Penduradas num fino fio, uma fotografia do soldado pai e duas fotografias da última ecografia. Chegará o dia, que haverá baloiços para todos. Esperança.

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Adriano Miranda, Da Ucrânia com Amor, 2022

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A exposição de Adriano Miranda “Da Ucrânia com Amor” é apresentada pelo Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da UA, numa iniciativa do Projeto Globalização e Identidades, está patente na Biblioteca da Universidade de Aveiro, de 15 de junho a 15 de julho de 2022.

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Adriano Miranda. Aveiro – 1966.

Estudou na Cooperativa Árvore – Porto e AR.CO – Lisboa.

Fotógrafo do jornal Público desde 1996, editor de fotografia de 2001 a 2005. Professor de Fotografia, no AR.CO, CENJOR e ESMAE. Atualmente leciona no IPCI-Porto e na Escola Superior de Jornalismo – Porto.

Participou em várias exposições na América Latina e na Europa. Está representado em colecções em Portugal e no estrangeiro. Vencedor do Prémio na categoria de Retrato da Estação Imagem 2011, Prémio Gazeta 2017, Prémio de jornalismo da Rede Europeia Anti-pobreza 2019, 2020 e Menção Honrosa em 2021.

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Pode ver as restantes crónicas no FF, aqui e aqui.

Pode conhecer mais sobre o trabalho de Adriano Miranda no FF, aqui.

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Cortesia: Adriano Miranda.

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