SUSANA PAIVA, POÉTICA, 2019
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Susana Paiva
Poética
Fotografia: Susana Paiva / Texto: Francisco Varela
Lisboa: Huggly Books / Setembro . 2019
Coleção: Cidade Limiar #02
Português e inglês / 13,4 x 21,0 cm / 72 pág., não numeradas
Cartonado / 25 ex., numerados e assinados, incluem uma prova original
ISBN: 9780464122708
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Em “Poética” reconhecemos alguns lugares, há imagens que têm algo de familiar. Somos levados pelo monumental da cidade – e pelo seu quotidiano. A viagem faz-nos olhar a cidade e assim, construir a paisagem.
“Poética” centra-se na fotografia como viagem e como paisagem. “Viagem – fotografia – viagem”, é o ensaio que Francisco Varela escreveu:
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Esta dupla condição da actividade exploratória que é o acto de viajar – a de nos movermos para sítios desconhecidos para reafirmar a nossa identidade e a de nos deslocarmos para encontrar espaços que desconhecíamos – está presente nos vastos empreendimentos de reconhecimento do território, que foram as Missões Fotográficas, sendo as principais as Missions Héliographiques (1851), que seguiam itinerários pré-estabelecidos e mais recentemente, desde 1984 até ao presente (sendo que algumas das referidas missões ainda estão em curso), a Mission Photographique de la DATAR e a Mission Photographique Transmanche (ambas em França), a Linea di Confine per la Fotografia Contemporanea (em Itália), a EKODOK-90 (na Suécia), a Fotografie und Gedächtnis [fotografia e memória] (na Alemanha), a Long-Term Photographic Observation of Schlieren (na Suíça), a RO-Archive (na Roménia) e a Denmark in Transition (na Dinamarca). Em Portugal destacaria, dos vários inquéritos realizados, a encomenda pelos Encontros de Fotografia de Coimbra, que teve o seu fim em 1996, de um levantamento que tinha por objectivo “[…] criar a imagem coordenada do Portugal de final do séc. XX”.
Todos estes “surveys” têm em comum serem encomendas de instituições públicas ou semipúblicas, delimitadas no tempo, que pretendiam de uma forma muito concreta dar registo das transformações ocorridas na paisagem de determinadas zonas, (…) ou a ver com a arquitectura, industrialização, meio-ambiente ou com a sociedade e modos de vida.
Há uma condição comum às diversas missões – a diversidade de abordagens daí resultantes e o facto de aos fotógrafos lhes ter sido permitida total liberdade na definição do seu modus operandi, encontrando-se aqui de novo a dupla condição da viagem como dispositivo de consolidação de uma identidade ou como mecanismo de revelação do que se desconhece (haverá, por ventura, uma terceira via que será a conjugação em proporções diferentes destes dois axiomas).
Estes encontros com o território tanto abrangem autores que reencenam imagens cujas tipologias se identificam com os seus diversos projectos anteriores como também poderão incluir casos como o de Robert Doisneau que num acto de descoberta pessoal e iconográfica, reinventando-se, vai ao encontro dos subúrbios descobrindo (diria, com algum maravilhamento) as grandes massas de cor dos blocos periféricos. Outras vezes a viagem é o mecanismo que possibilita a construção de um território interior, como em Paulo Nozolino que viaja para encontrar o seu panteão iconográfico pessoal. Ou ainda Daniel Blaufuks que, em London Diaries, utiliza a viagem como uma mise-en-scène para a construção de um artefacto que se constitui como diário, apelando a um tempo pessoal na descoberta do território. Por vezes a colocação em cena de um personagem diz-nos tanto sobre as marcas infligidas no território como a usual visão panorâmica do “modo” paisagem, – penso na quarta imagem do livro A1-The Great North Road de Paul Graham, onde tanto a mulher que nela figura como a inscrição punk nos remete para o contexto de falência social da era Margaret Thatcher.
A viagem tem sido pensada, praticada e utlizada como dispositivo de desconstrução e construção do território de forma muito diversa, podendo ser rastreada desde o Flâneur (…) à dérive situacionista que pratica a viagem para a reconstrução psicogeográfica do território (enquanto conjunto de arquipélagos imersos num mar vazio sulcado pela errância), de forma lúdica e espontânea, substituindo a errância surrealista da deambulação que se pode ver, também, como uma forma de escrita automática no espaço real da cidade inconsciente e onírica. A cidade para os situacionistas é assim um espaço para ser vívido colectivamente, onde se experimentam comportamentos e onde se transforma o tempo útil em tempo lúdico-construtivo. Por fim em “Stalker “ de Tarkovski a viagem é um mecanismo de constante mutação e redefinição do território, que descobrimos ser, de alguma forma, um resultado do permanente reposicionamento pessoal, provocado ao mesmo tempo quer pelo que “está fora“ quer pelo que “está dentro de nós”, sendo a descoberta final ou o fim da viagem a redefinição de todo o nosso contexto territorial, pela implosão interior do nosso “eu inconsciente”.
Em “Poética”, de Susana Paiva, temos uma fotografia palimpsesto, reflexão sobre um pensamento sobre o território ou, dito de uma outra forma, as imagens das imagens do património monumental contextualizadas por uma circunstância envolvente, que as comentam, remetendo-nos para a forma como a cidade se pensa a si própria através da escolha do que tem para “oferecer”. Neste ensaio sobre o corpo – da cidade e do autor, enquanto presença que transfigura o espaço – o mapa também se transforma em corpo, ficando destituído da sua função orientadora e ganhando uma corporidade que se constitui, também ela, como “monumento”. A viagem aqui, se bem que tenha sido também descoberta de novas circunstâncias, obedeceu enquanto mecanismo da operatividade fotográfica a um programa pré-estabelecido, onde, uma vez mais, a identidade do fotógrafo assume o papel condutor da revelação e construção do território.
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Mas para além da fotografia e da viagem e da paisagem, a questão essencial que este livro coloca é: se “viajamos para nos encontrar ou viajamos para encontrar?”
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Susana Paiva, Poética, 2019
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Susana Paiva (Moçambique, 1970). Sobre si, diz:
Fotógrafa. Tornou-se fotógrafa ao longo das duas últimas décadas, anos cheios de aprendizagens e dúvidas.
Construiu a sua singularidade através de constante pesquisa e experimentação, descobrindo o seu ritmo, a sua zona de conforto e os seus conceitos de eleição.
Hoje sabe que é uma fotógrafa lenta que requer tempo para a contemplação e para a instalação num determinado espaço ou interação com um determinado sujeito.
Descobriu que é uma fotógrafa tangencial, que necessita estar perto, para mover e ser movida e partilhar generosamente os seus projetos fotográficos e ideais.
Compreende agora que é propulsionada por uma imensa necessidade de transfigurar a realidade e navegar na poética dos fragmentos da vida cotidiana, e que a fotografia se tornou a sua primeira linguagem, substituindo gradualmente a palavra primordial na sua interação com o mundo.
Hoje sabe que só quando compartilha as imagens que cria fica preenchida não apenas como profissional mas, mais importante do que isso, como ser humano.
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Francisco Varela (1969)
Ainda sou arquitecto, embora tenha estabelecido que sou fotógrafo desde 2012 e cada vez mais outras coisas também. Vagueio por diversos lugares, sendo o livro-de-artista o meu poiso habitual. Entretanto, voltou a reflexão sobre o território e, ligando tudo isto, o interesse pela curadoria.”
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Pode conhecer melhor o trabalho de Susana Paiva aqui e no Fascínio da Fotografia, aqui.
Pode ver o 1.º volume da coleção Cidade Limiar, “Margem”, de Alberto Picco, aqui e o 3.º volume, “Open House”, de Paula Arinto, aqui.
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