DAVID INFANTE, MIRROR WITHOUT A MEMORY
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David Infante, Mirror Without a Memory
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Gostaria de escrever e partilhar muito mais sobre fotografia do que o que faço. O tempo não é muito e as ofertas são bastantes… Muitos livros aguardam nas estantes que os retire e folheie, veja, leia e traga aqui. Algumas exposições consigo ver já nos últimos dias de apresentação e nem sempre há a disponibilidade imediata de publicar. Esta é uma delas. Pela originalidade e interesse, trago-a agora, certo que este espaço é um testemunho da fotografia portuguesa.
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David Infante escreve sobre o seu projeto:
A Mirror without a memory
Cada vez mais, as grandes metrópoles criam no seu interior, indivíduos solitários. São inúmeros os fatores que para isso contribuem.
Este projeto/ serie fotográfica, é fruto desse período que atravessei em Londres. Fui ultrapassando essas fases de solidão, revendo os álbuns digitais armazenados ao longo dos tempos. Do confronto com essas imagens, vêm-me à memória diversas histórias, algumas delas já tinham sido apagadas da minha memória. Assim, essas fotografias ajudaram-me a recordar o passado com mais ou menos verdade, no entanto, funcionaram sempre como conversas pessoais, entre mim e essas fotografias. De uma forma natural e espontânea, comecei a selecionar, a recortar e imprimir pequenos trechos e fragmentos dessas imagens, dessas histórias.
Daí a intervir diretamente nas imagens criadas, foi um passo. É o dissolver das imagens, como que se o tempo tivesse dissolvido essas histórias, tornando-as opacas, criou-se um mistério à volta dessas narrativas passadas, que se tornaram presentes.
Ao (re) fotografar essas imagens, acabei criando novos objetos, novos assuntos, novas narrativas, que conduziram a um novo discurso ao redor dessas fotografias. Estas novas narrativas, levaram-me para ideias como transformação e envelhecimento, para algo que está associado ao tempo.Ao analisar essas questões, tempo, transformações, envelhecimento, ocorreu-me Oscar Wilde (Dublin 1854, Paris 1900) com o seu “Retrato de Dorian Grey”. Basil Hallward, artista pintor, amigo de Dorian Grey, encantado com a beleza do jovem, resolveu pintá-lo em retrato de corpo inteiro.
Ao ver o retrato, Dorian, percebendo que com o passar do tempo a sua beleza irá desaparecer, manifesta o desejo, que lhe é concedido, de vender a sua alma para que assim, envelheça até desaparecer, o retrato em vez dele próprio. Dorian, prossegue com uma vida dissoluta e de libertinagem, chegando ao crime como o de matar o seu amigo Basil. Enquanto isso, vai-se mantendo jovem e sedutor e todas as marcas da passagem do tempo, são refletidas no quadro que vai envelhecendo.
Na obra de Wilde, com o passar do tempo, é o retrato e não Dorian que vai sofrendo mudanças. Dorian, mantém-se jovem e sem alterações exteriores, mas, interiormente vai-se consumindo permanentemente.
Nesta série fotográfica, dá-se o inverso, a transformação é exterior e reflete-se nas imagens dissolvidas, embora o encanto dissimulado em cada uma delas se mantenha inalterada com o passar do tempo. As fotografias funcionam, se entendermos, por camadas, que à medida que se vão auto destruindo levam o observador, pela contemplação, à suspensão num determinado tempo que ajudará a descodificar o encanto, revelado na forma oculta e poética das suas imagens, que continuam e prevalecem imutáveis.
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Sobre este projeto, Nuno Matos Duarte, fotógrafo, arquiteto e ensaísta, assina um interessante ensaio na folha de sala:
O gelo ígneo
(Reflexão em torno de Mirror without a memory de David Infante)
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A obra fotográfica de David Infante desde cedo concretizou na prática do retrato uma inquieta efabulação radicada no desejo de salvaguarda da individualidade em tempos mais propícios às igualdades tribais que dissolvem os seres nas massas. Nalgumas das suas composições mais marcantes a figura humana é impiedosamente envolvida num aparato violento, gerador de interferência, que por vezes é um obstrutivo e caótico véu interposto entre o retratado e o retratista (e, por conseguinte, também entre aquele e o espectador da obra). Este acto, objectivamente absurdo, lê-se também como incisão angustiada na imagem do outro (e de si próprio) que vem revelar a expressão frágil, mas preciosa, de uma esperança: no desejo de ver efectivos sinais, não da persona, mas do carácter único, desvelado, da vida interior das almas. Imagens paradoxais, uma vez que resultam dos actos de ocultar e distorcer para poderem mostrar, estas fotografias são, naquele sentido, retratos sem “retratística”.
Conscientes que estão, de antemão, da expressão da verdade como suplemento impossível da identidade (da impossibilidade do ar de Barthes), a sua, é uma busca pela falha deliberada do propósito que nelas se intui, em nome da clarificação de uma posição moral perante o mundo humano e de uma posição ética perante a arte (fotográfica). Recusando, pois, ostensivamente, o exercício da exegese sobre o conteúdo, obrigam, antes, à reconstituição imaginada do método, mostrando-o nessa decifração falhada: perante o desespero do gesto incisivo sobre a imagem, o ser permanece, como não podia deixar de ser, oculto, reafirmando no indecifrável o hermetismo individual. De todo o processo sobra, finalmente, o sinal de fé naquele que é o mais completo reduto da liberdade: cada mente humana, como entidade única.
Na série Mirror without a memory a distorção torna-se, no imediato, ainda mais violenta que em séries anteriores, e a reflexão sobre a ontologia do fotográfico também mais consciente e revoltada. Para o cenário destas imagens David Infante convocou, não fisicamente os retratados, mas antes imagens retrato, em desuso, do seu arquivo pessoal. Adição de matéria líquida, sua solidificação, extracção e liquefacção constituíram, em sequência, o campo complexo de possibilidades visuais que conduziram a estas obras. O corte do tempo no processo equivale, aqui, a um vislumbre de sentido no metamórfico a cuja riqueza não é alheia a inusitada literalidade do jogo linguístico. Senão, vejamos: entendendo o espelho fotográfico sob a luz do discurso primeiro e primário sobre a fotografia [DUBOIS], Mirror without a memory mostra uma experiência de construção da imagem que usa: o próprio gelo para voltar a congelar a imagem de um espaço-tempo; a tinta como matéria que inscreve a memória dos pensamentos numa superfície. Aceitando, assim, os bordões de que a fotografia congela um espaço e um tempo, e que a tinta escorre para inscrever, nestas fotografias o gelo é o espelho quebrado e, a par da tinta (e ao liquefazer), é também metáfora do esvaecer no tempo. O que no processo de construção desta série de imagens vemos, objectivamente, como acto aditivo, interpretamos ao invés como decomposição em curso, nelas tudo é, portanto, ênfase da crítica da falsidade: do acto performativo, da pose construída dos retratados (na sua falta de naturalidade), da dúvida quanto à sua efectiva presença perante o fotógrafo, em suma, da própria natureza do fotográfico enquanto espelho e vestígio do real.
A arte fotográfica de David Infante evita ser testemunho da visualidade de uma realidade de si extrínseca, uma vez que não é directamente nesta que busca as fontes do seu acto de mostrar — prefere antes, a um tempo, dotar de matéria para no subsequente a subtrair, disso fazendo obra-registo do que logo se perde— as suas imagens são o restolho possível de esculturas fugazes, são assumidamente construção de realidade e não a sua mera reprodução.
Deste ponto de vista, Mirror without a memory poderia ter sido pensada como ilustração do curto excerto do livro Extinção de Thomas Bernhard, que a seguir se transcreve, no qual este extraordinário escritor (sempre fiel à sua particular “estética do exagero”) descreve a fotografia e seus derivados como implacáveis inimigos do pensamento: “(…) a fotografia é uma falsificação traiçoeira e perversa, cada fotografia, seja quem for que a tenha fotografado, seja quem for que represente, é uma infracção absoluta da dignidade humana, uma monstruosa falsificação da natureza, uma vil desumanidade (…) Fotografar é um vício abjecto, que a pouco e pouco se vai apoderando de toda a humanidade, porque esta não está só apaixonada, mas também doida pela distorção e pela perversidade e, de tanto fotografar, toma efectivamente, com o tempo, o mundo distorcido e perverso pelo único que é verdadeiro (…)”
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Em Outubro de 2017, o British Journal of Photography, na edição especial, The Portrait Issue, publica o ensaio de Sophie Wright, “Time and the unreal in the work of David Infante”:
In this series, I dissolve images and fragments of time,” says French photographer David Infante. The monochrome ‘portraits’ that make up Mirror without a memory certainly feel as if they are unfixed, spanning time as they shift and melt under a fragmented surface. Triggered by a period of solitude in London, he resurrected images from his archive, reprocessing his memories by selecting photographs, cutting them up and combining snippets to give them new forms.
For Infante, slowing down time or wrestling many layers of it into one frame takes us into what he calls “parallel worlds”: a space to reflect and search for new meanings beyond the surface of the everyday. The photographer, who has just completed an MA at the Royal College of Art in London and is based in southern Portugal, ascribes his meditative approach to his early experience with analogue photography. “It brought me concentration and contemplation,” he explains.
His brooding projects act as counterpoints to the frenetic pace at which images are made, consumed and disposed of today. Disturbing our understanding of the photographic moment by stretching it across time, we are invited to look closer. “I don’t know if it’s a frustration with photography,” he explains. “It’s a medium that requires a lot of discipline and sometimes that pisses me off. So I like to break this discipline in the process of building my images.”
Shooting mainly in black-and-white – he believes that, as his work deals in imagination, it is better suited to convey “the unreal” – the results of his labours lean towards the surreal; unidentifiable blurred bodies and fragmented faces people the landscape in his images.”
Uncanny and poetic, Mirror without a memory continues Infante’s study of time and the transformative power of photographs. Loosely influenced by Oscar Wilde’s The Picture of Dorian Gray, Infante’s photographs register the markings and decay of time while the essence of the original photographic moment remains intact.
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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018
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A exposição de David Infante “Mirror Without a Memory” esteve exposta na Módulo – Centro Difusor de Arte, na Cç. dos Mestres, 34 A/B, em Lisboa, de 24 de outubro a 17 de novembro de 2018.
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David Infante (Angoulème, França, 1982). Vive e trabalha em Évora e Lisboa.
David Infante fez o Curso do Instituto Português de Fotografia, Lisboa (2005), é licenciado em Artes Visuais variante Multimédia pela Universidade de Évora (2012) e Pós Graduação em Fotografia, Projecto de Arte Contemporânea pelo IPA.
Recebeu os prémios “Descubrimentos” da Photoespaña (2012), o Prémio BES Revelação, do Banco Espirito Santo e Museu de Serralves, Portugal (2008), o Prémio Pedro Miguel Frade, Centro Português de Fotografia (2007) e o Prémio Jovens Criadores, seleção, Portugal (2006).
Em 2016 participou numa residência na La Ira de Dios Gallery, Buenos Aires, Argentina.
Exposições individuais: Mirror Without a Memory, Galeria Módulo, Lisboa (2018); 12390948, Galeria Módulo, Lisboa (2012), Partitura em dois tons, Galeria Kameraphoto, Lisboa (2010); À Flor da Pele, Centro Português de Fotografia, Porto (2007); Self-portrait, Igreja São Vicente, Évora (2006); Luz do Sul, 21 Gallery, Évora (2004)
Participou em múltiplas exposições coletivas em Portugal, Grã-Bretanha, Dubai e Argentina e tem o seu trabalho publicado em vários livros e revistas.
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Textos: cortesia da Módulo – Centro Difusor de Arte.
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Pode conhecer melhor a obra de David Infante aqui.
Pode consultar o British Journal of Photography aqui.
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