ENCONTROS DA IMAGEM 2020 – GÉNESIS . EXPOSIÇÕES – 1

30.º Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, em Braga, Barcelos, Guimarães, de 11 de Setembro a 31 de Outubro 2020, e no Porto, de 18 de Setembro a 31 de Outubro 2020. Hoje, as exposições de Braga e Barcelos (não incluindo os Fotógrafos Emergentes).

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GÉNESIS

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O homem não é capaz de viver sem juízos de valor que traduz em significados herdados. Já foram místicos ou divinos, hoje os seus paradigmas, tendencialmente globais, são a experiência e a sensibilidade. E é por isso mesmo que tem sido tão difícil apreender a sistemática desintegração do planeta em que vivemos e da comunidade internacional que se tentou construir. A irracionalidade política, governada pela finança, recusa a evidência de crise global desde 1997, (Protocolo de Quioto) e hoje, é apenas através de iniciativas particulares e individuais que esta questão limite se impõe. Iniciativas que se reproduzem e evoluem nesse vasto campo de ação que é a cultura da Globalização. A globalização cresceu nos Estados Unidos, já armadilhada pelo conflito aberto dos Blocos ideológicos e da Guerra das Estrelas, afastando-se da utopia da aldeia global, que o sociólogo canadiano McLuhan, sob o influxo da nova tecnologia, previa vir a ser a sociedade do futuro. Funcionando como uma comunidade de intensa comunicação oral onde a solidão seria banida, tal como nas velhas sociedades sem escrita, foi a utopia dos Anos Sessenta do século passado. A Globalização foi, antes de tudo, económica e financeira, num sistema desigual de exploração de vantagens. Com a mundialização da Internet foram-se aculturando modas, marcas ou pandemias, hábitos e gestos da industrialização, lazeres, a ideia de progresso versus o direito à felicidade e, naturalmente, um individualismo de forte autoestima. O sentido crítico da arte contemporânea reflete esta soma de influências, esta derrocada das utopias sociais.

O paradigma global deixou de ser o da comunicação, mas o da informação que traz consigo poder, ou seja, o mundo transformou-se numa série de algoritmos e a vida num processamento de dados. A arte visual que aderiu parcial ou totalmente à revolução tecnológica é o micromundo dessa transformação e, tudo indica, virá a ser o registo criativo da tomada de consciência dos problemas deste presente crítico.

Genesis é tudo isso: a origem ou criação e, como em todas as criações e também na arte, a génese sucede à destruição. Com cada criação surgem novos significados, outros juízos de valor, outras teorias científicas, novos mitos novos algoritmos e, insidiosamente, velhos erros e revivalismos que atrasam os significados desta comunidade do futuro que, com o seu desleixo e as suas utopias de felicidade não as quis e não as quer perder. Mudanças, deslocações de povos, efeitos de catástrofe ou de perseverança, criação e destruição, – o alfa e o ómega de uma cultura – e que, consensualmente, nos aparecem como a essência das novas artes visuais.

A Direção

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Apresento as exposições desta 30.ª edição dos Encontros da Imagem, através de uma ou duas imagens de cada autor e da sinopse do seu projeto. Nesta primeira publicação apresento as exposições patentes em Braga e Barcelos (não incluindo os fotógrafos emergentes), na segunda parte, os fotógrafos expostos em Guimarães e no Porto e na terceira parte, os Fotógrafos Emergentes.

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Aaron Vincent Elkaim / Where the River Runs Through

Braga: Galeria do Paço da Universidade do Minho / Largo do Paço

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Os planos para o Complexo da Barragem de Belo Monte começaram em 1975 no auge de uma ditadura militar no Brasil. Iria ser construído no rio Xingu, lar da primeira reserva indígena do Brasil. Em 1989, os Kayapo, uma tribo de guerreiros temendo pela saúde do rio que os sustentava, montou uma campanha pública massiva em oposição a esta  construção. Os financiadores internacionais prontamente retiraram o seus apoios e o projeto foi arquivado. Em 2007, o Brasil anunciou o Programa de Crescimento Acelerado. Um dos pilares foi a construção de mais de 60 grandes projetos hidroelétricos na Amazónia nos 15 anos que se seguiam, com Belo Monte em primeiro plano. A energia gerada abasteceria iniciativas de mineração e movimentaria cidades a milhares de quilômetros de distância. Quase concluída, Belo Monte é considerada a quarta maior barragem do mundo, e desalojou  quase 40.000 pessoas. As barragens hidroeléctricas são apontadas como fontes limpas e renováveis de energia, porém o impacto das grandes barragens é imenso, são centenas de quilómetros quadrados de terras inundadas e ecossistemas fluviais transformados permanentemente, reservas de peixes devastadas, e alterações na qualidade da água da qual os povos dependem. Na Amazónia, são libertadas grandes quantidades de metano, um poderoso gás de efeito estufa, enquanto novas infraestruturas, população e crescimento económico abrem as portas da floresta para o aumento da extração de madeira, mineração e agricultura. O resultado é uma erosão acelerada da Floresta Amazónica e o sacrifício de culturas e comunidades que dependem dos ecossistemas fluviais e florestais para a sua subsistência. 

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Catarina Osório de Castro / Eclipse

Braga: Galeria Encontros da Imagem / Largo da estação nº40

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(…) O facto de esta exposição ter ganho o título de Eclipse não será propriamente causal. De facto, muito do que aqui se apresenta, e do modo como se apresenta, tem a ver com esse fenómeno de ocultação que a ideia de eclipse sinaliza: um corpo que se interpõe, um outro que se fragmenta, uma sombra que tudo tolhe e o halo das coisas que se escondem e que, nessa condição, parecem brilhar mais forte. O esconder e o fragmentar do eclipse que aqui nos traz é fruto de um olhar treinado: de um olhar que sabe recortar de uma cena tudo e apenas aquilo que nos manterá interessados. Que sabe que esse interesse depende em absoluto de uma negação, de uma recusa em declarar imediatamente os seus verdadeiros intentos, e do efeito inverso que essa recusa provoca na imaginação. Quanto menos se vê, mais se imagina, e esse é um segredo que a Catarina sabe de cor. (…)

Bruno Marchand

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Sobre esta série no Fascínio da Fotografia aqui.

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Felipe Romero Beltran / Redución

Braga: Museu Nogueira da Silva / Av. Central, 61

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“Redución”, Prémio de Fotografia Contemporânea da Galiza 2019, questiona sobre os procedimentos de redução policial e sua carga a pessoas ‘sem documentos’ que estão no território do Estado espanhol. O projeto é composto por vários capítulos com diferentes gramáticas. Num deles, as imagens têm a capacidade de colocar o espetador num outro lugar. Nelas são representadas as pessoas migrantes ‘sem documentos’, com cenas que bebem diretamente da fotografia de moda. A estetização da violência e o facto de substituir o agente policial (braço executor da violência estatal) pelo indivíduo que recebe a violência (migrante sem documentos), cria em nós uma empatia com os corpos violentados, o que nos ajuda a entender também como operam os mecanismos e processos de construção de imagens da hegemonia . O maniqueísmo de pensar que nós somos sempre os bons e os maus são sempre os outros.

Num outro capítulo o autor serve-se da linguagem documental para fazer uma recolha dos espaços transitados pelas pessoas migrantes. A condição ilegal do imigrante (corpo) determina se é possível ou não transitar de forma regular em todas as ruas. As viagens diárias das pessoas migrantes são afetadas pelo facto de elas não possuírem documentos de identificação. A polícia realiza periodicamente inspeções em áreas nas que, estatisticamente, podem capturar mais pessoas sem documentos, as chamadas zonas Quentes, e cada vez que se percebe a presença policial nessas áreas, as pessoas migrantes evitam ser vistos, para que não sejam descobertos. As cenas criadas por Felipe, corpos em vazios, levam-nos a pensar na mudança de hábitos no trânsito habitual dos migrantes.

Felipe também nos mostra a documentação de dois manuais policiais espanhóis que tem em sua posse, um deles faz parte do Manual de Defesa Policial do Corpo Nacional de Polícia, nos quais são estabelecidos protocolos para reduzir o corpo, exercendo-se força por meio de técnicas de combate, na tentativa de salientar a opressão do poder estabelecido. Para além dos textos, também as imagens extraídas destes manuais têm grande potencial, dando a entender como a violência é normalizada pelos que a exercem.

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Federico Estol / Shine Heroes

Braga: Gnration / Praça Conde de Agrolongo 123

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Existem 3000 engraxadores de sapatos que saem para as ruas dos subúrbios de La Paz e El Alto todos os dias em busca de clientes. São de todas as idades e nos últimos anos tornaram-se um fenómeno social da capital boliviana. O que carateriza este grupo é o uso de máscaras de ski para que não sejam reconhecidos por quem os rodeia. Eles confrontam a discriminação da qual sofrem através do uso destas máscaras; nos seus bairros ninguém sabe que trabalham como engraxadores, na escola ocultam esse facto, e até as suas próprias famílias acreditam que eles têm outro tipo de trabalho quando se dirigem de El Alto até ao centro da cidade.  A máscara é a sua identidade mais forte, o que os torna invisíveis e, ao mesmo tempo, os une. Este anonimato coletivo torna-os mais duros na hora de enfrentar o resto da sociedade, e é esta a sua resistência contra a exclusão que sofrem por realizarem este trabalho.

Colaboro há três anos com sessenta engraxadores de sapatos associados ao jornal de engraxadores chamado “Hormigón Armado”.  Planeámos juntos as cenas durante uma série de oficinas de romances gráficos, cujo cenário é a nova arquitetura andina de El Alto. Neste processo os heróis do brilho tornaram-se produtores e protagonistas de um álbum, cujas fotos foram feitas em estilo descontraído de rua, de forma a lutar contra um preconceito social. Hoje, este grupo vive principalmente da venda de álbuns de fotos e cartões postais do projeto, mais do que de engraxar sapatos. É lançada assim uma luz sobre as possibilidades da arte de transformar a discriminação num sinal de luta e sobrevivência que poderia ajudar a promover a integração social. 

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Gonçalo Delgado / ReGenesis

Braga: Casa dos Crivos / R. de São Marcos 37

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A luta é desigual. Entre a 1ª linha e os primeiros infetados, a tensão vibra no olhar vazio de quem roga à praga. Respiramos, colmatando a incerteza do amanhã, entre máscaras – que não são mais que um placebo dos tempos modernos. Flamejamos onde o último vislumbre não nos foi permitido, entre medidas de proteção incoerentes e moratórias desajustadas. A saudade mata num confinamento que destrói os cânones mais básicos da sociedade e interligação pessoal. Damos por nós a sentir falta do abraço que não chegou, do sorriso que não vemos, tapado pela incerteza que amanhã será melhor. Renasceremos assim pela dedicação e amor daqueles que deram tudo por cintilar um amanhã, pela vida, por nós.

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Hugo Delgado / Descontinuidade

Braga: Casa dos Crivos / R. de São Marcos 37

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E no início veio o medo. E com o medo o vazio. E com o vazio o refúgio na Fé, a esperança do fim. E os rostos ganharam novos formatos, desfigurados por máscaras que tapam os sorrisos mas também escondem a dor. A dor do desconhecido, das ruas cheias de nada, do silêncio da cidade, da inércia do movimento da vida, da organização do medo, dos legos ordenados num caos sem movimento. E depois veio o início. A necessidade de avançar espelhada nos olhares que as viseiras não tapam. Na fome de vida de uma criança de sorriso tapado mas olhos abertos para o futuro. E nas sombras do vazio vimos a nossa finitude e delas recomeçamos.

E assim, depois do fim, chega uma nova Genesis.

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João Ferreira / O Paraíso Segundo José Maria

Braga: Edifício do Castelo / R. do Castelo

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O arquipélago era assolado por inúmeros terramotos e erupções vulcânicas.Uma ilha onde se está só entre pedras negras e um verde denso. Um caminho feito lentamente, ao som de orações, num mantra envolvente e pacificador.
Desde o século XVI vários grupos de homens percorrem, em romaria, a ilha de S. Miguel, num movimento circular no sentido dos ponteiros do relógio, mantendo o mar sempre do seu lado esquerdo. Um culto religioso com séculos de tradição. Restrito a homens dos oito aos oitenta. A presença do feminino torna-se visível na indumentária dos romeiros. O xaile, o lenço nas costas, o bordão e a cevadeira – adereços que encontramos em comum nesses homens. Rostos de traços vincados por um arquipélago à deriva num oceano.
Os terços. As orações. A fé. A busca da paz interior. O acalmar dos terramotos. O apaziguar das tormentas. Oito dias de comunhão com a força da natureza, sacrificando o corpo pela fé, purificando a mente pela introspecção.

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Sobre esta exposição no Fascínio da Fotografia aqui.

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João Henriques / Curso em Milagres

Barcelos: Salão Gótico

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Como é que se representa visualmente algo que se ergueu sobre um “milagre” e sobre uma história complexa, que pode conter tanto de fé como de crença, de elementos falsos, ilusórios, manipulados, dados à superstição e ao misticismo, embebidos pela interacção entre teologia, política, religião, cultura, e sociedade? Sendo a amnésia intencional um dos problemas dos artefactos culturais, torna-se difícil abordar Fátima sem relembrar, mesmo que superficialmente, o contexto em que emergiu: das aparições aos 3 pastorinhos em 1917; da creditação do fenómeno pela Igreja, somente 12 anos mais tarde; da chegada do regime fascista em 1926; da chegada ao cume da hierarquia católica portuguesa do Cardeal Cerejeira, em 1929; da estreita relação que Salazar manteve com Cerejeira, em que dessa interacção se legitimou Salazar politicamente e de forma absolutista, escrevendo Cerejeira em 1946, “foste o escolhido da Providência para realizares tão grandes coisas quase miraculosamente […], o milagre de Fátima está à vista. Tu estás ligado a ele: estavas no pensamento de Deus quando a Virgem Santíssima preparava a nossa salvação. E ainda tu não sabes tudo… Há vítimas escolhidas por Deus para orarem por ti” 

Fátima como lugar simbólico, nos símbolos existindo sempre a voz de quem domina, Fátima mítica, que se revela na nostalgia de um impossível Portugal grandioso e condutor à paz no mundo; através da Virgem como fundadora da nação, que “aparece” a D. Afonso Henriques e que é coroada Rainha de Portugal por D. João IV; do Salazar salvador da Pátria, ao serviço de uma vontade que o transcende; de um lugar onde se dá a transmutação do ordinário em divino, da azinheira ao Santuário. 

Fátima revelação, aparição, milagre, palavras fortes do passado que parecem agora transfigurar-se em fake news, conspiração, desinformação, neofascismo. De que modo se coloca Fátima na génese do Portugal contemporâneo? Fotografar Fátima é imaginar o invisível. 

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Malala Andrialavidrazana / Figures

Braga: Forum Arte Braga / Av. Dr. Francisco Pires Gonçalves

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Com base numa extensa prática de recolha, que oferece a oportunidade de olhar para a história de forma a ultrapassá-la, a série “Figures” parece uma exumação de legados pictóricos. Abrangendo uma ampla gama de símbolos e processos de representação, expandindo-se desde valores numéricos a movimentos no tempo e no espaço, e incluindo personalidades influentes e icónicas em paralelo com rostos de homens e mulheres comuns, cujos papéis, condições e destinos foram subestimados no contexto global. O corpo de trabalho tenta principalmente criar um terreno comum para diálogos e para aumentar a consciencialização a diferentes níveis.

Normalmente exibidas em fotomontagens de larga escala, as obras são feitas de materiais de arquivo do final do século XVIII até aos dias de hoje, veiculadas de mão em mão, de uma geração ou de um continente para outro. Fascinantes tanto pelo peso histórico quanto pelos absurdos, elas informam sobre o desvio político, manipulação intelectual, sistemas de privilégios e domínio entre géneros, cores, classes ou nações e suposições profundamente arraigadas que levaram a normas culturais, estereótipos e preconceitos tendenciosos, e avanços económicos, industriais ou tecnológicos que causaram mais tragédias do que justiça. 

Cada composição começa com um mapa desatualizado de uma época passada, quando as representações do mundo costumavam refletir conhecimento inadequado ou impreciso para formar a base de novos imaginários e narrativas reinventadas. Os territórios e as fronteiras são preservadas com um propósito: a demonstração de mudanças territoriais revela as falsidades como elementos da propaganda de conquista. 

“Figures” combina e mistura produções visuais da globalização, extraídas de notas, selos, capas de álbuns e gravuras, com questões contemporâneas prevalecentes, e com muito respeito pela diversidade de identidades e dos ambientes naturais. Ao redirecionar os seus propósitos iniciais por meio de uma sucessão de processos de desconstrução e reconstrução, individualmente e em unidade, os trabalhos resultantes expressam tensões em multicamadas, preenchidas com um senso de dinâmica entre transferências de conhecimento e mudanças de poder. Refletindo radicalmente diferentes opiniões sobre as condições de vida, elas incentivam a várias leituras sobre como olhar o mundo repetidamente, com uma esperança altamente diferenciada.

Sinais comuns, símbolos específicos ou ícones emblemáticos de vários mitos, regiões e religiões, tradições, sonhos modernos, realidades híbridas, pássaros migrantes, espécies ameaçadas de extinção e muito mais, são cuidadosamente combinados para além dos territórios. Inspirado pelo instinto nómada da humanidade de enfrentar o desconhecido corajosamente – e isso é particularmente visível antes dos estados-nação terem sido divididos por fronteiras geográficas -, o tratamento e a construção de superfícies marítimas estão relacionados com a situação das zonas francas. Essa abordagem permite o foco em ligações transculturais, paralelos e contradições, perspetivas não convencionais e até circulações aleatórias no espaço e no tempo. No entanto, a sensibilidade permanece crucial em tais assembleias de referências culturais, e o acidente não pode ser uma opção.

Malala Andrialavidrazana

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Nina Franco / Sobre(viver)

Braga: Museu Nogueira da Silva / Av. Central, 61

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Sobre(viver) é uma exposição que aborda a violência contra a mulher e o feminicídio através de diversos meios como a fotografia, a instalação, o vídeo, a pintura e a performance. 

A artista e ativista brasileira Nina Franco deu forma a esta mostra partindo da premissa de que a violência, seja ela física ou psicológica, é algo que une todas as mulheres numa única narrativa, tão abrangente quanto o somar de histórias de agressões que conhecemos diariamente. 

A desconstrução da funcionalidade de objetos tão banais como os cabides, utilizados nos procedimentos de aborto clandestino, assume destaque na performance que será apresentada durante a inauguração da exposição pela própria artista. 

Nina Franco, nascida e criada no Rio de Janeiro mas atualmente a viver e a trabalhar no Reino Unido, recorre a diversos suportes para explorar histórias na tentativa de encontrar o caminho para a cura do indivíduo e de uma sociedade onde prevalece a violência. O objetivo é que quem visite a exposição não olhe apenas, mas que sinta, reflita, questione e dialogue. 

“A cada minuto, 30 mulheres são vítimas de algum tipo de violência no Brasil, 55,9% das mulheres que sofreram violência no último ano são negras. Seis mulheres [2017] morrem a cada hora no mundo vítimas de feminicídio. A perceção de que minha vida está em risco por ser mulher e negra é o que me faz usar a arte como ferramenta social de transformação para dialogar e criar espaços de troca e observação”, afirma Nina Franco. 

A artista, que ao longo dos últimos sete anos levou o seu trabalho a países como Irlanda, Inglaterra ou Grécia, conduz-nos a olhar para os conflitos sócio-políticos contemporâneos e através da denúncia e da crítica quebrar a ligação ainda promovida entre a violência e o amor. “A maior violência que sofremos não é aquela do dia-a-dia mas sim aquela que está enraizada na cultura”, considera a artista. 

Aline Oliveira

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Omar Imam / Live, Love, Refugee

Braga: Theatro Circo / Av. da Liberdade 697

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Em Live, Love, Refugee, Omar Imam dissolve a recorrente representação dos refugiados sírios, substituindo números, relatórios e estatísticas por alucinações, medos e sonhos. Nos campos de refugiados do Líbano, Omar colabora com indivíduos através de um processo de catarse, que ele acredita ser profundamente curador. Ele pede para eles recriarem os seus sonhos: sonhos de fuga, sonhos de castração e sonhos de amor e terror.  Dispersas e surrealistas, as imagens resultantes evocam os mundos interiores mais profundos e sombrios daqueles que resistem diariamente, e cujas raízes se estendem continuamente até ao lar deixado para trás. Por sua vez, estas fotografias cuidadosamente compostas desafiam projeções de vitimização, permitindo a entrada no interior expressivo do qual a nossa humanidade deriva.

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Paul di Felice / Dichotomies Écraniques

Braga: Museu dos Biscainhos / R. dos Biscaínhos s/n

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E se o fluxo de imagens que nos sobrecarrega, antes de desaparecer, pudesse ser usado para ser novamente canalizado, novamente enunciado, redistribuído e tudo isso com uma abordagem política e poética?

Desde os anos 90 que me interesso por imagens dos média, principalmente dos ecrãs de TV, que uso como material de reflexão e de criação. Assim, crio dicotomias refotografando detalhes de imagens de notícias que combino com fotografias do meu dia-a-dia de certa forma na mesma temporalidade, mas em diferentes momentos do dia e em diferentes lugares do mundo. Esta abordagem artística e processo genético referem-se a uma reapresentação que se torna o local de um experimento fotográfico onde a atualidade se encontra com a poesia e a realidade confronta a ficção.

Paul di Felici

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Pode ver no Fascínio da Fotografia sobre as exposições patentes em Guimarães e no Porto, aqui; sobre os Fotógrafos Emergentes, aqui.

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Pode saber mais sobre os Encontros da Imagem aqui.

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