ADRIANO MIRANDA, CARVÃO DE AÇO, 2017

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Adriano Miranda

Carvão de aço

Fotografia: Adriano Miranda / Texto: Gonçalo Rocha, Rui Paiva, José Soudo

União das Freguesias de Raiva, Pedorido e Paraíso / Abril . 2017 (1.ª ed.), maio . 2017 (2.ª ed.)

Português / 22,5 x 30,0 cm / não paginado

Cartonado / 1.ª ed. – 500 ex., com o apoio do programa PORTUGAL2020; 2.ª ed. – 500 ex.

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Adriano_Miranda-Carvao de aco-Livro (1)

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“… Os mineiros do Pejão ensinaram-me os valores da dignidade e da luta. Os valores do Trabalho. Foi assim que me fiz. Com eles”

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“Por vezes ao fotografar sentia um arrepio na espinha. Que dureza naqueles braços. Que firmeza naquelas pernas. Como eram dignos aqueles homens. Eu era um menino de coro.”

Adriano Miranda, Carvão de aço, 2017

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Em 1992, Adriano Miranda, então com 26 anos, estudante no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa, queria, para o seu projeto académico, fotografar o trabalho infantil que se dizia povoar várias empresas e fábricas portuguesas. Escreveu por isso a várias empresas do distrito de Aveiro, de onde é originário. O engenheiro Rui Paiva leu a carta e a empresa que geria, a Carbonífera do Douro, que geria as minas do Pejão, onde não desciam crianças, foi a única que lhe respondeu.

Escreve Patrícia Carvalho no jornal “Público”, que conta como foi o primeiro dia de Adriano Miranda na mina, “não imaginava como seria”:

De tal modo, que levou a mãe com ele. “Para me fazer companhia”, recorda, hoje, sorridente. Emília acabaria por receber, como ele, o equipamento necessário para acompanhar os mineiros que se preparavam para mais um dia de trabalho: capacete com lanterna, fato-macaco, lenço, luvas. Quando estavam prontos, mãe e filho juntaram-se aos trabalhadores e desceram. “Ela havia de ir ainda mais duas vezes”, conta Adriano, que ainda se recorda bem daquela primeira segunda-feira que passou no Pejão, há 25 anos. “Primeiro, fiquei incrédulo quando me disseram que era para descer. Pensei que, por questões de segurança, não descesse. Depois, regra geral, não deixam descer mulheres, porque dizem que dá azar, mas os mineiros ali não acreditavam nessas coisas.”

A 400 metros de profundidade, com acesso por um “elevador a que chamavam jaula”, a escuridão é total, “trabalhavam sem ver a luz, em túneis que, por vezes, não tinham mais do que um metro de altura; e que saíam de rostos pintados pelo carvão que extraíam lá em baixo, tornado mais negro pelo contraste dos sorrisos brancos que alguns exibiam.” “

As minas chegaram a dar trabalho a 1.700 pessoas, viriam a fechar em 31 de de Dezembro de 1994, então reduzidas a 500 trabalhadores.

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ApresentaçãoCarvaodeAço

Cartaz da exposição

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O livro “Carvão de Aço”, recolhe 130 das cerca de 2.000 fotografias que Adriano Miranda realizou, foi lançado a 1 de maio de 2017, Dia do Trabalhador, data simbólica, no Poço 1 de Germunde, em Pedorido, Castelo de Paiva, nas próprias minas, onde apresentou em exposição algumas das imagens, numa homenagem aos mineiros – a quem o livro, numa iniciativa da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, foi oferecido – e, também, chamando a atenção para o património industrial.

As fotografias estão organizadas acompanhando um dia de trabalho dos mineiros, das 8h às 15h, desde o momento que descem à mina até regressarem, terminando na hora do banho. “Os mineiros, ao ver o livro, vão voltar a descer à mina, como faziam há 25 anos, vão rever o antigo dia de trabalho”, diz Adriano Miranda, que sublinha:

Não é um livro normal. O livro [é] todo preto, desde a capa à contracapa. É como se fosse uma peça de carvão. Não há miolo, nem margens brancas. O branco que existe é apenas das fotografias. Tudo preto para se sentir a intensidade da mina.”

Ao folhear viajamos no negro, no escuro. Mesmo as pequenas notas pessoais que introduz, estão a cinza, para não perturbar o ambiente de escuridão da mina, do livro. Há apenas uns pontos de luz, dos capacetes, particularmente quando se está no fundo… E esses pontos de luz iluminam mais qualquer coisa em redor. Há esforços e sorrisos. Há trabalho e dignidade. Há Homens.

Em entrevista à RTP refere:

As minas são de carvão, e de aço, porque os mineiros são pessoas muito orgulhosas, muito fortes, tanto no trabalho como nas convicções, e também um pouco homenagem àquela mina em 1994, quando lutaram contra o encerramento … têm nervos de aço.”

Os textos sublinham esta realidade: Gonçalo Rocha, presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, escreve “As Minas”, ressaltando a sua importância para o concelho; Rui Paiva, Diretor de Exploração dos últimos 25 anos das Minas do Pejão, escreve “O Mineiro do Pejão”, sobre a dignidade destes homens e José Soudo, fotógrafo e docente de Fotografia e de História da Fotografia, realça estes “Homens de aço, sujos de carvão”.

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Adriano Miranda, Carvão de aço, 2017

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“Carvão de Aço” foi apresentado no Porto em 12 de maio e será apresentado em Lisboa a 19 de maio de 2017, pelas 21:00, na Livraria Ler Devagar, na LxFactory.

Pode ver a reportagem da RTP aqui.

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