ANITA MARANTE, FRANCISCA SOARES, JULIANA CAMPOS, RITA DE ALMEIDA LEITE, SEBASTIÃO COSTA, A IMAGEM CONTEXTUALIZADA 2019
Exposição em Lisboa, no Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na Rua da Palma, 246, de 9 de outubro a 15 de novembro de 2019
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Um conjunto de 5 projetos de jovens autores mostra-se na sala de leitura do Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico, na exposição “a imagem contextualizada 2019”.
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Cada autor dispõe de uma mesa para apresentar o seu trabalho, complementado com um fotolivro (maquete ou edição limitada) onde se apresenta o projeto mais profundamente.
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Há sempre um fogo que lhes queima a face num fim de tarde de Inverno, uma poesia que lhes corre nas veias, um sobressalto quieto, uma saudável obsessão. Não lhes pedi que lhe dessem um nome por me parecer injusto que alguém, com uma repulsa visceral a categorizações, o faça. Porém, se o tivesse feito, creio que tenderiam a apelidá-la de fotografia. Permitam-me a auto-correcção: Fotografia (e desenganem-se os que julgam estar na presença de um erro gráfico). De qualquer das formas, afastemo-nos do desconforto dos rótulos, porque o lugar deles, a existir, é fora desta porta.
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Anita Marante, Around what is almost not happening
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AROUND WHAT IS ALMOST NOT HAPPENING, de Anita Marante, é o quase invisível. É um ser transformado em objecto. É um óbito intrusivo, um instante lúgubre perpetuado. E é a promessa quebrada de um para sempre. É o morto-vivo. É o vivo-morto. É o espectro. É a anamnese. É o baú das imagens, a transversalidade do tempo. É a escala das coisas. É a estridência de um silêncio branco. O cravar de uma história na carne. O descascar. O hermético. O elo. O ciclo. É um questionamento sem intervalos. É o médium. É o cordão umbilical da imagem à imagem. É a imagem.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
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Francisca Soares, Paisagem-Memória
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PAISAGEM-MEMÓRIA, de Francisca Soares, é um arquivo de olhares, de percepções e de sonhos. É uma luta acre contra uma mente terrivelmente pequena e desmemoriada, porque humana. É um relampejar taciturno num céu limpo de Agosto, uma vaga salgada que rasga o horizonte, um chão terroso que rejeita os pés. É uma paisagem desconstruída. É um lugar a salvo.
É o devaneio de uma sombra sem corpo e de um corpo sem sombra. É o travo metálico de uma agulha que perfura a pele. É o flutuar singelo das pétalas. Quando se cruza com o mundo, é um lugar real em ininterrupta metamorfose. É um labirinto dinâmico, doentiamente revisitado numa ânsia de reconstrução, de redescoberta e de colisão com novos caminhos.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
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Juliana Campos, Sem título
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SEM TÍTULO, de Juliana Campos, é a abstracção do padrão, da transparência e da textura. É o suor frio na palma das mãos. É o fragor quente do balançar rítmico das pernas contra o chão. É a espera. A espera. O ponteiro dos segundos na corda bamba. E o turbilhão do ápice. Do que acontece e já foi. É o contrariar da tendência dos corpos. É o desequilíbrio de um descontrolo controlado. É um jogo espiralado contra os limites. É a impressão indelével. A mancha disforme. O rasto fugidio. Um rasgo luminoso de efemeridade.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
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Rita de Almeida Leite, Luz Oblíqua, 2018-2019
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LUZ OBLÍQUA, 2018-2019, de Rita de Almeida Leite, é uma tela invadida por um clarão. É a ausência enquanto corpo da presença. É o silêncio do detalhe e o grito delicado do vestígio. É a imensidão do ínfimo. E é sempre um pincel. É o mergulho na embriaguez sóbria de um borrão que é invariavelmente um corpo presente. É um perfume a flores secas, a maresia e a diluente. É a memória de uma onda, de uma superfície corroída pelo sal, de um cadáver cilíndrico, outrora contra a madeira. É um verso sobre a luz escrito pela escuridão. É uma corrida contra o tempo de mãos enlaçadas numa sinestesia profunda.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
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Sebastião Costa / 2BTITLED
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“2BTITLED”, de Sebastião Costa é um baloiçar desassossegado na ponta dos pés. É um bailado incessante irrevogavelmente dançado com a câmara junto ao peito, numa procura desenfreada pelo entendimento do mundo. É uma viagem arrebatadora entre a cidade frenética e o fulgor da lucidez oferecido pelo campo. É um rosto enigmático cerrado sobre si próprio a digladiar-se com as questões de género. É o corpo em contraste com a paisagem urbana, a relação entre o homem e o lixo. É uma demanda perseverante acerca dos limites do belo e das barreiras erguidas entre o artístico e o comercial. De quando em vez, é uma flor, uns fios de cabelo afastados pelo vento, uma pequena narrativa esvoaçante que aguarda demoradamente que a agarrem. Por isso mesmo, não poderia ser senão um livro eternamente inacabado, um espelho desse que é o processo criativo.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2019
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Anita Marante (Porto, 1996)
Licenciada em Arte Multimédia pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, vertente de Audiovisuais. Frequenta o Mestrado Contemporary Art Practice no Royal College of Art, em Londres. O seu trabalho foca-se na memória do espaço e no questionamento dos meios que mais explora, a fotografia e o vídeo.
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Francisca Soares (Porto , 1996)
Licenciada em Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A sua prática artística tem geralmente o seu princípio nas fotografias que tira e que posteriormente desconstrói e descontextualiza (do espaço e do tempo). A escrita é uma importante característica do seu processo de trabalho. Vive e trabalha no Porto.
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Juliana Campos (São Paulo, 1995)
Licenciada em Artes Plásticas, vertente de Multimédia, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Vive e trabalha em Lisboa.
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Rita Leite (Porto, 1996)
Licenciada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, vertente de Pintura, encontra-se atualmente a frequentar o Mestrado em Artes Plásticas na mesma instituição. O seu trabalho surge a partir do concreto e de estímulos do quotidiano — da observação da luz, da natureza, e da recolha de marcas ou vestígios que esses elementos revelam.
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Sebastião Costa (Porto, 1995)
É licenciado em Artes Plásticas – Multimédia pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O seu trabalho explora o cruzamento de arte, design e dança, através de um processo que compreende os diferentes estágios do dia-a-dia como um todo essencial para a sua prática artística. A relação do corpo com o espaço é um dos seus maiores objectos de estudo, principalmente através da fotografia.
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Texto de Mariana Pessoa (Viseu, 1993)
Licenciada em Arte Multimédia, vertente de Fotografia, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, encontra-se atualmente a frequentar o Mestrado em História de Arte e Património, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua dissertação reflete acerca das problemáticas da curadoria fotográfica contemporânea.
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Atualizado em 04.11.2019 com aspetos da exposição.
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