TITO MOURAZ, FLUVIAL

Tito Mouraz expõe “Fluvial” no Modulo – Centro Difusor de Arte, na
Calçada dos Mestres, 34 A/B, em Lisboa, de 8 de março a 14 de abril de 2018.
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Tito Mouraz, Fluvial, 2011-17

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Eu não quero que o real seja minha verdade absoluta, mas uma verdade disfarçada, quase como se estivesse a representar o que não pode existir.”

Tito Mouraz

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Na Beira Interior, Tito Mouraz fotografou o verão, a vivência do rio, da praia fluvial. Os locais e os emigrantes, que no verão regressam à sua terra e à sua família, aproveitam para se refrescar no calor, para uns mergulhos. Adultos e crianças. A paisagem e as pessoas. “Eu tenho um relacionamento e um passado com esta região”, diz Mouraz ao BJP, “uma fusão de lembranças felizes”. Por isso, entre 2011 e 2017 voltou ao mesmo local, com a sua câmara de médio formato e um flash grande, que não passa despercebido.

Algum desconforto, por vezes, “algumas das melhores imagens foram aquelas que vi e não fotografei. ”, diz. Foi criando relações com as pessoas, “eu sentia-me como um morador local ou como se pertencesse a uma família em particular pela maneira como fui recebido por alguns deles”. As fotografias surgiam então, por vezes nos verões seguintes.

São estas imagens que compõem a série “Fluvial”.

Mouraz posiciona-se muitas vezes ao nível da pessoa que retrata. O flash, presente na maior parte das imagens, intenso, quase anula o fundo, escurecendo-o, destacando-se a pessoa ou a sua presença, como as jovens ou a mão que acena da água. Como nas folhas verdes luminosas ou o cisne branco sobre a água negra.

Mais que a paisagem, fica o ato descontraído, familiar, como uma presença amiga, de algum modo, íntima, partilhada. Dir-se-ia como um “álbum de família”. Como de um conhecimento de há anos…

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Dois textos foram escritos especificamente para a série exposta: de Nuno Matos Duarte e de Humberto Brito.

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O olhar-em-presença como presença: do singular, do seu mistério

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O singular floresce, luminescente mas vulnerável, na figura feminina que emerge de um meio aquátil absortivo, lúgubre. Na margem da ribeira o observador olha e fotografa um rosto de mulher emoldurado pela esboçada oval de uma sombra, mas meio oculto por ramagens de árvores. Submersa até quase aos ombros, devolve-lhe um olhar enamorado. Este olhar tem o seu duplo no reflexo da água e, ao apresentar-se nele, torna-se denso e temeroso: a bela mulher vê o observador a olhá-la e, do seu ponto de vista, também ele se lhe apresenta meio oculto pela vegetação. O véu interpôs-se. Do intricado jogo de sedução que prende estes dois observados observadores assoma a inquietude desse misto de enamoramento e temor que se funda na consciência de que o olhar se tornará quádruplo: o do observador que fotografa também tem o seu reflexo, o seu duplo — no do espectador imaginado que verá a cena já consumada em imagem. Fascinado, o observador que fotografa tanto descobre como constrói, completamente mergulhado nestas sinuosas interrogações sobre a natureza do que é visto, assoberbado pelo milagre de uma imagem que fala de si própria como espelho-de-si. Num gesto apressado estas considerações parecem alimentar-se exclusivamente da evocação da condição do fotográfico, mas é sem esforço que no desfilar das imagens subsequentes esse gesto se adensa para pesar sobre os terrenos que o excedem, trilhando o caminho bem mais amplo e fértil que transcende a especificidade da disciplina. Este é, pois, um ultrapassar-se no apontar ao caminho de uma vida vivida na arte, numa arte que se constrói, daquela partindo para ser presença renovada.

A imagem que abre a série Fluvial é-nos dada como verdadeiro prelúdio que, todavia, não se limita ao papel que lhe coube — o magistral anúncio dos dotes que fixam a singularidade de uma imagética. Quer também sintetizar o que vem sendo a busca de Tito Mouraz e, de tão icónica, é provável que estabeleça também o sinal de uma outra etapa na sua obra. Já em séries anteriores, a atenção de Tito Mouraz ao humano e ao animal revelava preocupações identitárias face ao mistério cósmico — veja-se como em Casa das Sete Senhoras, a gente, os bichos, são o (e no) território, tanto no plano do meio físico, como no do indizível. Mas em Fluvial a localização geográfica e um certo apelo do antropológico perdem relevância estética e temática em favor da vastidão de uma relação: a do humano e do animal com a ideia de um específico elemento natural, o curso de água. Esta apetência pelo gesto de largo alcance, que já se intuía nas séries anteriores, atinge nesta, em pleno, a sua maturidade.

No sintetismo simbólico encontram estas imagens o seu dizer e, nele, carregam a força que guia o imaginário por lugares incertos: o curso de água está em toda a parte. Dir-se-ia, até pela evidente filiação desta temática a momentos concretos da história da arte, que é ela, a arte, o lugar onde esta água escorre para avolumar o rio que, desde Heraclito, constitui metáfora da irreversibilidade do tempo e causa da metamorfose dos seres e das coisas. É com o modo directo de quem vira ou verga o corpo para olhar que em muitas destas imagens se mostra não só essa metamorfose, mas também a fusão, dos seres entre si e deles com os elementos, por dissolução. Metamorfose e dissolução somam à capacidade a reacção e, contudo, como activos de adaptabilidade, revelam também um certo desencanto no homem, enquanto ser funcional e expectável, a cumprir-se face ao meio físico e social. Há uma perturbadora beleza na visão do gesto dinâmico destes corpos a apresentar-se como redução formal (assim moldados são eles também a rocha), nesse antagonismo entre tensão e liberdade, quando só esta deveria ter lugar neste habitat de contexto do lazer, essa possibilidade aprazada para o esquecimento do que constrange. Não menos perturbador é este mundo surgir, em algumas imagens, estranhamente estático, quando aparentemente tudo o conduziria para a dinâmica que o fluxo exige. E, contudo, apesar desta imobilidade que, sendo o perpetuar de um bem, é também uma ameaça, surge sempre povoado pelos vestígios de uma ideia de movimento perpétuo: na aventura, na ascensão, no mergulho, no salto, na fertilidade, na elevação, na comunhão, na ternura, no irisar dos fluídos.

Nuno Matos Duarte

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Fluvial

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Duas epidemias fotográficas mais ou menos inofensivas afectam, respectivamente, os  fotógrafos de natureza e os fotógrafos de território. Uma delas é, nas palavras de Lewis Baltz, a ‘estética de calendário’; a segunda, o olhar anestesiado pela ironia. Interessando-se embora pela natureza e dedicando-se, é certo, a um território particular delimitado (as praias e aldeias do interior norte e centro de Portugal), Tito Mouraz mostra-se mais do que imune a ambas: magnânimo. O que só comprova, aliás, sem surpresa, ele não ser uma coisa, nem a outra.

Fotografadas entre entre 2011 e 2017, estas cenas fluviais denotam antes uma reflexão longa     e paciente sobre modos decentes e sofisticados e relevantes de tratar uma geografia visualmente banalizada. Ajuda lembrar esta é, também, a sua geografia pessoal, o que está na origem de questões e dificuldades, fotográficas e não só, acrescidas (como tratar as próprias origens sem indulgência mas também sem dureza excessiva? como reinventar uma paisagem desgastada pelo hábito? etc.). A solução encontrada por Tito Mouraz parece ter sido a construção de uma atmosfera ficcional — uma ode ao lazer — a partir de gestos teatrais e de um desfamiliarização do olhar, mediante os quais preserva, ainda assim, quase paradoxalmente, um sentido íntimo de pertença e uma empatia desinibida.

A série Fluvial tece ainda uma analogia entre erosão e visão, baseada em analogias visuais    entre corpos humanos e outros corpos orgânicos e inorgânicos. Tal como as águas correntes torcem troncos de árvores e moldam blocos minerais, que emergem nestas imagens quase na condição de esculturas de land art, a relação de longo prazo com um território tem neste trabalho de Tito Mouraz uma função depurante e reveladora, levando a que veja estas figuras humanas, antes de qualquer outro aspecto, como formas análogas àquelas.

Este gesto tem um duplo efeito. Por um lado, sinaliza elegantemente os laços telúricos — ou em rigor, fluviais — entre certos corpos e certos lugares. Mutatis mutandis, desafia-nos, algo provocadoramente, por outro lado, a contemplar a perspectiva quase inconcebível de olha   para indivíduos humanos como peças de land art, como meras formas naturais. Figurantes fortuitos de um estudo continuado das formas, da luz e da cor, na geografia íntima que caracteriza o trabalho do autor ao longo da última década, o papel destas pessoas não é muito distinto do de modelos na pintura, salvo que se movem livremente. Dificuldade que aqui se resolve através de princípios de trabalho explicitados, em torno dos quais se declara — intencionalmente ou não — a indissociabilidade entre perícia técnica e decência para com um assunto.

Entre outros, são dignos de nota três. Primeiro, o uso da água não só enquanto elemento de suspensão (devolvendo o observador a uma irredutibilidade da forma humana), mas também enquanto instrumento óptico propriamente dito, a imagem refractada de cujos corpos mergulhados surge como uma metáfora da diluição da forma habitual dos indivíduos em período de férias. Depois, nalguns dos retratos, a conjugação magistral do flash com o recurso a aberturas grandes, conjugação de que resultam não exactamente fotografias da paisagem, mas fotografias de imagens da paisagem, como que cenários indefinidos diante das quais posam corpos humanos destacadamente, e por intermédio das quais o fotógrafo se apropria da natureza como seu amplo estúdio privado. E por último, a maneira como, através de um uso robusto da luz descontínua, os corpos se acentuam ainda em jogos de luz e sombra cujos precedentes talvez não estejam na tradição fotográfica, mas antes na história da pintura, em mestres como Manet ou Courbet.

Realista ainda que onírico, transmitindo um sentido pagão da natureza, e criando o efeito atmosférico e de um Domingo infinito, Fluvial imprime-se na memória como um sonho de Verão português.”

Humberto Brito

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António Bracons, Aspetos da exposição, 2018

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Tito Mouraz (1977) finalizou o curso de Artes Visuais e Fotografia na Escola Superior Artística do Porto em 2010, sendo esta a cidade onde vive e trabalha actualmente. Expõe regularmente desde 2009 em Portugal e no estrangeiro, sendo de destacar as exposições no Módulo Centro Difusor de Arte, Lisboa (Portugal); Format Festival International de Fotografia, Derby (UK); Blanca Berlin Galeria, Madrid (Espanha); Tampere Art Museum (Finlândia); Museu da Imagem, Braga (Portugal); Fotofestiwal Lodz (Polónia); Festival Circulation(s), Paris (França); Carpe Diem Arte e Pesquisa (Lisboa); Galeria Voies Off, Arles (França) e Encontros da Imagem, Braga (Portugal).

Em 2013 foi vencedor do Prémio Internacional de Fotografia Emergentes DST e da Leitura de Portfólios Carpe Diem Arte e Pesquisa. Editou os livros “Open Space Office” (2013) e “Casa das Sete Senhoras” (2016, aqui).

Em Portugal é representado pelo Módulo – Centro Difusor de Arte, Lisboa e em França pela Galeria Voies Off, Arles. Está presente em algumas colecções particulares, fazendo também parte da coleção do BESArt / NOVO BANCO Art.

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Pode conhecer melhor o autor aqui.

Pode ler uma entrevista sobre este projeto no British Journal of Photography aqui.

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