ANNETTE LEMAY BURKE, MEMORY BUILDING
Esta série integra a exposição “The Family in Transition”, do Imago Lisboa Photo Festival patente nas Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa, de 2 a 20.10 e de 29.10 a 06.11.2021.
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Annette Lemay Burke, Memory Building
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O tempo muda tudo. Esse clichê tornou-se dolorosamente significativo para mim após a morte dos meus pais, com apenas alguns meses de diferença, alterando para sempre a minha estrutura familiar. O amor incondicional que recebi deles ao longo da minha vida tinha-se ido. Fiquei apenas com as suas posses físicas e com as memórias que partilhámos nas nossas vidas em conjunto. Entre as suas posses estava um arquivo bem organizado de fotos de família.
Nesta série, projetei aquelas comuns fotos de família nas superfícies da minha casa de infância. Ao sobrepor as fotos do passado nas paredes dos dias de hoje, descobri 60 anos de memórias enraizadas e tentei capturar a história do desaparecimento da minha família, que um dia permeou esta casa.
A casa dos meus pais é a típica casa de quinta do pós-guerra que era construída nos recém-criados bairros dos Estados Unidos. A decoração da casa foi feita com base no estilo americano antigo, popular na década de 1950. (Nos dias de hoje há quem se refira a este estilo como Coloniawful.) Eles moraram nesta casa desde o dia em que se casaram até à sua morte — dos 20 aos 80 anos — e muitos dos móveis que compraram quando foram para lá permaneceram na casa por toda a vida. Aquela estabilidade proporcionou-me uma base sólida para a minha educação.
A criação dos quadros projetados tornou as minhas memórias mais tangíveis e trouxe conforto para o meu luto. Com tantas experiências da minha formação enraizadas e entrelaçadas neste edifício, despedir-me dele era também despedir-me dos meus pais. Mesmo após os quartos terem sido literalmente pintados de branco, de forma a receber os novos proprietários, as minhas memórias continuaram a ressoar por entre as paredes.»
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2021
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A série de Annette Lemay Burke, “Memory Building”, integra a exposição “The Family in Transition”, com curadoria de Rui Prata, promovida pelo Imago Lisboa Photo Festival, patente nas Carpintarias de São Lázaro, na R. de São Lázaro, n.º 72, em Lisboa, de 2 a 20 de outubro e de 29 de outubro a 6 de novembro de 2021 (5.ª feira a domingo, 12:00 – 18:00), (inicialmente de 2 a 31 de outubro).
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Annette LeMay Burke é uma artista premiada da área da fotografia, nasceu no norte da Califórnia, e vive no centro de Silicon Valley. Tornou-se uma observadora da evolução da paisagem ocidental desde longa data. Teve a sua primeira aula de câmara escura enquanto frequentava o bacharelato em Ciências da Terra (planeta), na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
A sua prática fotográfica foca-se agora na forma como interagimos com o mundo natural, nas paisagens construídas pelos artefatos da tecnologia, e nos artefatos mais intangíveis (memórias) que são criados ao longo das nossas vidas. O seu trabalho foi exibido nos Estados Unidos e em outros países. Em maio de 2021, a Daylight Books publicou uma monografia das imagens das suas torres de rede móveis disfarçadas, intitulada Fauxliage: Torres de redes móveis disfarçadas do oeste americano.
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Sobre a exposição, “THE FAMILY IN TRANSITION. A FAMÍLIA NA ATUAL SOCIEDADE”, escreve o curador, Rui Prata:
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A origem e definição da palavra família não é consensual. Na Wikipédia encontramos como significado, “um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interação dos membros da mesma, considerando-a, igualmente, como um sistema que opera através de padrões transacionais”. Parece-nos ser uma significação bastante abrangente e satisfatória no quadro das mutações da família contemporânea, contrariamente à definição sugerida por Claude Lévi-Strauss. Aquele antropólogo francês sugere que “a família nasce a partir do momento em que haja casamento, passando, portanto, a haver cônjuges e filhos da união destes”. No nosso entender é um significado ultrapassado na medida em que o casamento, embora constitua um sacramento na maioria das culturas, e onde podemos incluir outros rituais de acasalamento, não representa mais a exclusividade da génese dos laços familiares. Com a evolução da sociedade atual, foram-se gerando novas configurações familiares. É verdade que as famílias monoparentais resultam maioritariamente da rutura de um casamento, mas também surgem da possibilidade da mulher gerar um filho de forma independente. Igualmente, a família arco-íris constituída por um casal homossexual e que possui, ou não, uma ou mais filhos a seu cargo, não passa necessariamente pelo casamento.
Existe o estereótipo da família feliz, que coabita em harmonia, mas também existe a família disfuncional, ou aquela onde, por razões diversas, se geram ódios. Situações de disfuncionalidade são inúmeras, mas não resistimos a recordar a mitologia grega na figura de Erígone, filha de Egisto e Clitemnestra. Reza a lenda que, após Agamémnon ter ido para Troia, Clitemnestra, sua esposa, se torna amante de Egisto. Quando Agamémnon regressa, Egisto e Clitemnestra assassinam-no e depois casam-se. Os filhos de Agamémnon e Clitemnestra, Electra e Orestes, decidem vingar o pai e recuperar o reino, o que os leva a assassinar Egisto e a própria mãe. Mas o horror vai mais longe, quando Orestes viola a meia-irmã, a bela Erígone, por quem acaba por se apaixonar.
Assim, acreditamos no facto que no seio familiar, seja ele qual for, o denominador comum assenta, efetivamente, numa estrutura funcional que gere a interação de cada um dos seus membros.
Estamos conscientes de existirem muitas outras possibilidades de mapeamento das relações amorosas e familiares. Contudo, acreditamos que se alcança matéria suficiente para discussão e reflexão em torno da temática eleita pelo festival.
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Sobre o Imago Lisboa Photo Festival, escreve a organização:
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A 3ª edição do festival IMAGO LISBOA evidencia o seu crescimento consolidado.
O festival organiza-se em torno de duas temáticas: The Family in Transition (integralmente apresentada nas Carpintarias de São Lázaro) e Rethinking Nature/Rethinking Landscape (disseminada em vários espaços), que constituem o mote para reflexão em torno de questões fundamentais da atual sociedade.
Na fusão de ambas as temáticas, apresentam-se três séries de Joakim Esklidsen, cuja obra é exposta pela primeira vez no nosso país e que poderá ser visitada no MNAC – Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Também numa nova colaboração com o projeto Salut au Monde, apresenta-se na SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes) a exposição We are Family que bebe a influência da mítica exposição The Family of Man, no MoMA em 1955.
A presença portuguesa está a cargo de Pauliana Valente Pimentel cuja obra Ask the Kids, retrata uma franja de jovens portuenses.
Devido à situação pandémica não foi possível, em 2020, realizar o projeto de leitura de portfolios – Lisboa Meeting Point, onde, supostamente, se expunha a obra de Mikhail Bushkov, artista vencedor. Assim, o seu trabalho Zürich bem como da sua mulher Olga Bushkova apresentam-se na novel Galeria Imago Lisboa.
Marginalmente à programação oficial, devemos salientar a crescente colaboração de galerias e outros espaços expositivos que se associam ao evento.
Em paralelo às exposições estão programadas um conjunto de ações tendentes à motivação e participação de públicos diversos.
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Sobre o Imago Lisboa Photo Festival no FF (a agenda e outras exposições), aqui e no site do Imago, aqui.
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Cortesia: Imago Lisboa Photo Festival.
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