COIMBRA, 17 DE ABRIL DE 1969. A CRISE ACADÉMICA, 1999
50 anos da Crise Académica de 1969.
Fotografias de Fernando Marques – “O Formidável“, da Secção Fotográfica da AAC e de António Portugal.
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Fernando Marques – “O Formidável”, Secção Fotográfica da AAC, António Portugal
Coimbra, 17 de Abril de 1969 – A Crise Académica
Fotografia: Fernando Marques – “O Formidável”, Secção Fotográfica da AAC, António Portugal / Texto: Manuel Machado / Seleção das fotografias e organização: Alexandre Ramires
Coimbra: Câmara Municipal de Coimbra – Casa Municipal da Cultura / 1999
Português / 25,5 x 25,5 cm / 46 págs., não numeradas / 28 (+2+guardas) fotografias
Cartonado, forrado a tecido preto, letras a dourado
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A Faculdade de Matemática surgiu na Universidade de Coimbra com a Reforma Pombalina, em 1772.
Pelo Decreto de 19 de abril de 1911, as Faculdades de Matemática e de Filosofia Natural são fundidas na Faculdade de Ciências. O curso de Matemática mantém-se, para além de esta disciplina ser dada aos restantes cursos da Faculdade: Engenharia Geográfica, Ciências Físico-Químicas e Ciências Histórico-Naturais e aos cursos de Preparatórios Militares e Preparatórios das Engenharias.
Com o plano de expansão da Universidade na Alta de Coimbra, dos anos 1940, projeta-se um edifício para o Departamento de Matemática. É da autoria do arquiteto Licínio Guia da Cruz e ergue-se no Largo D. Dinis, junto à estátua do fundador da Universidade, ao cimo da Escadaria Monumental.
A inauguração do edifício teve lugar em 17 de abril de 1969, dando origem, pelas atitudes tomadas, à Crise Académica de 1969.
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Mas vejamos o que entretanto se passava na Associação Académica de Coimbra (AAC):
Entre 1965 e 1968 a AAC foi liderada por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo, sendo os estudantes impedidos de participar no Senado e na Assembleia da Universidade. Em 1968, por iniciativa do Conselho de Republicas e de vários dirigentes de Organismos Autónomos, foi criada uma Comissão Pró-Eleições, com o objetivo de promover o Ato Eleitoral: um abaixo-assinado, subscrito por 2500 estudantes, pedindo eleições livres na AAC, foi entregue ao Reitor, Andrade Gouveia. As eleições realizaram-se no final de Fevereiro de 1969: das duas listas, é vencedora a do Conselho de Repúblicas, com cerca de 80% dos votos, perdendo a do Movimento de Renovação e Reforma.
A 17 de Abril de 1969, a inauguração do edifício das Matemáticas reveste pompa, com a presença de Américo Thomaz, presidente do Conselho e dos Ministros da Educação, José Hermano Saraiva, e das Obras Públicas, entre outras individualidades.
No interior do edifício, na atual “Sala 17 de Abril”, o presidente da Direção Geral da AAC, Alberto Martins, pede a palavra a Américo Thomaz: “Peço a vossa excelência, senhor presidente, para usar da palavra, na qualidade de representante dos estudantes da Universidade de Coimbra?” O pedido é aplaudido pelos alunos presentes, o presidente hesita antes de recusar e dar a palavra ao ministro das Obras Públicas. No final, as autoridades abandonam a sala e os “estudantes fazem então a sua própria inauguração, com discursos, e acendem o rastilho do que viria a ser a maior Crise Académica nacional”, recorda o próprio Alberto Martins no livro “AAC: os rostos do poder” [edição Coimbra: AAC, 2009, ISBN 9789892600123].
Nessa mesma noite, Alberto Martins é detido junto à entrada da AAC. Durante a tarde do dia 18, em Assembleia Magna, conclui-se da necessidade do aumento da participação ativa dos estudantes na vida universitária e a 22 de Abril, em protesto pela suspensão de Alberto Martins e mais sete colegas, em nova Assembleia Magna, com a presença de milhares de estudantes, decreta a greve às aulas e aos exames e o luto Académico.
A 30 de Abril, numa comunicação televisiva, o Ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva, acusa os estudantes de desrespeito, insultos ao Chefe de Estado e do crime de sedição, concluindo “que a ordem será restabelecida em Coimbra”. No dia seguinte, cerca de 4000 estudantes marcaram presença na Assembleia Magna que se realizou no Pátio dos Gerais, repudiando juntamente com o corpo docente, aquelas afirmações. O ministro, por despacho, encerra antecipadamente a Universidade de Coimbra, até ao início dos exames. O Conselho de Veteranos decretou o luto, com capa e batina fechada e proibição do uso de insígnias; todas as festas são suspensas, incluindo a Queima das Fitas, em solidariedade para com a Academia e com os dirigentes suspensos.
Mais tarde e após a Assembleia Magna do dia 28 Maio, nos jardins da AAC, com a participação de cerca de 6000 estudantes, iniciam-se novas formas de luta: a “Greve aos Exames”, que teve uma adesão de 85%, a “Operação Balão”, a 3 de junho e a “Operação Flor”, a 14 de junho, em que balões e flores são distribuídos à população da cidade.
No início da época de exames, 2 de Junho, Coimbra acorda com destacamentos da GNR, PSP e da polícia de choque, que ocupam a Universidade. Só as férias grandes vieram criar alguma tranquilidade neste ambiente.
Entretanto, a 22 de junho tem lugar a Final da Taça de Portugal com a Académica a defrontar o Benfica (0-1), Estádio Nacional repleto, mas sem a televisão nem os representantes do governo.
A festa da Queima das Fitas só foi retomada em 1980.
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[In: António Bracons e José Cura, Carimbos Comemorativos de Coimbra, Coimbra: Clube de Colecionadores de Carimbos Comemorativos da Secção Filatélica da AAC, 2013.]
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Como curiosidade, refiro que o auditório onde decorreu o evento, no piso de entrada, tomou o nome de “Sala 17 de Abril” e aí tive a minha primeira aula na Universidade de Coimbra.
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Este livro é o catálogo da exposição realizada por ocasião do 30.º aniversário (17 de abril de 1999), pela Câmara Municipal de Coimbra, com base em imagens da Imagoteca do Município, que mostram os eventos desse dia 17 de abril de 1969 – e alguns momentos anteriores. Integra ainda a identificação das imagens e uma cronologia dos acontecimentos (abaixo). As guardas apresentam a maquete da ‘nova’ Cidade Universitária (hoje o polo da Alta) e a escadaria interior, vista do exterior.
As fotografias são de: Fernando Marques, da Secção Fotográfica da AAC e a última, o grupo formado por Celso Cruzeiro, Osvaldo de Castro e José Manuel Roupiço, é de António Portugal.
Fernando Marques (Coimbra, 20.09.1911 – 17.12.1996), mais conhecido como “O Formidável”, sempre presente em todos os momentos significativos da cidade; muitas das suas fotografias foram publicadas no Diário de Coimbra e o seu espólio foi vendido pela família à Câmara Municipal, após a sua morte.
A Secção Fotográfica da Associação Académica de Coimbra (que depois veio a transformar-se no CEF – Centro de Estudos de Fotografia, que criou os Encontros de Fotografia de Coimbra, dando lugar ao CAV – Centro de Artes Visuais), havia sido fundada em 1965 (?) e assumiu um importante papel ao assumirem os seus membros, estudantes, o registo fotográfico quer dos eventos de 17 de abril, quer dos dias que se seguiram.
António Portugal (República Centro-Africana, 23 de Outubro de 1931 – Coimbra, 26 de Junho de 1994) foi para Coimbra com um ano de idade e fez os seus estudos, licenciando-se em Direito. Fez parte da Tuna e do Orfeon Académico, mas destacou-se no fado de Coimbra, de “1949 a 1994, criou uma obra ímpar, quer pela qualidade e inovação das suas composições e arranjos, quer pela forma como sabia ensaiar os cantores, e com eles criar uma dinâmica de acompanhamento que o distingue de todos os outros guitarristas do seu tempo. Mas não só: António Portugal deixou, de longe, a mais ampla e completa discografia do Fado e da Guitarra de Coimbra.” António Portugal também se interessou pela fotografia: colaborou (ou integrou?) o Grupo Câmara, de Coimbra, no período final do grupo (tem uma fotografia publicada no último número do Boletim do GC, nº 77-86, Mai. 1958 – Fev. 1959) e terá sido um dos fundadores da Secção Fotográfica da AAC, para além de ter sido fotógrafo amador. Fez parte da Assembleia Municipal de Coimbra e foi deputado na Assembleia da República. Em 10 de Junho de 1994, foi agraciado com a Ordem da Liberdade (pode saber mais aqui).
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Fernando Marques – “O Formidável”, Secção Fotográfica da AAC e António Portugal, Coimbra, 17 de Abril de 1969 – A Crise Académica, 1999
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Índice das Fotografias e Cronologia, que integra a obra.
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Neste ano, a AAC comemora de forma especial os 50 anos da Crise Académica:
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Atualizado em 2019.06.22.
Pode ver também sobre a Crise Académica aqui.
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