CLAUDIA ANDUJAR, VISÃO YANOMAMI

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Sem dúvida, minha fotografia é marcada pelo meu passado. Um passado de guerra, um passado de minorias. Isso é algo que não só me preocupa, mas me perturba. É parte da minha vida. Me interesso muito pela questão da justiça e das minorias que estão tentando se afirmar no mundo, mas se deparam sempre com um dominador que procura apará-las. Mas existe também um outro lado, que é a estética, o equilíbrio, presentes nas minhas imagens. Nem sempre o lado social pode se juntar ao lado estético. Eu sofro por isso. Quando consigo juntar as duas coisas, me sinto aliviada.”

Cláudia Andujar (Persichetti, 2000)

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Claudia Andujar, Visão Yanomami, 1974 – 1983

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Todos temos fotografias nossas, das nossas vidas, do modo como vivemos. Os nossos registos familiares, as reportagens, as notícias… É um registo do quotidiano, permanente.

No entanto, se recuarmos poucas décadas e entrarmos na selva amazónica – ou nalguns lugares de África, ou não sei em quantos outros territórios – ainda havia / há povos que vivem longe da tecnologia, da evolução técnica, para quem a fotografia é algo desconhecido ou que, pelo menos, não faz parte das suas vidas. Não têm desse modo nenhum registo da sua vida quotidiana, das suas pessoas, casas, espaços, paisagens…

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Cláudia Andujar, fotojornalista, foi escolhida pela revista Realidade, em 1970, para fazer uma reportagem sobre os Yanomami, para um número sobre a Amazónia. Este trabalho leva-a a abandonar o fotojornalismo, a que se aplicara uma década antes, para se dedicar a esta tribo, a sétima maior tribo indígena brasileira: vivem em cerca de 250 aldeias, numa área de 192.000 Km2, entre o Brasil e a Venezuela, onde são cerca de 22.000 e 16.000 pessoas, respetivamente. A artista viveu entre os Yanomami na região do rio Catrimani.

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O texto elaborado pela curadoria da exposição, o Instituto Inhotim, dá a conhecer a fotógrafa e o desenvolvimento da sua obra:

 

Claudia Andujar nasceu com o nome de Claudine Haas em Neuchâtel, na Suíça, a 12 de junho de 1931. Filha de mãe suíça protestante e de pai judeu húngaro, cresceu em Oradea, na Transilvânia, onde viveu até os 13 anos. Após a família do pai ser levada para campos de concentração nazis, fugiu com a mãe para a Suíça, onde viveu por três anos, até mudar-se para Nova Iorque onde começou a interessar-se pelas artes. Em 1955, mudou-se para São Paulo, onde se encontrará com a mãe. Na chegada ao Brasil, Andujar começa a fotografar “como forma de se comunicar”, registando comunidades caiçaras no litoral paulista e viajando por outros lugares do país. Nos sessenta, dedicou-se ao fotojornalismo e voltou várias vezes a Nova Iorque, onde se familiarizou com o universo da fotografia artística e fez as suas primeiras exposições. A partir de 1972, iniciou o seu trabalho fotográfico junto aos Yanomami, pesquisando na documentação a vida tradicional destes índios. Em 1978, um ano após ter sido expulsa da área indígena pela Funai, criou a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), trabalho que resultou na demarcação e homologação da Terra Indígena Yanomami e Ye’kuana, em 1992. Desde o final dos anos 1980, Andujar faz exposições em que revisita o seu arquivo fotográfico, utilizando as suas imagens com o objetivo primordial de lutar pelo direito dos Yanomami à sua terra e identidade cultural.

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CLAUDIA ANDUJAR_VISÃO INDÍGENA

Muitas razões levaram Claudia Andujar à Amazónia – o seu interesse pelos povos indígenas vem desde os anos 1950 e 1960, quando fotografou os Carajá, os Bororo e os Kayapó Xikrin, no Brasil Central. Em 1970, quando foi escolhida pela revista “Realidade” para participar num número sobre a Amazónia, tem o seu primeiro contacto com os Yanomami. Essa incursão também a leva a diferentes partes do território, criando um corpo de obra, sobre natureza, ainda hoje pouco conhecido.

Os retratos presentes nesta exposição foram feitos na região do rio Catrimani (Wakata-ú) onde, em diferentes aldeias, Claudia Andujar passou as suas mais longas temporadas vivendo com os Yanomami. Um dos resultados desta imersão foi o aprofundamento da prática retratística, um dos principais aspetos de toda a sua obra. Para falar num método, é preciso entender que a longa permanência entre os Yanomami é a condição sine qua non do trabalho. Neste sentido, desfaz-se a separação rígida entre fotos posadas e instantâneos, já que a artista buscava uma forma de comunicação em que sua presença fosse incorporada pelo outro. Assim, em seu vasto espólio, há desde retratos feitos durante o transe xamânico até um conjunto de ações que o fotografado desempenha para a câmera. A busca é por aquilo que é pessoal em cada retratado, incluindo rosto e corpo, mas também ornamentos que conferem pessoalidade na construção do indivíduo. Relembrando hoje o momento de feitura desses retratos, Andujar diz «Essencialmente eu procurava penetrar e entender o pensamento da pessoa. E consegui encontrar o que procurava. O olhar, sem dúvida, é importante para mim. Ele é uma forma de se comunicar com o outro, mas pode ser também um gesto, o que leva a este momento em que se sente que está em comunicação íntima com as pessoas. Uma ideia de beleza também me interessava – acho os Yanomami muito bonitos. Tivemos um calor humano entre nós. Mas isso levou tempo. E quando falo de tempo estou me referindo a anos.»

Em 1971, Claudia Andujar abandona a carreira de fotojornalista para se dedicar a um projeto autoral de grande escala. Inicia a elaboração de um longo ensaio sobre os Yanomami, que dura até 1977, com sua expulsão da área indígena e enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Para a artista, tratava-se de fazer um registo para a posteridade de uma população de contacto recente, colocada em risco por planos acelerados de penetração do território Amazónico por parte do governo militar. Yanomami é um etnómino (nome dado a um povo) adotado por antropólogos, que quer dizer ser humano em oposição a napëpë, que significa estrangeiros. O aprendizado da cultura indígena é fundamental no trabalho de Andujar e isso está patente nesta exposição, através de algumas imagens da vida na casa comunitária (shabono) e muitas delas registam o reahu, uma grande cerimónia que envolve várias comunidades, ingestão do alucinógeno yakoana, danças, abraços, transes. As fotografias procuram transmitir essa aprendizagem por meio do uso da luz, que simboliza o mundo dos espíritos (xapiripë) evocados pelos xamãs.

Num período de pouco menos de dez anos, Andujar fez uma longa imersão na cultura Yanomami e integrou-se no ativismo pelos seus direitos, com a criação da CCPY – Comissão Pró-Yanomami. Como referido, publicou em várias revistas da época, tais como o número especial Amazónia da revista “Realidade”, publicado em 1971, cuja reportagem de capa são as primeiras fotografias feitas na aldeia do Maturacá. O livro “Amazônia”, parceria com o fotógrafo George Love e publicado em 1978, é um mergulho pelas paisagens da Amazónia e tem imagens feitas pela artista, na região do rio Catrimani. E do mesmo ano são “Yanomami” e “Mitopoemas Yãnomam”, este em parceria com o missionário Carlo Zacquini, que retratam em fotografias e desenhos indígenas a cultura deste povo. Outra publicação importante na carreira de Andujar é “Genocídio do Yanomami: Morte do Brasil”, publicado pela CCPY, para acompanhar a exposição homónima que aconteceu no MASP, em São Paulo, em 1989, no auge da campanha pela demarcação da terra indígena.

Entre 1981 e 1983, Claudia Andujar produziu uma série de retratos – Marcados -, feitos em circunstâncias muito diferentes daqueles nos anos 1970. Como parte do trabalho da CCPY, criou um grupo com a participação de médicos da Escola Paulista de Medicina, que percorreu quase a totalidade do território Yanomami com o objetivo de entender a situação de saúde daquelas populações. Andujar tinha como tarefa a recolha de informações, identificar e retratar cada um dos pacientes atendidos. Como os Yanomami não têm por cultura o uso de nomes próprios usava a técnica de identificação “marcando-os” com números. Os dados levantados serviram de base para o Relatório Yanomami (1982), documento fundamental para a demarcação da Terra Indígena, que continua a ser uma questão de grande atualidade no Brasil. Muitos anos depois, Andujar resolveu editar essas imagens como uma vasta série de retratos, agrupados por regiões. Para ela, este trabalho, talvez a sua mais importante série em torno dos conflitos causados pelo contacto, relaciona-se diretamente com sua biografia e a experiência com os estigmas racistas, que viveu durante a perseguição dos nazistas a seus familiares na Transilvânia. «Os judeus eram marcados com a estrela de Davi para morrer. Eu estava marcando os Yanomami para que eles sobrevivessem», conta Andujar.”

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A exposição de Claudia Andujar “Visão Yanomami” integra a programação de “Passado e Presente Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura 2017”, e é apresentada de 11 de fevereiro a 15 de abril de 2017, no Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico, na Rua da Palma, 246, em Lisboa.
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