PARALLEL REVIEW LISBOA 2019 – 3
A exposição decorreu na Rua do Centro Cultural, n.º 11, Alvalade, Lisboa, de 21 de novembro a 14 de dezembro de 2019.
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PARALLEL Review Lisboa apresenta 7 exposições da autoria de 7 novos curadores e 16 artistas emergentes, em Lisboa, na Rua do Centro Cultural, n.º 11, de 21 de novembro a 14 de dezembro de 2019.
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Estas exposições foram produzidas no âmbito do segundo ciclo da PARALLEL- European Photo Platform, a qual é liderada pela portuguesa associação cultural Procur.arte. O director artístico desta 2ª edição é Nuno Ricou Salgado.
Estas exposições foram já apresentadas em vários países europeus, nos quais foram produzidas, sendo agora apresentadas em conjunto, em Portugal, em versão reduzida.
Alguns autores foram selecionados por mais de um curador, apresentando o mesmo projeto em diferentes exposições, com montagens nalguns casos semelhantes, noutras distintas. É também interessante perceber as diferentes abordagens dos diferentes curadores aos mesmos projetos, bem como a forma de apresentação: se na exposição cada autor tem o seu espaço relativamente definido (dependendo também da configuração da sala), em termos de apresentação (nomeadamente folha de sala) as abordagens são diferentes.
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Cada exposição teve o seu catálogo, elaborado para a apresentação original, que pode ser visto ou adquirido na exposição. Existe também o Atlas desta 2.ª edição, que apresenta todos os autores.
Nesta publicação e nas anteriores faço uma visita a esta exposição.
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ANDRÉ VIKING, ROCCO VENEZIA, NILS STELTE / STAGED SALVATIONS
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Catálogo Staged Salvations
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O curador Lovro Japundzic apresenta a exposição STAGED SALVATIONS, com fotografia de André Viking, Rocco Venezia, Nils Stelte.
Para Lovro Japundzic:
Staged Salvations explora a ideia dos rituais como forma de superar o fardo da realidade. A nossa fragilidade transforma-se numa força produtiva que permite romper com padrões anteriores. Transformar as formas habituais de percepção torna-se possível graças a novas tácticas de disrupção da mente. Os sistemas de crenças podem ser substituídos por novos significados, aprendidos em experiências de alteridade que proporcionam segurança e optimismo. Um colectivo que partilhe esta experiência pode tornar-se uma comunidade que fortalece o sentimento de pertença de cada indíviduo. Nesta acepção, os rituais podem ser espirituais ou profanos, emergindo da interacção entre mundo interior e exterior. Os elementos da cultura material transformam-se em símbolos e instrumentos criativos utilizados em acções performativas que dão origem a diferentes formas de auto-reflexão, catarse e realização. Na busca do conhecimento e superação, é o corpo que permite entrar num novo nível de consciência.
André Viking, Rocco Venezia e Nils Stelte capturam essa materialização dos colectivos e individuais sob a forma de símbolos, gestos, expressões e ritmos. Os seus trabalhos revelam a universalidade destes padrões materializados, comunicados através de acções performativas. Em vez de mostrarem narrativas definidas e lineares, os artistas preferem fragmentos incompletos, exprimindo a transitoriedade de rituais onde a realidade se questiona a si própria. Os objectos e personagens mostrados tanto podem fazer parte de uma experiência encenada ou de actividades espontâneas e improvisadas, que podem parecer fantásticas e oníricas, mas permanecem profundamente enraizadas na nossa realidade com um. A performatividade é enfatizada pela fotografia para nos revelar a dimensão não-física do corpo. O trabalho destes três artistas antecipa uma mudança e tem origem no lugar vulnerável da experiência pessoal.”
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André Viking, Kekulé’s Dream
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Em Kekulé’s Dream, André Viking explora as práticas holísticas dos sangomas, xamãs africanos. O trabalho é o resultado das suas viagens ao Estado Livre, uma província no centro da África do Sul, e da sua visita à Cave da Fertilidade onde os sangomas vivem há séculos. As suas práticas curandeiras tentam unir corpo e mente, cuidando ao mesmo tempo da saúde e mental. Integrando-se pouco a pouco na comunidade, Viking experimentou as práticas ritualísticas que utilizam o sonho como Via de comunicação. Através dos sonhos, os curandeiros comunicam com os antepassados que os guiam para um estado de transe e libertam o seu ser espiritual. Os sonhos, por seu lado, são uma nova referência para o dia-a-dia, liberta dos significados e Interpretações culturalmente impostos.”
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Nils Stelte, Renaissance
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Em Renaissance, de Nils Stelte, encontramos uma ligação semelhante entre corpo e mente. O seu trabalho explora as tácticas que os citadinos empregam para enfrentar crises pessoais, procurando o crescimento pessoal através de medicinas que unificam corpo e mente, rejeitando o conhecimento prescrito e enfatizando praticas alternativas que questionam a separação entre a dimensão espiritual e física na sociedade ocidental O riso, o Ioga, o tiro ao arco zen e o hapkido são algumas das estratégias que Stelte capturou. O efeito dramático é conseguido através da dualidade entre o simbolismo cientifico e alternativo, ambos presentes nas imagens.”
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Rocco Venezia, Is life Under The Sun Not Just A Dream
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A qualidade receptiva dos símbolos, objectos e gestos é também visível nas imagens oníricas do Mediterrâneo do trabalho de Rocco Venezia. Na série Is life Under The Sun Not Just A Dream, a materialidade revela a sua dimensão espiritual, liberta pelo quente sol da tarde. No contexto da realidade do sul da Europa, marcado por uma crise económica e cultural, a disrupção surge como uma fonte de potencial criativo. Composições aleatórias erguem-se como esculturas ou objectos ambíguos à espera de significado. A partir da tradição da pintura metafísica, Venezia consegue construir um cenário misterioso no qual o tempo parou e o silêncio se torna quase tangível.
As pressões económicas e da vida prática exigem que o «eu» seja uma entidade estável. O mundo em que vivemos está construído sobre fundações racionais que se tornam verdades individuais, no entanto, cada indivíduo é apenas a materialização da cultura que o rodeia. As influências exteriores e a nova informação tornam-nos produtos em constante mudança, num mundo onde a autonomia individual não passa de ficção. No actual clima social e político, marcado por tensões e transformações, é fácil sucumbir ao mundo racional. A perda de sentido faz-nos procurar alternativas, já que não há um «eu» estável ao qual regressar.”
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DÁNIEL SZALAI, FEDERICO CIAMEI, RÓISIN WHITE / THE LIGHT FROM OUR SIDE SHINES DIFFERENTLY
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Revista Yet, n.º 11, publica a exposição The Light From Our Side Shines Differently
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A curadora Leanna Teoh mostra o trabalho de Dániel Szalai, Federico Ciamei e Róisin White em THE LIGHT FROM OUR SIDE SHINES DIFFERENTLY.
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Dániel Szalai [apresenta o seu trabalho numa caixa]
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Federico Ciamei
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Róisin White
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Sobre esta exposição escreve Leanna Teoh:
Fazendo parte de um projecto abrangente de curadoria da YET Magazine, The Light From Our Side Shines Differently traz-nos um aspecto incomum da curadoria, o curador do dia-a-dia. A «luz» do título da exposição exprime-se para além a sua materialidade, revelando um domínio intangível de existência. Esta «luz» transporta o peso da sociedade, cultura e história que, por sua vez, influência o nosso trabalho curatorial. Na essência, todos podem ser considerados curadores de coisas e o modo como utilizamos o nosso discernimento, consumo e interacção com o mundo, depende grandemente desta «luz» com a qual olhamos.
A curadora Leanna Teoh seleccionou trabalhos que revelam verdades multifacetadas das experiências vividas por cada um dos três novos artistas seleccionados, Dániel Szalai, Federico Ciamei e Róisin White. Os trabalhos mostram temas sociais, culturais e políticos que pedem o envolvimento do público – chamado a passar do conteúdo da peça para as circunstâncias sociais que instigaram os artistas a produzir cada uma.”
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Leanna Teoh, nascida em 1990 em Singapura, estudou Fotografia e Imagem Digital na Nanyang Technologicag University e tem um mestrado em Empreendedorismo Criativo e Cultural da Goldsmiths University, Londres. Ainda na universidade, foi cofundadora do THEBOOKSHOW, que promove e exibe livros de artista autopublicados e funciona como intermediário entre o mundo da arte e o público, defendendo que os livros são uma forma de arte em si próprios. Em 2018, organizou o New Margins na DECK, Singapura e em 2017 o First Draft no Objectifs – Centre for Film and Photography, Singapura, reunindo artistas que se dedicam a explorar o potencial dos livros com objectos de arte.
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RÓISIN WHITE, AGATA WIECZONEK, SINEAD KENNEDY, CIHAD CANER / OUT OF SIGHT: PICTURING THE UNSEEN
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Catálogo Out of Sight
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PICTURING THE UNSEEN é a exposição em que Lexington Davis mostra trabalhos de Róisin White, Agata Wieczonek, Sinead Kennedy e Cihad Caner
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Lexington Davis escreve:
Out of Sight: Picturing the Unseen convida-nos a apreciar o trabalho interdisciplinar de quatro artistas emergentes que questionam e exploram a relação tensa entre visibilidade e construção da alteridade. A exposição traz-nos o invisível da sociedade ocidental e mostra-nos como a diferença é frequentemente negociada através de formas de representação visual. Aborda o invisível como um processo – como um «ir deixando de ver» – no qual certo grupos e pessoas são sistematicamente apagados, ignorados, removidos e reimaginados de acordo com as necessidades da cultura dominante.
Nas suas fotografias e vídeos, Cihad Caner, Róisin White, Sinead Kennedy e Agata Wieczarek examinam como a visibilidade é constantemente negociada através do discurso, do folclore, da política, da produção e consumo de bens. Vasculham histórias locais, recorrem a textos teóricos e interagem com diversas comunidades para estudar como a marginalização se desenvolve e persiste. Identificam pessoas destinadas, ou imaginadas, a existir de forma invisível e revelam como os seus corpos emergem como lugares de visibilidade impossíveis de negar ou suprimir. Nos seus trabalhos, vemos como a invisibilidade é não apenas um acto redutor – de apagamento –, mas é também produtor de sentido, criando mitos, narrativas, comunidades, temporalidades alternativas e estruturas físicas de suporte, confinamento e sobrevivência.
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Cihad Caner (1990, TR/NL), Demonst(e)rating the Untamable Monster, 2018-19
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A instalação de Caner, Demonst(e)rating the Untamable Monster, surgiu a partir da sua constatação de que os media frequentemente chamam «monstros» àqueles que consideram «outros». Como resposta, construiu monstros cujo discurso poético-filosófico acerca da alienação contrasta com as suas feições grotescas, por vezes com efeito humorístico. Para criar estas criaturas, Caner recorreu à tecnologia mocap (captura de movimento), com corpos humanos (incluindo o seu) sempre presentes sob as várias imagens geradas por computador. O trabalho explora ainda o potencial discriminatório da língua, que o artista desafia com as suas placas de argila inscritas com hieróglifos criados por si. Estas placas formam uma linguagem ficcional, aberta a novas possibilidades de sentido, livre de constrangimentos e hierarquias culturais. Através deste corpo de trabalho, Caner demonstra como os estereótipos reproduzidos pelos media populares aprofundam o fosso entre a sociedade dominante e aqueles que identifica como estando à imagem.”
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Róisin White, Cross the Child’s Palm with Silver, 2019
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A série Cross the Child’s Palm with Silver baseia-se na investigação de White sobre as histórias de changelings – criaturas sinistras que seriam deixadas no lugar de crianças roubadas pelas fadas. Na realidade, eram geralmente as crianças com deficiências que sofriam a acusação de serem changelings, sendo submetidas a «curas» para devolver a «verdadeira criança», que por vezes envolviam maus tratos e até a morte. O mito do changeling tornou-se uma forma de banir pessoas com deficiências e doenças mentais, retirando-lhe humanidade e transformando-as em membros de uma raça invisível de sinistras criaturas. Combinando fotografias originais com imagens de arquivo, a artista dilui a fronteira entre facto e ficção e revela como o efeito cultural da lenda do changeling se manifesta através de narrativas e práticas supersticiosas que persistem até aos dias de hoje.”
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Sinead Kennedy, treading water, 2018-19
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O vídeo e o trabalho fotográfico da série treading water de Kennedy, nasceu da sua amizade com candidatos a refugiados em Melbourne, a sua cidade natal. A artista começou a reparar que o centro de detenção onde decorriam os encontros parecia propositadamente inacessível e escondido. Esta constatação inspirou-a a explorar o modo como as restrições e circunstâncias impostas aos refugiados os tornam socialmente invisíveis. Enquanto as imagens dos refugiados nos media nos mostram frequentemente momentos dramáticos de crise – a chegada dos barcos às praias, as devastadoras separações familiares – o trabalho de Kennedy concentra-se no insuportável tédio, na incerteza e nos intermináveis tempos de espera que acontecem longe da vista de todos. A artista mostra como a vida em detenção dá origem a temporalidades alternativas e pessoalíssimas, definidas através de actividades quotidianas como fazer chá ou alinhar tijolos. Aparentemente banais, estas actividades tornam-se fulcrais para a expressão da humanidade dos refugiados face às politicas opressivas dos governos.”
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Agata Wieczorek, Fetish of the Image, 2018-19 & Beauty Makers, 2018
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As duas séries interligadas de Wieczorek, Fetish of the Image e Beauty Makers, exploram o comércio global, mas oculto* de máscaras femininas de silicone. Imagens performativas e cuidadosamente encenadas de pessoas mascaradas (identificando-se maioritariamente com o género masculino) contrastam com fotos neutras e documentais de trabalhadoras de uma fábrica em Xuzhou onde fabricam estes dispendiosos artigos-fetiche. Apesar de muitos utilizadores gostarem de tirar e partilhar fotografias com os fatos, o seu modo de vida é ainda considerado tabu e as suas actividades confinam-se a espaços privados e seguros. No entanto, as trabalhadoras da fábrica continuam invisíveis, lembrando-nos de que a maior parte dos bens de consumo do ocidente é produzido fora da nossa vista, no «terceiro-mundo». Embora a globalização e circulação tenham permitido a criação de um mercado queer, os bens transaccionados continuam a ser os principais elementos de ligação entre pessoas das mais diferentes origens e classes sociais.”
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Fotografias da exposição de António Bracons.
Poe ver as restantes exposições do Parallel Review Lisboa 2019, aqui e aqui.
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