AAVV, ENTRE FORÇAS: HUMANA NATUREZA, 2016

Teresa Martelo, Rui Dias Monteiro, João Mota da Costa, Leonor Fonseca, Juliana Falchetti, Carolina Pimenta, Inês M. Silvestre, João Valinho, Miguel Lobo, João Afonso Januário, Fernando Brito, Miguel Opes, Rita Cadete

 

 

 

 

ENTRE FORÇAS: HUMANA NATUREZA, 2016

Fotografia: Teresa Martelo, Rui Dias Monteiro, João Mota da Costa, Leonor Fonseca, Juliana Falchetti, Carolina Pimenta, Inês M. Silvestre, João Valinho, Miguel Lobo, João Afonso Januário, Fernando Brito, Miguel Opes, Rita Cadete / Texto: Cláudia Camacho, Victor dos Reis, Rogério Teixeira

Lisboa: Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa / julho 2016

Português / 14,8 x 21,1 cm / 72 págs

Brochura / Catálogo da exposição

 

 

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Parto do texto da curadora, Cláudia Camacho, no catálogo da exposição, para fazer a apresentação dos projetos, com fotografias da exposição:

 

“O que há de melhor nas ciências é o seu ingrediente filosófico, como a vida é o que há de melhor nos corpos orgânicos. Despojem as ciências da sua filosofia, que fica? Terra, ar e água.”

(Novalis, in Fragmentos)

 

A exposição “Entre Forças: Humana Natureza” reúne os trabalhos dos treze alunos da pós-graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Ao longo do ano lectivo de 2015/2016 os alunos desenvolveram projectos autorais com os tutores António Júlio Duarte, João Tabarra, José Luís Neto e Paulo Catrica. Da análise feita aos trabalhos, que foram sendo desenvolvidos durante a formação, observou-se que os mesmos se bifurcavam em duas pujantes temáticas: a força do Homem e a força da Natureza, com todas as fragilidades que uma força possa conter. O aumento do poder humano através da pesquisa tecnológica tem sido discutido nestes últimos anos de forma assídua; a inteligência artificial avança, por exemplo, incontornavelmente.

A introdução em simultâneo das palavras “humana” e “natureza” no motor de pesquisa mais conhecido a nível mundial, reencaminha-nos, de imediato, para o conceito “natureza-humana” incidindo sobre a condição humana uma superioridade face à norma da Natureza.

No entanto, ao longo dos séculos e apesar da sua paralela convivência com o Homem, a Natureza tem resistido a deixar-se humanificar: o vento continuará a soprar, a água do rio jamais alterará o seu curso e a terra, quando bem entender, poderá sempre sacudir o Homem de forma a lembrá-lo da sua magnificência. Este confronto entre as forças humana e natural, na verdade, tem percorrido a história da Existência, desenhando várias linhas de pensamento.

O circuito expositivo inicia-se rondando as postulações dos estados mentais inconscientes estudados por Freud. No trabalho de Teresa Martelo

 

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Teresa Martelo, Mnemónica, 2016

 

somos conduzidos, através de um sonho vivido na infância, a visitar espaços corporalmente habitados. A procura do pormenor faz-se sentir não só no seu trabalho como também no de Rui Dias Monteiro,

 

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 Rui Dias Monteiro, Sombras limpas, 2016

 

onde o verbo se conjuga com a imagem numa busca rodopiante de sentido. Marx defendia que a natureza humana é essencialmente social, ou seja, pressupunha a existência de outras pessoas. Talvez tenha sido a impossibilidade de trabalhar sobre o outro que nos tenha levado a criar o auto-retrato, no fundo, uma eterna fuga de nós mesmos. Um corte entre corpo e alma, profetizado por Platão, deixa-nos em constante processo de cicatrização. João Mota da Costa

 

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João Mota da Costa, série Habitáculos Temporários, 2016

 

retrata as imensas cirurgias vívidas e os seus processos regenerativos. Gessos que imobilizam, em habitáculos temporários, moldando as lesões, aquietando os ossos. Duzentos e seis, por norma.

A regeneração do Homem é amplamente fomentada pelas teorias cristãs que encontram em Deus o perdão. Leonor Fonseca

 

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Leonor Fonseca, série Coming soon, 2016

 

recorre a passagens bíblicas dessacralizando-as, colocando-as no sopé divino, aniquilando o simbolismo e mostrando que ao pó voltaremos. A transgressão de preceito religioso, o Pecado, se assim o quisermos chamar, tem imposto sobre o Humano limitações várias. O trabalho de Juliana Falchetti

 

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Juliana Falchetti, Untitled, 2016

 

reflecte sobre as barreiras auto-impostas, limites sem contornos bem definidos que nos castram e que nos condicionam. Inês M. Silvestre

 

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Inês M. Silvestre, The dreamers, 2016

 

reúne um conjunto de sonhadores de olhos postos no horizonte; essa linha imaginária, em perspectiva, que passa a recta de fuga, em projectiva. Talvez a fuga que Sartre sempre procurou quando descobriu que estava condenado à liberdade. Uma liberdade procurada por Carolina Pimenta

 

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Carolina Pimenta, Fragmentos I, II, III, 2016 (vídeo instalação com som, dur. Variável)

 

através das batalhas que defronta com o mar, com o ar e com a terra. Gestos rectos repetitivos sobre uma pedra curvilínea insinuam uma tomada de consciência da própria liberdade que pode tornar-se angustiante. Gritos surdos, confrontos com o real, fuga ao desconhecido, ao que não conseguimos apreender. Miguel Opes,

 

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Miguel Opes, Animal luz (vídeo)

 

a partir da pintura “La Source de la Loue”, de Gustave Courbet, faz recair a sua atenção sobre as matérias sonoras e imagéticas: som, imagem, gravidade.

Os efeitos da actividade humana no clima e no funcionamento dos ecossistemas da Terra implicam uma mudança radical na ciência tal como a conhecemos. Merleau-Ponty acreditava que a ciência manipulava as coisas e, como tal, renunciava a habitá-las. Já não podemos conceber um processo evolutivo sem a interferência do homem e da tecnologia. João Valinho,

 

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João Valinho, Humano testemunha a destruição de uma estrela, 2016 (conjunto, fragmento)

 

reflecte sobre a era antropoceno, uma nova era geológica onde Homem e Natureza são indivisíveis. A época em que os humanos substituirão a Natureza como a força ambiental dominante na Terra é sentida não só por Miguel Lobo,

 

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Miguel Lobo, Degelo, 2016

 

em forma de “solastalgia”, em forma de angústia perante o anúncio do desaparecimento da paisagem tal qual a conhecemos, como também por João Afonso Januário

 

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João Afonso Januário, Densidade vizinha, 2016

 

 que retrata o desconforto perante o desaparecimento em massa de palmeiras assoladas pela praga do escaravelho e que ditaram milhares de abates.

Descamada. Ansiosa por uma hidratação que a regenere.

Composta por epiderme, derme e hipoderme, a pele, sobre a qual o trabalho de Rita Cadete

 

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Rita Cadete, Skincare, 2016

 

se debruça, é o maior orgão do corpo humano; sem ela, a nossa sobrevivência seria impossível. Assim como sem a água. Os percursos cíclicos e eternos, as suas viagens em trajectos entre superfície e profundidade são analisados através da instalação de Fernando Brito. Uma visão analítica sobre o engenho.

 

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Fernando Brito, Sink, 2016

 

O Homem, através da ciência, a poetizar a, já por si, poetizável Natureza.
“Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido.”
(Novalis, in Fragmentos)”

 

 

 

Um conjunto de 13 projetos distintos, na essência e no modo, com diferentes técnicas, apresenta-se de modo coerente permitindo uma leitura independente de cada trabalho.

Alguns nomes já conhecidos, outros novos.

Uma reflexão profunda de cada autor.

Uma mesma exigência e qualidade.

 

 

O catálogo da exposição, apresenta para cada autor, uma nota biográfica, contacto, um texto sobre o projeto e os dados técnicos da obra, bem como a reprodução de algumas das obras.

 

 

 

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Exposição patente na Carpe Diem – Arte Pesquisa, na Rua de O Século, em Lisboa, de 16 a 30 de julho de 2016.